
Micro, pequenas e médias empresas foram o principal destino do crédito aprovado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) no Nordeste no primeiro trimestre de 2026. Dos cerca de R$ 3,38 bilhões aprovados pelo banco para a região entre janeiro e março, aproximadamente R$ 2,19 bilhões foram destinados às MPMEs, o equivalente a 65% do total. O movimento reflete uma estratégia do banco para ampliar a capilaridade do financiamento e reduzir barreiras históricas enfrentadas pelos pequenos negócios.
Segundo dados do BNDES, a Bahia concentrou o maior volume de crédito aprovado para MPMEs no Nordeste no primeiro trimestre, com R$ 726,1 milhões, alta de 79,8% em relação ao mesmo período de 2025. Em seguida aparecem Maranhão, com R$ 354,7 milhões; Ceará, com R$ 314,6 milhões; Pernambuco, com R$ 240,3 milhões; Paraíba, com R$ 150,8 milhões; Piauí, com R$ 129,8 milhões; Sergipe, com R$ 107,3 milhões; Alagoas, com R$ 88,2 milhões; e Rio Grande do Norte, com R$ 83,6 milhões.
Em termos percentuais, a Paraíba teve o maior avanço entre os estados nordestinos no crédito para MPMEs, com alta de 434,2%. Sergipe cresceu 365%, Rio Grande do Norte avançou 361,1% e Ceará registrou aumento de 212,4%.
O aumento nos valores aprovados para as MPMEs tem relação direta com uma estratégia do banco de se aproximar de empresas de porte menor para impulsionar linhas de crédito e acesso ao sistema financeiro, historicamente mais associadas a grandes projetos de investimento.
Em entrevista ao Movimento Econômico, a diretora de Crédito Digital para MPMEs e Gestão do Fundo do Rio Doce do BNDES, Maria Fernanda Coelho, explicou que o avanço do crédito para pequenos negócios combina uma decisão estratégica do banco com o uso de fundos garantidores e a ampliação da rede de instituições financeiras parceiras.
Segundo ela, os recursos têm sido buscados principalmente para capital de giro, compra de máquinas e equipamentos, inovação, digitalização e modernização dos negócios.
“Normalmente, as micro e pequenas empresas têm mais dificuldade em apresentar garantia real. O fundo garantidor possibilita ampliar o leque de atendimento para que elas possam acessar tanto capital de giro quanto recursos para máquinas e equipamentos com recursos do BNDES”, afirmou.
Segundo Maria Fernanda, além do Fundo Garantidor para Investimentos (FGI), o banco passou a contar com o fundo garantidor BNDES-Sebrae, criado em 2024 e voltado especialmente para micro e pequenas empresas. A medida busca ampliar a segurança das instituições financeiras operadoras, que fazem a análise de risco e liberam o crédito na ponta.
Com isso, o BNDES opera também por meio de instituições financeiras credenciadas, que permite à instituição financeira estar presente em mais de 93% dos municípios brasileiros, ampliando a possibilidade de acesso ao crédito também fora das capitais.

Garantias ainda limitam acesso ao crédito
Na Paraíba, que obteve o maior aumento percentual de crédito para pequenas e médias empresas, ainda existem obstáculos até o acesso ao crédito. A analista do Sebrae Paraíba, Márcia Timotheo, disse ao Movimento Econômico que o aumento do crédito no estado reflete a maior utilização de instituições financeiras operadoras e conveniadas a programas de garantia, como o Fundo de Aval às Micro e Pequenas Empresas (FAMPE).
Segundo ela, os recursos têm atendido principalmente demandas por capital de giro, expansão e modernização dos pequenos negócios. Os setores de comércio e serviços estão entre os que mais puxam essa demanda, com destaque para alimentação fora do lar, beleza, saúde, serviços pessoais, construção civil, turismo e economia criativa.
Márcia afirma que a falta de garantias segue como um dos principais obstáculos para o acesso ao crédito de longo prazo. Também pesam a documentação inadequada, o desconhecimento sobre as linhas disponíveis e o relacionamento limitado dos empreendedores com instituições financeiras.
“O que tem facilitado muito é a possibilidade de utilização do FAMPE. Também detectamos que documentação inadequada para apresentar nas instituições financeiras, desconhecimento das linhas de crédito disponíveis e relacionamento limitado com instituições financeiras prejudicam o acesso a essas oportunidades”, explicou.

