
A guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã pode levar a economia do Brasil a um cenário de estagflação, com baixo ou nulo crescimento, aumento da inflação e repercussão no emprego, segundo dois economistas entrevistados nesta matéria. É consenso entre economistas e executivos de que o preço dos combustíveis e fretes vão subir mais, trazendo o risco de alta generalizada de preços (inflação), combinado com desaceleração da atividade econômica, como consequência do aumento do preço do petróleo no mercado internacional, que chegou a US$ 119 o barril, no último dia 19 de março. Os impactos serão maiores, caso o conflito tenha uma maior duração.
O principal impacto é o aumento do preços do barril do petróleo recai sobre diesel, gasolina e gás, que já começou a ocorrer no País. “O Brasil importa cerca de 10% da gasolina que consome e 30% do diesel. Com uma subida tão grande do preço do barril do petróleo, as empresas não vão conseguir segurar: ou repassam o aumento ou não vão conseguir produzir. É um momento delicado. Não há um produto que não esteja envolvido com o petróleo, que é transversal, passando por toda a cadeia produtiva”, resume o gerente de Política Industrial da Federação das Indústrias do Estado de Pernambuco (Fiepe), Maurício Laranjeira, acrescentando que não há aceno de que esta guerra vá acabar logo.
O aumento do custo de energia eleva despesas com transporte, frete, seguros e insumos, pressionando os preços finais. No agronegócio, o encarecimento do gás impacta os fertilizantes, que são majoritariamente importados, aumentando o custo de produção e dos alimentos. “No momento, o gás natural canalizado não terá impacto, porque o atual preço é válido até 30 de abril. Pode afetar o preço do Gás Natural Liquefeito (GNL), outro insumo importante para a indústria”, comenta Maurício.
A alta do petróleo já chegou aos fertilizantes. Segundo informações da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), 90% dos fertilizantes usados no Brasil são importados, impactando mais os nitrogenados, que são produzidos a partir do gás natural. O Irã e o Catar são dois grandes fornecedores e na guerra chegou a ocorrer o bloqueio do Estreito de Ormuz, uma das rotas de exportação do produto.
Ainda de acordo com a CNA, 40% do custo do setor vem da compra de fertilizantes e isso pode não chegar ao consumidor, somente se os estoques de fertilizantes dos produtores demorarem mais do que a guerra.
“O Brasil é autossuficiente em petróleo, mas importa muito derivados de petróleo, incluindo o GNL. É um problema sistêmico presente em todas as cadeias produtivas”, comenta o economista e professor da Unit, Werson Kaval. Antes da guerra contra o Irã, o preço do barril do petróleo estava, em média, por menos que US$ 60.

Ele explica que a guerra vai alterar variáveis previstas na economia como os juros – que teria uma tendência de queda este ano no Brasil – por causa da alta do preço do petróleo provocado pelo conflito. “Um país continental que usa o transporte rodoviário como principal modal, tudo vai aumentar”, comenta, acrescentando que há três grupos principais que mais contribuem para aumentar a inflação medida pelo IPCA no Brasil: alimentos e bebidas, combustíveis e energia. “Se dois destes grupos sobem, a inflação aumenta”.
Com o aumento da inflação, o ambiente econômico tende a ficar mais restritivo. A pressão inflacionária pode manter os juros elevados por mais tempo, reduzindo o crédito e dificultando investimentos. A volatilidade global aumenta a incerteza e leva empresários a adiar decisões, o que contribui para a desaceleração da atividade, como lembra o economista e professor da Unit, Edgard Leonardo.
Ambos os economistas acreditam que com a inflação em alta e um crescimento baixo ou nulo há o risco de estagflação. Em 2025, o Produto Interno Bruto (PIB) do País cresceu 2,35%. “Persistindo este cenário pode contribuir para um crescimento, de no máximo, 1%”, conta Leonardo. Ele lembra também que a imprevisibilidade faz muitos empresários postergarem os investimentos e até reduzir a produção, o que traz consequências no emprego.
Choque do petróleo na década de 70
A alta no preço do barril do petróleo já provocou uma estagflação no Brasil entre 1972 e 1973. “Na época, o Brasil crescia a taxas chinesas. A pressão por oferta quadruplicou o preço do petróleo depois dos países árabes reduzirem a produção desta commodity. E isso contribuiu para a inflação alta e um crescimento baixo”, argumenta Leonardo.
Para ele, a dependência energética é um risco sistêmico na economia e o Brasil deveria aumentar a sua capacidade de refino de petróleo, pensando numa política de longo prazo.
O único lado positivo do choque do petróleo no Brasil foi o surgimento do Proálcool, que estimulou o consumo do álcool combustível, que se consolidou nos anos seguintes. O País também adiconar 27% de álcool à gasolina, deixando o produto menos poluente.
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