- Publicidade -

Justiça suspende planta de hidrogênio verde no Piauí por risco hídrico e elétrico

Decisão trava projeto da Solatio H2V Piauí após alertas do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) e falta de outorga federal
- Publicidade -
Parque industrial da Solatio na Zona de Processamento de Exportação (ZPE) de Parnaíba Piauí hidrogênio verde
Medida determina a paralisação imediata das obras em Parnaíba, sob pena de multa por descumprimento no valor de R$ 1 milhão. Foto: Divulgação

​A suspensão liminar da planta de hidrogênio verde da Solatio H2V Piauí, em Parnaíba, interrompe o cronograma de um dos ativos mais ambiciosos da transição energética piauiense. A decisão da Justiça Federal atende a um pleito do Ministério Público Federal (MPF) e determina a paralisação imediata das obras, sob pena de multa por descumprimento no valor de R$ 1 milhão. Segundo o MPF, os trabalhos ocorrem com a ausência de outorgas federais indispensáveis para um empreendimento, que prevê o consumo massivo de 91 milhões de litros de água por dia do rio Parnaíba.

A medida trava um investimento estratégico no momento em que o Brasil tenta se consolidar como exportador global de amônia, revelando que a celeridade regulatória estadual colidiu com a competência técnica de agências da União.

​Mais do que um conflito de jurisdição, o caso levanta alertas sobre a infraestrutura de suporte ao projeto e a estabilidade da rede. O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) emitiu parecer técnico desfavorável à conexão da planta, citando riscos reais de sobrecarga e colapso de tensão nas linhas de transmissão regionais.

Sem a garantia de estabilidade elétrica e a validação da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), o projeto enfrenta agora um vácuo de viabilidade técnica que eleva drasticamente o custo de capital para os proponentes e afasta o horizonte de retorno dos investidores.

Precaução e segurança hídrica

​A decisão assinada pelo juiz federal Flávio Ediano Hissa entende que a paralisação imediata das obras reflete a aplicação estrita do princípio da precaução, priorizando a segurança hídrica e a proteção de comunidades tradicionais sobre o avanço físico do canteiro industrial.

​O magistrado foi enfático ao determinar que a empresa deve instaurar o procedimento administrativo na ANA em um prazo de 15 dias úteis. No texto da liminar, ele ressalta que a continuidade das obras sem esses estudos esvazia o caráter preventivo do licenciamento ambiental e coloca em xeque a subsistência de populações ribeirinhas.

De acordo com o juiz, em sua sentença, a decisão visa “suspender os efeitos da Licença de Instalação, vedando-se o início ou a continuidade de quaisquer obras ou atos de implantação a ela vinculados”, sob o risco de comprometer ativos federais especialmente protegidos.

Suspensão se fundamentou na ausência de outorgas federais para um empreendimento, que prevê o consumo massivo de 91 milhões de litros de água por dia do rio Parnaíba. Foto: Chico Rasta/MTur

​A fragilidade do processo reside na tentativa de validar um licenciamento de escala industrial por esferas estaduais sem o devido endosso de órgãos reguladores da União. O rio Parnaíba, por ser um corpo d’água de domínio federal, exige que qualquer captação desse porte passe pelo crivo técnico para assegurar que o uso não comprometa a disponibilidade hídrica de outros entes da bacia.

​O parecer do ONS sobre a inviabilidade de acesso à rede elétrica adiciona uma camada de complexidade técnica. O operador alertou para o risco de colapso de tensão, indicando que o sistema de transmissão atual não suportaria a carga demandada pela eletrólise na escala planejada pela Solatio.

Essa restrição técnica é o coração da insegurança que paralisou as máquinas, pois atesta que o projeto foi desenhado sobre uma base de infraestrutura insuficiente para o atual estágio do Sistema Interligado Nacional (SIN).

​O pivô estratégico para data centers

​Diante do bloqueio jurídico e das limitações da rede, a Solatio começou a desenhar uma rota de fuga comercial para o ativo em Parnaíba. A empresa busca mitigar a crise informando que “interrompeu imediatamente todas as atividades relacionadas ao projeto de hidrogênio e amônia verdes em Parnaíba (PI) assim que tomou conhecimento da manifestação do Ministério Público Federal”.

​Em resposta ao novo cenário, a companhia sinalizou uma mudança radical na tese de uso da área para garantir a viabilidade do negócio. Segundo nota enviada à imprensa, a empresa explica que “diante do atraso e das restrições técnicas identificadas para o acesso ao Sistema Interligado Nacional (SIN), na escala originalmente prevista, a Solatio avalia alternativas para implantação do projeto, incluindo seu redimensionamento e sua requalificação como complexo de data centers”.

A tentativa de transformar o parque em um centro de processamento de dados é uma resposta à demanda crescente por infraestrutura digital, mas exigirá uma nova e exaustiva rodada de licenciamento.

​O MPF argumenta que o licenciamento estadual foi concedido sem observar o impacto direto sobre Unidades de Conservação federais, como a Área de Proteção Ambiental do Delta do Parnaíba. Órgãos como o ICMBio e o Ibama agora possuem 45 dias para fornecer informações técnicas sobre a viabilidade regulatória e os possíveis impactos interestaduais da operação.

​Impactos na tese de investimento no Piauí

​A decisão judicial também pressiona a Aneel para que esclareça o enquadramento regulatório do empreendimento em meio ao conflito técnico com o ONS. Se o operador mantém a tese de que há risco de colapso das linhas de transmissão, qualquer nova licença dependerá de investimentos pesados em subestações e reforço de rede.

​A Solatio tenta manter o otimismo regional ao declarar que o novo projeto de infraestrutura digital “mantém o compromisso da empresa com o desenvolvimento econômico regional, geração de empregos qualificados e atração de investimentos complementares”.

Procurado pelo Movimento Econômico, o Governo do Piauí disse que ainda não foi notificado e que a “PGE-PI (Procuradoria-Geral do Estado) adotará as medidas processuais cabíveis assim que for adequadamente intimada do conteúdo da decisão”.

Leia também: Aneel prevê crescimento de 9,1 GW na matriz elétrica
brasileira em 2026

- Publicidade -
- Publicidade -

Mais Notícias

- Publicidade -