
O eixo econômico do Nordeste atravessa um momento de reajuste estrutural que devolveu às famílias uma sensação de alívio financeiro não vista em mais de uma década. De acordo com o levantamento mais recente do Santander, os estados de Pernambuco, Bahia e Ceará conseguiram reeditar em 2025 os seus menores índices de desconforto econômico desde o início da série histórica, em 2013. Esse indicador, que calibra o impacto direto da macroeconomia no orçamento doméstico, sinaliza que a região finalmente superou as cicatrizes deixadas pelas recessões passadas e pela instabilidade de preços.
A dinâmica observada no ano passado, destaca o estudo, revela uma convergência rara entre o resfriamento do IPCA e o aquecimento da ocupação formal e informal. Para o mercado, esse recuo do desconforto funciona como um gatilho de confiança, destravando o consumo represado e permitindo um planejamento financeiro mais previsível para o varejo e o setor de serviços.
Embora o país tenha fechado 2025 com uma média nacional de 9,3%, o desempenho nordestino mostra uma aceleração na redução de disparidades regionais, mesmo que o ponto de partida fosse mais crítico.
De acordo com o levantamento, o movimento não é apenas uma oscilação estatística passageira, mas sim o reflexo de uma melhora cíclica sustentada desde 2022. Naquele período, Pernambuco amargava 19,5% de desconforto, enquanto a Bahia superava os 21%.
O fechamento de 2025 com índices de 12,4% e 13,1%, respectivamente, aponta para uma normalização que coloca esses estados em patamares próximos aos seus ápices positivos históricos. No Ceará, o desempenho foi ainda mais robusto, com o indicador batendo os 10,7%, a melhor marca entre as grandes economias da região.
O fosso entre as capitais e a média nacional
Apesar do otimismo que os números agregados sugerem, a análise qualitativa feita pelos especialistas do Santander introduz uma nota de cautela sobre a divisão interna do mercado de trabalho. Rodolfo Pavan, Henrique Danyi e Ítalo Franca, economistas responsáveis pelo estudo, destacam que a recuperação não ocorre de forma homogênea.
Segundo os analistas, a disparidade entre o interior e os grandes centros urbanos ainda é o principal desafio para que o Nordeste acompanhe o ritmo do Sul e do Sudeste.
“Todos os municípios das regiões Nordeste e Norte têm Índice de Desconforto abaixo ou perto dos patamares de 2012. No entanto, todas as capitais dessas duas regiões permanecem acima da média nacional”, ponderam os especialistas.
Essa observação é fundamental para entender que, enquanto o interior se beneficia de uma base de comparação mais baixa e de economias resilientes ao redor do agronegócio e transferências de renda, as capitais enfrentam uma pressão inflacionária mais persistente em serviços e custos de moradia.
Em Pernambuco, essa dicotomia fica evidente no comportamento da Região Metropolitana do Recife em comparação ao restante do estado. A melhora estadual foi impulsionada pela queda do desemprego, mas o custo de vida nas metrópoles ainda não permite que o índice caia abaixo dos dois dígitos.
“Em Pernambuco, o Índice de Desconforto Econômico também mostra melhora relevante em relação à última década, refletindo a queda do desemprego e a normalização da inflação. Ainda assim, Recife segue acima da média nacional, o que reforça a heterogeneidade do mercado de trabalho entre as capitais brasileiras”, explicam os economistas.

Ceará lidera o ranking regional de bem-estar
Na ponta mais eficiente da tabela nordestina, o Ceará consolidou sua posição de liderança ao reeditar o patamar de 10,7% no índice de desconforto. Após uma evolução notável de três pontos percentuais em 2024, o estado manteve o fôlego e superou os vizinhos diretos em termos de qualidade econômica para as famílias.
A performance cearense é um atestado de que a diversificação da matriz econômica do estado tem servido como um colchão de segurança contra as flutuações mais bruscas do desemprego.
Comparativamente, enquanto o Ceará flerta com o dígito único, Pernambuco (12,4%) e Bahia (13,1%) ainda possuem um caminho a percorrer para alcançar a eficiência cearense. A diferença reside, em grande parte, na agilidade com que o mercado de trabalho do Ceará responde aos estímulos de novos investimentos em tecnologia e infraestrutura logística.
Essa dianteira reflete positivamente no poder de compra real, garantindo que o incremento na renda não seja corroído pela inflação de forma tão severa quanto em outros estados da federação.
Resiliência baiana e a superação de 2016
A trajetória da Bahia é talvez a que melhor ilustra a volatilidade e a posterior recuperação do sentimento econômico no Nordeste. O estado havia registrado seu pior momento em 2016, quando o índice de desconforto escalou para 24,7% sob o impacto de uma inflação de dois dígitos e uma crise profunda na indústria local.
O salto para os atuais 13,1% representa uma das maiores correções de rota da série, injetando uma dose de ânimo no setor produtivo baiano. O menor patamar baiano, até então, havia sido observado no primeiro ano da medição do Santander, em 2013, com 16,2%.
Ao quebrar essa barreira e atingir 13,1% no fechamento de 2025, o estado se posiciona como um mercado com alto potencial de recuperação de margens para empresas que atuam no consumo de massa. Segundo a pesquisa, a combinação de inflação moderada com um mercado de trabalho mais aquecido cria um ambiente favorável para o crédito, reduzindo o risco de inadimplência e estimulando novos investimentos privados.
Para o investidor que olha o mercado regional, a Bahia demonstra uma tendência de melhora cíclica que vai além dos benefícios sazonais. A estabilização macroeconômica permitiu que o estado absorvesse choques externos com maior competência do que na década passada.
Esse cenário de “conforto” renovado é um indicador antecedente de que o apetite por bens duráveis e novos contratos de serviços deve permanecer elevado nos próximos trimestres, ancorado pela confiança do consumidor.
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