
A sobretaxa imposta pelo governo dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, o chamado “tarifaço de Trump”, já provoca cancelamentos de contratos e ameaça de demissões na cadeia da castanha de caju do Ceará. O estado é um dos maiores exportadores tanto da castanha quanto do LCC (óleo extraído da casca), ambos com os EUA como principal destino. Só a castanha movimentou US$ 13,8 milhões entre janeiro e agosto. No segmento de sucos e extratos vegetais, onde atua a LCC, os números de 2025 mostram que as exportações para os Estados Unidos somaram US$ 5,08 milhões.
Os dados do Comex Stat confirmam a relevância da castanha de caju na pauta exportadora do Ceará. Entre janeiro e agosto, os embarques somaram US$ 13,8 milhões, contra US$ 12,3 milhões em 2024, um avanço de 12,8% em valor. O volume exportado também cresceu, passando de 2,15 milhões para 2,21 milhões de quilos, mas o que chama atenção é a valorização do produto: o preço médio da castanha vendida aos EUA subiu de US$ 5,72 por quilo em 2024 para US$ 6,27 em 2025, um aumento próximo de 10%.

Cancelamentos e renegociações
Na visão do setor produtivo, os impactos já são sentidos. André Moraes, gerente de comércio exterior da Amêndoas do Brasil, lembra que as sobretaxas vinham sendo sinalizadas, mas a confirmação trouxe consequências imediatas.
“O setor já esperava pelas sobretaxas desde que o governo americano começou a dar sinais. Seguramente houve cancelamentos e renegociações de contratos de exportação”, explica.
O maior receio, segundo ele, é sobre empregos. “Há sérios riscos de demissões por força de uma necessidade no redimensionamento do volume processado. Seguramente gerou cancelamentos e negociações para vendas nos meses por vir.”
Apesar de reconhecer os esforços das autoridades, ele pondera que ainda há indefinições. “Assim como as medidas do governo do estado, as medidas anunciadas pelo governo federal ainda não se apresentaram de forma concreta para o setor, portanto ainda sem clareza em relação a linhas de crédito e demais possíveis ações.”
Cadeia completa ameaçada
O impacto vai além da castanha. O Ceará também exporta LCC (Cashew Nut Shell Liquid), óleo extraído da casca e utilizado em diversos segmentos industriais nos EUA, ampliando a exposição da cadeia produtiva às sobretaxas americanas.

Efeitos na logística
Na logística, os efeitos também aparecem. A Fortallog, especializada no transporte rodoviário de frutas, mel, pescado e madeira, registra queda no volume de cargas destinadas ao mercado norte-americano. De acordo com o CEO, Zakaria Benzaama, a empresa movimenta cerca de 200 containers por semana, dos quais 20% têm os EUA como destino. A sobretaxa já resultou em uma redução de 5%.
“Com o tarifaço, muitos dos volumes foram desviados para o mercado interno, consequentemente diminuindo o transporte via portos”, explica.
Para ele, as ações governamentais são um apoio importante nesse momento de transição: “As medidas do governo federal e estadual servirão para amenizar os impactos na perda de ganhos dos produtores e, consequentemente, da logística.”
Medidas de apoio
O Governo do Ceará, por meio de decreto assinado pelo governador Elmano de Freitas, regulamentou um programa emergencial de mitigação para setores mais afetados, com foco na manutenção de empregos e do ambiente de negócios. Entre as ações previstas estão a aquisição de crédito de exportação, a redução de encargos financeiros do Fundo de Desenvolvimento Industrial (FDI), a concessão de subvenção econômica e a compra direta de alimentos pelo Governo do Estado.
Já o Governo Federal determinou a compra de sete produtos impactados pelo tarifaço — açaí, uva, água de coco, mel, manga, pescados e castanhas — para abastecer merenda escolar, hospitais, universidades e Forças Armadas. As aquisições, sem necessidade de licitação, serão feitas com recursos dos programas PNAE, PAA e de compras institucionais.
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