
A presença feminina na construção civil brasileira ainda é minoritária, mas iniciativas de qualificação vêm ajudando a transformar esse cenário, especialmente na pintura imobiliária. Em Pernambuco e em outros estados do Nordeste, um projeto desenvolvido pela indústria de tintas Iquine tem ampliado oportunidades de geração de renda, autonomia financeira e inserção profissional para mulheres em situação de vulnerabilidade social.
Por meio do Iquine IClub, plataforma de relacionamento e capacitação da empresa, a marca já impactou mais de 25 mil profissionais em todo o Brasil. Atualmente, as mulheres representam 26,7% da base ativa da comunidade.
O movimento começou há cerca de seis anos, em um treinamento realizado no Ibura, na Zona Sul do Recife, quando a empresa percebeu o aumento da procura feminina pelos cursos de pintura imobiliária. Desde então, a iniciativa passou a contar com parcerias com prefeituras, entidades sociais e organizações voltadas ao empreendedorismo feminino.
A ação mais recente aconteceu em abril, em parceria com o Sport Club do Recife e o Sebrae Delas, oferecendo capacitação gratuita para mulheres das comunidades do entorno da Ilha do Retiro interessadas em atuar na construção civil ou gerar renda extra.
Segundo o gerente de relacionamento técnico da Iquine, Jorge Holanda, a empresa identificou que muitas participantes buscavam os treinamentos como uma alternativa de independência financeira. “Percebemos que a procura feminina vinha aumentando bastante. Muitas eram donas de casa, desempregadas e dependentes financeiramente dos maridos. Então começamos a criar turmas exclusivas para mulheres”, afirmou.
Os cursos foram adaptados à rotina das participantes. Inicialmente realizados em período integral, passaram a ocorrer pela manhã, ao longo de duas semanas, permitindo a conciliação com os cuidados com os filhos e a casa. A formação possui carga horária de 40 horas.
Segundo a Iquine, a demanda pelos cursos é maior do que a capacidade de atendimento. Como as aulas práticas exigem acompanhamento próximo dos instrutores, as turmas são reduzidas, geralmente entre 15 e 20 participantes.
Formação técnica e empreendedorismo
Mais do que ensinar técnicas de pintura, o programa prepara as alunas para atuar profissionalmente no mercado. O conteúdo inclui preparação de superfícies, cálculos de orçamento, atendimento ao cliente e gestão financeira. As participantes aprendem ainda a trabalhar com alvenaria, madeira e metal, além de normas de segurança e uso correto de equipamentos de proteção individual (EPIs).
“A gente ensina não só a pintar, mas também como calcular orçamento, atender bem o cliente, organizar o trabalho e até divulgar os serviços nas redes sociais”, explicou Jorge Holanda.
Parte desse conteúdo também está disponível no Iquine IClub, plataforma digital criada em 2022 com áreas técnica, de negócios e tendências. O ambiente reúne videoaulas sobre patologias na pintura, empreendedorismo, marketing digital e efeitos decorativos especiais. Hoje, cerca de seis mil mulheres participam da plataforma.
Mercado da construção mais aberto às mulheres

Embora a construção civil ainda seja predominantemente masculina, empresas do setor já reconhecem diferenciais da mão de obra feminina, principalmente em serviços de acabamento. A iniciativa também contribui para romper barreiras culturais ainda presentes no segmento.
A pintora Adriana Nascimento, de 43 anos, atua há 16 anos na profissão e hoje é uma das embaixadoras da Iquine no Nordeste. Ela conta que entrou na área após conseguir vaga apenas para o curso de pintura em uma formação do Senai. O que começou como oportunidade virou profissão.
“Quando comecei, as pessoas olhavam com estranhamento para mulheres pintando. Hoje, muitas mulheres me procuram dizendo que eu sou inspiração para elas”, afirmou.
Segundo Adriana, a capacitação constante é essencial para ampliar a presença feminina no mercado. “O mercado da pintura muda muito. Se a gente não se atualizar, fica para trás. Então é importante buscar qualificação e acreditar que mulher pode trabalhar em qualquer área”, disse.
Da necessidade à profissão
Entre as mulheres capacitadas pelo projeto está Elisandra Simone da Silva, de 51 anos, moradora do Cordeiro, no Recife. Autônoma e atuando na construção civil, ela participou do curso promovido pela Iquine em parceria com o Sport e o Sebrae Delas.
Elisandra conta que o interesse pela área começou ainda na juventude, ao ajudar a resolver pequenos problemas domésticos ao lado da avó. “Comecei fazendo pequenos reparos em casa, tentando resolver infiltrações e problemas do dia a dia. Depois fui gostando da área e buscando aprender mais”, relatou.
Ela afirma que a formação ajudou a aprimorar conhecimentos técnicos e noções de orçamento e negociação. “Aprendi sobre normas, planejamento e técnicas que eu ainda não conhecia. Não é só pintura, é uma preparação profissional”, destacou.
A pintora também percebe que algumas clientes preferem contratar profissionais mulheres por questões de segurança e confiança. “Muitas vezes são mulheres que moram sozinhas ou famílias que se sentem mais confortáveis contratando outra mulher. Existe também essa percepção de que a mulher tem mais cuidado nos detalhes”, afirmou.
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