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Com interior em alta, Nordeste alcança R$ 1,5 trilhão em consumo e supera Sul

Mapas interativos mostram quais cidades impulsionam consumo no Nordeste
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Cidade de Feira de Santana, na Bahia, é a segunda maior cidade do Nordeste em consumo, segundo IPC Maps
Cidade de Feira de Santana, na Bahia, é a segunda maior cidade do Nordeste em consumo, segundo IPC Maps. Foto: Creci-BA

Com consumo estimado em R$ 1,511 trilhão neste ano, o Nordeste assume a segunda posição entre as regiões que mais movimentam a economia no Brasil, ultrapassando o Sul. O crescimento é impulsionado, principalmente, por cidades médias do interior, que vêm ganhando força econômica, ampliando sua base produtiva e atraindo novos investimentos.

Dados do estudo IPC Maps 2025, que calcula o potencial de consumo das famílias brasileiras com base em fontes oficiais, esse montante representa 18,6% de todo o consumo nacional, consolidando o avanço da região no cenário econômico do país. A Região Sul, com 18,5%, caiu para a terceira colocação, refletindo impactos pontuais, como as enchentes no Rio Grande do Sul, e um avanço estrutural do Nordeste.

Nacionalmente, as famílias brasileiras deverão gastar cerca de R$ 8,2 trilhões ao longo deste ano. Com base na atual estimativa de 2% do PIB, essa movimentação representará um aumento real de 3,01% em relação a 2024.

Segundo Marcos Pazzini, sócio da IPC Marketing Editora e responsável pela pesquisa, a melhoria dos níveis de emprego com carteira assinada proporcionou uma garantia de renda ao trabalhador, refletindo diretamente na escalada dos valores de consumo em todo o país. “A prevalecer o atual cenário de real desvalorizado, a região vai continuar atraindo turistas estrangeiros, o que será muito positivo para a economia nordestina”, considera Pazzini.

Nesse sentido, o estudo repete a modesta baixa (de 27,80% para 27,72%) na participação das 27 capitais no mercado consumidor. Em queda, também, estão as regiões metropolitanas, que passam a responder por 44,63%, enquanto o interior aumenta sua presença para 55,37% no cenário nacional.

Por outro lado, do ano passado para cá, a quantidade de empresas subiu 3,8% nas cidades interioranas e 4,6% nas capitais e regiões metropolitanas, contra 4,2% da média nacional. Tal fenômeno pode ser explicado pela então escalada do home office, que acabou atraindo muitos profissionais e MEIs para o interior em busca de melhor qualidade de vida a menores custos.

“Agora, essa ascensão de empregos com carteira assinada vem impactando diretamente a região que, por isso, apresenta um crescimento menor na quantidade de empresas este ano”, justifica Pazzini.

Cidades do interior impulsionam consumo no Nordeste

Com o interior sendo responsável direto pelo crescimento do consumo, o Nordeste hoje possui pelo menos 50 cidades que se posicionam de forma estratégica para que a região ocupe a segunda posição nacional em consumo.

No ranking das 50 cidades com maior potencial de consumo do Brasil, o protagonismo tradicional das capitais nordestinas agora divide espaço com municípios do interior, como Jaboatão dos Guararapes (PE), com previsão de R$ 23 bilhões em consumo, e Feira de Santana (BA), com R$ 21,9 bilhões.

Além de registrar a maior expansão proporcional no consumo, o Nordeste também apresenta uma forte concentração de cidades em crescimento nos estados da Bahia e de Pernambuco. Das 50 cidades do interior com maior potencial de consumo da região, parte delas ficam nesses dois estados, que combinam fatores como infraestrutura logística, polos agroindustriais consolidados, regiões metropolitanas em expansão e interiorização do ensino superior. Municípios como Feira de Santana, Vitória da Conquista, Juazeiro e Barreiras, na Bahia, e Jaboatão dos Guararapes, Petrolina, Caruaru e Paulista, em Pernambuco, ilustram essa dinâmica.

