
Cortes de geração de energia ocorreram no dia 8 de março e chegaram a atingir pelo menos 70% da geração renovável – de usinas eólicas e solares centralizadas – que poderia ser gerada naquele dia, segundo o CEO e fundador da consultoria Volts Robotics, Donato Filho. Os cortes variaram de acordo com o horário. “O corte máximo ocorreu em alguns momentos por volta de meio dia, alcançando 20 mil megawatts (MW) médios. É como se estivesse sendo jogada fora a energia gerada por uma Itaipu e meia”, comenta Donato, acrescentando que quem está sofrendo com isso é o Nordeste.
Além do desperdício, Donato argumenta que os cortes de geração estão contribuindo para “perda de investimento na região, cancelamento de obras, gente que vai embora, perda do emprego” e de renda nas comunidades.
“Os cortes de geração são determinados pelo Operador Nacional do Sistema (ONS) determinando que as empresas diminuam a produção de energia em momentos em que a geração está muito maior do que o consumo – como ocorre durante as manhãs, principalmente aos domingos – ou quando não há linhas de transmissão para escoar a energia. Aos domingos, o consumo de energia cai e as usinas solares apresentam um pico de produção por volta de meio dia.
Donato considera os cortes uma medida “horrível” porque revela falta de coordenação no sistema elétrico. O especialista afirma que foram criados incentivos para construção de usinas eólicas e solares, mas não houve avanço na implantação de novas linhas de transmissão, na instalação de sistemas de baterias – que poderiam armazenar a energia nos momentos de pico de geração – ou estímulo ao consumo em determinados horários, como por exemplo pelas manhãs. “A Aneel está discutindo a implementação de baterias desde 2020 e falta um senso de que isso é urgente”, afirma Donato.
Impacto econômico dos cortes de energia
O impacto econômico dos cortes aumentou. “De janeiro a 11 de março de 2025, os cortes atingiram 5,2 milhões de Megawatt-hora (MWh). No mesmo período de 2026, foram cortados 4,1 milhões de MWh. No mesmo período deste ano, os cortes chegaram a 4,1 milhões de MWh”, conta Donato, acrescentando que nesta mesma época em 2025 ocorreu uma tempestade que derrubou as linhas que vinham do Rio Madeira. “Quando retiramos os cortes por causa deste acidente no ano passado, o corte fica em 2 milhões de MWh. Ou seja, o corte dobrou, o que é grave”, afirma.
“Grave” também é o impacto econômico estimado para os cortes de geração nos períodos citados acima, diz Donato. De janeiro a 11 de março do ano passado, os cortes fizeram as empresas perderem um valor estimado em R$ 311 milhões e no mesmo período deste ano as perdas das empresas estão estimadas em cerca de R$ 900 milhões, de acordo com Donato. Este ano, a energia está mais cara este ano por vários motivos, incluindo menos água nos reservatórios das principais hidrelétricas do Sudeste.

Classificar os cortes seria um bom começo, segundo Donato
O especialista argumenta que interessante seria classificar os cortes de geração, identificando aqueles que ocorrem por sobreoferta de energia e os que acontecem por falta de infraestrutura, como, por exemplo, a energia que não pode ser escoada por falta de linhas de transmissão. “Ter a regra de como classificar o corte de uma forma transparente e produtiva. Isso diminuiria muito a percepção de risco dos agentes, dando uma esperança e um fôlego”, comenta.
Ele cita outro dado interessante. Em algumas horas da manhã, as usinas de Micro e Minigeração Distribuída (MMGD) chegam a atender 46% do consumo do País. As usinas de MMGD – geralmente são solares – e não sofrem cortes de geração, porque os excedentes gerados entram diretamente na rede do sistema elétrico. “A gente defende que todos deveriam ser cortados, quando existe esta sobra”, explica Donato.
Quando há excesso de geração e a ONS produz cortes acima de 80% da geração “se vive uma situação perigosa, porque há risco de apagão”, conclui Donato.
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