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Morar no Recife: CPM e Sanco vencem leilão da 1ª PPP de locação social do Brasil

Consórcio Habitação Social Recife arrematou sem deságio contrato de 25 anos e R$ 664 milhões. Ao todo, 1.128 unidades serão implantadas no Centro do Recife
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  1. Consórcio de construtoras nordestinas vence primeiro leilão de PPP de locação social brasileira com deságio zero
  2. Primeira PPP de locação social do Brasil prevê 1.128 unidades habitacionais em quatro bairros do centro do Recife
  3. Contrato de 25 anos destinará 637 imóveis para famílias com renda entre um e 3,5 salários mínimos
  4. Investimento total estimado em R$ 664,5 milhões, com R$ 266 milhões para obras nos primeiros anos
  5. Recife já viabilizou mais de sete mil unidades habitacionais desde 2021 em programa de política habitacional municipal
Morar no Centro: CPM e Sanco vencem leilão da 1ª PPP de locação social do Brasil que será no Recife
Martelo foi batido na tarde de terça-feira (26) na B3, em São Paulo. Consórcio formado por duas construtoras nordestinas vai gerra a primeira PPP de locação social do Brasil. Foto: YouTube/Reprodução

O Consórcio Habitação Social Recife, formado pela CPM Construtora e pela Sanco Engenharia, venceu nesta terça-feira (26) o leilão da primeira Parceria Público-Privada de locação social do Brasil, realizado na sede da B3, em São Paulo. A contraprestação pecuniária mensal máxima ofertada foi de R$ 2.453.074,24, valor idêntico ao teto fixado no edital da Concorrência Pública nº 001/2026 da Prefeitura do Recife, com deságio zero. O certame teve um único proponente.

O contrato, batizado de Morar no Centro, tem prazo de 25 anos e prevê a implantação, manutenção e operação de 6 empreendimentos nos bairros de Santo Antônio, São José, Boa Vista e Cabanga, no centro do Recife, totalizando 1.128 unidades habitacionais: 637 destinadas à locação social para famílias com renda entre 1 e 3,5 salários mínimos e 491 voltadas à venda para beneficiários das faixas 2 e 3 do Minha Casa, Minha Vida, com renda de R$ 3.200 a R$ 9.600.

O valor total estimado da concessão é de R$ 664.508.008,15, segundo o edital. Dos investimentos previstos, R$ 266 milhões serão destinados nos primeiros anos às obras de retrofit, requalificação e construção, e outros R$ 252 milhões serão aplicados ao longo dos 25 anos de concessão na operação, manutenção predial, gestão condominial e acompanhamento técnico-social das famílias.

A política habitacional desenvolvida no município desde 2021 já viabilizou mais de 7.000 unidades habitacionais, entre obras concluídas, em andamento e aprovadas no Minha Casa, Minha Vida. Foram entregues 8 conjuntos, totalizando 1.811 moradias: Vila Esperança, Papa Francisco, Vila Brasil 1 e 2, Sérgio Loreto, Encanta Moça 1 e 2 e Ruy Frazão. Estão em andamento obras de 2.041 unidades: Caranguejo Tabaiares, Comunidade do Bem 1 e 2, São José, Vila Aeronáutica 1 e 2, Caiara 2, Maria Felipa, Maria Elvira e Paris.

Projeto iniciado em 2011

O projeto atravessou duas gestões municipais. Iniciado sob o prefeito João Campos em outubro de 2021, quando foi incluído no Programa Municipal de Parcerias Público-Privadas do Recife, foi concluído sob o prefeito Vitor Marques. “Com a PPP Morar no Centro, o Recife reafirma sua vocação de inovar e liderar políticas públicas que enfrentam desafios históricos das grandes cidades. Mais do que construir moradias, estamos garantindo acesso à cidade, requalificando imóveis públicos, revitalizando o Centro e oferecendo oportunidades para que as pessoas possam viver com dignidade, próximas de seus trabalhos, serviços e toda a infraestrutura que o Centro já oferece”, afirmou Marques.

O secretário de Habitação, Felipe Cury, situou o ineditismo do modelo. “Agora temos a empresa ganhadora da primeira PPP de locação social do Brasil, realizada pela Prefeitura do Recife em parceria com o governo Lula, viabilizando moradia para quem mais precisa. A principal inovação da PPP é agregar construção de unidades habitacionais, retrofit de imóveis e gestão social condominial num único projeto, contemplando três elementos fundamentais da política habitacional. Estamos criando um novo modelo habitacional no país, inspirado em experiências internacionais e adaptado à realidade do Recife”, disse. Cury acrescentou que mais de 80% do déficit habitacional do município está relacionado ao ônus excessivo com aluguel.

O secretário de Desenvolvimento Urbano e Licenciamento, Felipe Matos, disse que o objetivo vai além do leilão. “Política pública não é fazer o que é fácil, não é fazer o que cabe dentro de um mandato. É fazer o que a população precisa. A finalidade desse processo não é o dia de hoje. A finalidade desse processo são os prédios revitalizados e as pessoas morando no centro”, declarou. Matos destacou também o escopo da concessão. “O modelo garante gestão permanente, manutenção predial e acompanhamento social dos empreendimentos ao longo de 25 anos, assegurando mais qualidade de vida para as famílias e preservação desses espaços”, acrescentou.