O fenômeno, segundo especialistas, reflete um conjunto de transformações estruturais em curso na região. Em entrevista ao Movimento Econômico, a economista Tania Bacelar explica que o protagonismo das cidades medias é uma tendencia que se acelerou no país e, em especial, no Nordeste e tende a se consolidar nos próximos anos, caso não haja mudanças políticas relevantes.

“O IBGE vem mostrando, tanto nos Censos Demográficos (2010 e 2022) como em seus estudos sobre rede urbana essa tendência. Em ambos, o destaque para o Nordeste é evidente. A economia do Nordeste vem crescendo um pouco acima da média nacional neste século e apresentando mudanças importantes na sua base produtiva. Inverteu, assim, a macrotendência do século XX, quando perdia peso relativo na economia nacional e perdia consistência industrial”, analisou.

Tania chama atenção para o dinamismo do comércio e serviços, que se torna evidente nos territórios do entorno das metrópoles, o que dinamiza, e até origina, cidades médias, como Olinda e Paulista, que figuram entre as 50 maiores cidades do Nordeste em consumo.

Para a economista, comércio e serviços, incluindo educação e saúde, tem dinamizado o interior do Nordeste, reforçando o protagonismo de cidades como Caruaru, Campina Grande, Feira de Santana e Parnamirim.

A base agropecuária tornou-se também mais dinâmica e vem contribuindo para o desenvolvimento das cidades interioranas. Além dos polos de frutas para exportação em Pernambuco e no Rio Grande do Norte, Tania destaca ainda os polos de hortaliças, avicultura, leite e lácteos, flores e plantas ornamentais.

“O Projeto de Integração do São Francisco (PISF) ampliou o potencial produtivo dos numerosos Brejos de Altitude e das Várzeas do NE oriental (Patos, na PB, situa-se próximo a um desses vales).  O engate no MATOPIBA, com foco nos grãos, impacta a rede urbana, estimulando avanços em medias cidades em seus territórios. Barreiras e Luís Eduardo Magalhães, na Bahia, estão na lista”, complementa.

Políticas públicas contribuem para crescimento do Nordeste

Outro fator que tem sido importante para o desenvolvimento do Nordeste, de forma geral, são as políticas públicas, com destaque para incentivos fiscais e financiamentos.

Sobre as políticas públicas mais relevantes, Bacelar destaca as que são voltadas para educação e saúde. Elas têm sido importantes para contribuir com o desenvolvimento de cidades como Itabaiana (SE), Arapiraca (AL) e Parnamirim (RN).

“No ensino básico se destaca Sobral (CE). O Estado é líder na alfabetização em idade certa no Brasil, com 85% das crianças alcançando este patamar, contra 59% da média nacional, em 2024.  Pernambuco é líder no Brasil nas matrículas no ensino médio em tempo integral. Mas, o destaque é para a política de expansão e interiorização do Ensino Superior. A presença de um corpo docente que tem salários bons para os padrões locais, a atração de estudantes para essas cidades impactam a construção civil, comércio e serviços”, explicou.

O Nordeste cresceu 3,6% ao ano nas matrículas no ensino superior com graduação presencial. A média nacional ficou em 1,5% a.a, segundo Censo da Educação Superior, realizado pelo INEP/MEC.

Quando analisa os financiamentos de instituições bancárias, Bacelar destaca a contribuição do Banco do Nordeste.  Segundo dados da instituição repassados ao Movimento Econômico, de 2019 até setembro de 2025, o banco já contratou mais de R$ 313 bilhões apenas com recursos do Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE) na região, com um avanço significativo nos últimos anos, passando de R$ 39,27 bilhões em 2019 para R$ 56,07 bilhões em 2024.

Além disso, instrumentos como o Crediamigo (microcrédito urbano) e o Agroamigo (microcrédito rural) têm papel essencial na inclusão produtiva. Juntos, movimentaram mais de R$ 112 bilhões no mesmo período. Os dados reforçam o papel do crédito subsidiado e das políticas públicas no fortalecimento de cadeias produtivas locais e mostram que o novo mapa do consumo no Brasil passa, cada vez mais, pelo interior do Nordeste.

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