O Sebrae Paraíba tem atuado como ponte entre empreendedores e o ecossistema financeiro, com ações de crédito assistido, orientação financeira e consultorias antes e depois da contratação dos recursos. Segundo Márcia, o acompanhamento no pós-crédito busca monitorar a sustentabilidade do negócio e sugerir ajustes quando necessário.
Comércio e serviços refletem força dos pequenos negócios
Embora as MPMEs tenham concentrado a maior parte do crédito aprovado pelo BNDES no Nordeste, os financiamentos também alcançaram setores estratégicos da economia regional. No recorte setorial, infraestrutura liderou as aprovações, com cerca de R$ 1,35 bilhão. Comércio e serviços somaram R$ 838,1 milhões, seguidos por agropecuária, com R$ 623,6 milhões, e indústria, com R$ 560,8 milhões.
Para o BNDES, o crédito acompanha a dinâmica econômica dos estados. No caso do Nordeste, Maria Fernanda destacou que comércio e serviços têm relação direta com a força de atividades como turismo, alimentação, serviços urbanos e negócios que demandam capital de giro e modernização.
“Como você tem nesse momento na região Nordeste um número recorde de turistas, nacionais e estrangeiros, naturalmente o setor de comércio e serviços se organiza para receber esse fluxo”, explicou.
Segundo a diretora, os recursos também têm sido buscados para inovação e digitalização, áreas que vêm ganhando espaço entre empresas de menor porte. Ela citou ainda a ampliação recente das linhas voltadas a inovação e digitalização, inclusive com inclusão de produtores rurais entre os públicos que podem acessar esse tipo de financiamento.
Pernambuco tem R$ 240 milhões para MPMEs
Em Pernambuco, o BNDES aprovou R$ 453,4 milhões em crédito no primeiro trimestre de 2026, alta de 164,4% em relação ao mesmo período do ano passado, quando o volume foi de R$ 171,5 milhões. As micro, pequenas e médias empresas responderam por R$ 240,3 milhões desse total, crescimento de 153,5% frente aos R$ 94,8 milhões registrados no primeiro trimestre de 2025.
No recorte setorial, o maior volume aprovado no estado foi para infraestrutura, com R$ 177,7 milhões, seguido por comércio e serviços, com R$ 172,9 milhões. A indústria recebeu R$ 74,9 milhões, enquanto a agropecuária ficou com R$ 27,8 milhões.
O desempenho reforça o peso de Pernambuco em áreas ligadas à logística, serviços, atividades urbanas e segmentos produtivos que dependem de financiamento para expansão, modernização e capital de giro.
Alagoas tem alta de 192% no crédito aprovado
Em Alagoas, o BNDES aprovou R$ 218,7 milhões em crédito no primeiro trimestre de 2026, alta de 192% em relação ao mesmo período de 2025, quando o volume foi de R$ 74,9 milhões. As MPMEs responderam por R$ 88,2 milhões do total aprovado no estado, crescimento de 37,1%.
O maior volume de recursos aprovados em Alagoas foi destinado à infraestrutura, com R$ 127,6 milhões. Na sequência aparecem comércio e serviços, com R$ 48,6 milhões; indústria, com R$ 22,1 milhões; e agropecuária, com R$ 20,3 milhões.

Banco tenta se aproximar de quem ainda vê o BNDES como distante
Mesmo com o crescimento do crédito, Maria Fernanda afirma que um dos desafios ainda é fazer com que pequenos empresários conheçam as linhas disponíveis e entendam que o acesso aos recursos do BNDES ocorre por meio das instituições financeiras com as quais já mantêm relacionamento.
“O primeiro desafio é o conhecimento. Como o BNDES não está presente na ponta, às vezes dá uma sensação de que é muito distante ter acesso. Por isso, a gente reforça o modelo de negócios do banco”, afirmou.
Segundo ela, o primeiro passo para o empresário interessado é buscar a instituição financeira da qual já é cliente, para conhecer as linhas do BNDES disponíveis por meio daquela rede. A diretora também destacou a importância de assessoria técnica para que o crédito seja contratado de forma adequada à realidade de cada negócio.
“É importante ter uma assessoria nesse momento, que permita alavancar o negócio, seja por meio do e-commerce, seja por meio de uma melhoria de processo interno na empresa. Tudo isso contribui para que esse crédito seja melhor operado”, disse.
Interiorização no Nordeste passa por rede de bancos parceiros
A oferta de crédito para empresas que estão em cidades do interior também entra na estratégia do Banco de forma articulada com a Sudene, o Consórcio Nordeste e instituições financeiras federais por meio do Comitê Regional das Instituições Financeiras Federais (Corife), que reúne BNDES, Banco do Nordeste, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e Finep.
“Nosso modelo de negócios permite que os recursos do banco para micro, pequenas e médias empresas aconteçam onde houver uma instituição parceira. Podem ser bancos públicos federais, bancos privados, cooperativas, agências de fomento, bancos de desenvolvimento ou bancos de montadora”, explicou Maria Fernanda.
A expectativa do BNDES é manter o ritmo de crescimento ao longo de 2026, impulsionado pela reabertura e ampliação de linhas voltadas a inovação, digitalização, Fundo Clima, transporte, infraestrutura social e programas de apoio a empresas afetadas por mudanças no comércio internacional.
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