Para o vice-presidente de Governo da Caixa Econômica Federal, José Marcos de Carvalho Araújo, o leilão representa uma virada na política habitacional do país. “A expectativa é bastante elevada pelo impacto que vai trazer e pela inovação que ele traz, porque ele muda o paradigma da política habitacional”, disse.

Como funcionará a PPP

Os moradores da modalidade locação social pagarão aluguel entre R$ 210 e R$ 1.235 mensais, conforme a faixa de renda e a composição familiar, com encargo máximo de 15% a 25% da renda familiar, incluindo condomínio. Os apartamentos serão entregues prontos para morar, equipados com fogão, geladeira, chuveiro e mobiliário básico.

Para participar, o beneficiário deverá residir no Recife há pelo menos 2 anos, ter ao menos um adulto no núcleo familiar e não ter sido contemplado anteriormente em programa de aquisição habitacional. A renda máxima para acesso à locação social é de R$ 4.942 mensais, equivalente a 3,5 salários mínimos. Grupos prioritários incluem idosos chefes de família, famílias lideradas por mulheres, pessoas em áreas de risco, pessoas com deficiência, famílias monoparentais, vítimas de violência e trabalhadores do centro da cidade.

Além da contraprestação pública, a concessionária receberá receitas de alienação das unidades destinadas à venda, pagamento de aluguéis pelas famílias e exploração comercial das fachadas ativas. Para cobrir riscos de vacância e inadimplência, o poder público estruturou garantias por conta vinculada com recursos do Fundo de Participação dos Municípios (FPM). O projeto prevê ainda a implantação de equipamentos públicos e comunitários, entre eles uma creche e a nova sede da Orquestra Criança Cidadã, no Cabanga.

Três dos seis empreendimentos passarão por retrofit de prédios no centro histórico. Dos seis empreendimentos, 4 utilizam imóveis da União e 2 pertencem ao município. A Secretaria do Patrimônio da União (SPU) destinou dois terrenos e um prédio como subsídio para viabilizar o projeto em área central. A secretária adjunta da SPU, Alessandra Dávila Vieira, disse que a operação exigiu solução jurídica inédita. “A gente teve que fazer uma construção jurídica para conseguir destinar os nossos terrenos. A legislação de patrimônio da União é bastante complexa. Foi um trabalho árduo para chegar nessa construção jurídica”, afirmou.

Construtoras ativas em Alagoas

O consórcio reúne duas construtoras nordestinas: a Sanco, fundada em Alagoas e com quase 30 anos de atuação e mais de 30.000 unidades habitacionais entregues no país, e a CPM, fundada em 2003 em Jupi (PE) e com filial em Maceió (AL). A Sanco executa também o conjunto Comunidade do Bem, em Recife, pelo Minha Casa, Minha Vida.

O representante do consórcio, Marcelo Raposo Ramirez Saldanha, disse que o compromisso vai além da entrega das unidades. “A Sanco entende que a moradia é uma das maiores necessidades do povo brasileiro. A casa própria representa estabilidade, pertencimento, proteção da família e esperança de futuro. Nosso compromisso vai além da entrega dos empreendimentos. Existe a possibilidade de acompanhamento desses conjuntos pelos próximos 25 anos, realizando manutenção contínua e desenvolvendo atividades sociais que fortaleçam os vínculos dos moradores com suas comunidades”, disse Saldanha.

A licitação foi conduzida pela Secretaria de Planejamento e Gestão do Recife (Seplag), com estruturação financeira pela Caixa Econômica Federal por meio do FEP. Como condição prévia à assinatura do contrato, a concessionária deverá recolher R$ 6.737.342,30 ao FEP a título de ressarcimento dos estudos e pagar R$ 634.543,19 à B3 pela assessoria no processo licitatório, segundo o edital. O projeto tem como base legal a Lei Municipal nº 19.175, de 29 de dezembro de 2023.

Expansão do modelo da PPP do Recife

O Ministério das Cidades prevê ampliar a carteira federal de PPPs de locação social para Campo Grande, Maceió e Santo André (SP), sendo o projeto de Campo Grande o mais adiantado, com leilão previsto ainda para 2026. A meta do governo federal é estruturar 12 projetos-piloto nessa primeira etapa, priorizando áreas urbanas com infraestrutura consolidada, oferta de empregos e serviços.

O secretário-adjunto de Infraestrutura Social e Urbana do PPI, Manoel Renato Machado Filho, situou o modelo no contexto do déficit habitacional brasileiro, estimado em 5,8 milhões de moradias.

“No Brasil, nós nunca estimulamos muito essa ferramenta de locação social na política habitacional. A gente optou sempre e historicamente por provisão habitacional. Mas tem vários países no mundo em que a principal ferramenta de política pública é locação. A gente precisa diversificar essa ferramenta de política pública para dar conta de atingir uma maior quantidade de pessoas e com isso reduzir o déficit”, declarou.

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