
Em meio a um cenário de crescimento promissor, com previsão de expansão de 3,5% em 2025 impulsionada pela ativação da faixa 4 do programa Minha Casa, Minha Vida, o setor da construção civil em Pernambuco decidiu tomar uma atitude inédita para resolver um problema que ameaça frear seu desenvolvimento: a falta de mão de obra qualificada.
Diante da dificuldade crescente para preencher vagas – oito em cada dez empresas do setor relatam problemas para encontrar ou reter profissionais -, as principais entidades da construção civil pernambucana se uniram para criar o primeiro Feirão de Empregos da Construção Civil do estado.
União estratégica do setor
https://ademi-pe.com.br/A iniciativa inédita foi apresentada no dia 17 em uma articulação conjunta da Associação das Empresas do Mercado Imobiliário de Pernambuco (Ademi-PE) e da Cooperativa da Construção de Pernambuco (CCPE), com apoio do Sinduscon-PE, do Comitê de Inovação, Construção e Tecnologia da Ademi (INCONTEC), do Instituto da Construção (IC) e do Instituto Engenheiro Joaquim Correia.
Esta mobilização setorial surge em resposta a um paradoxo preocupante: enquanto Pernambuco registrou um saldo positivo de 4.805 empregos formais na construção civil entre janeiro e maio deste ano – dando sequência ao bom desempenho de 2024, quando foram gerados 6.025 postos -, as empresas enfrentam crescente dificuldade para encontrar trabalhadores qualificados para suas obras.
Mais que recrutamento: um projeto de inclusão
O Feirão foi concebido para ir além de um simples evento de recrutamento. A proposta é atrair novos talentos, com foco especial em mulheres e jovens das classes C e D, oferecendo não apenas vagas, mas também orientação profissional e oportunidades de capacitação técnica.
“Nosso Feirão visa atrair novos talentos, conscientizando-os sobre a alta empregabilidade e as vastas oportunidades de carreira que nosso setor oferece”, explica Carol Boxwell, vice-presidente da Ademi-PE. Para ela, essa “conta que não fecha” – um setor em expansão com oferta insuficiente de trabalhadores qualificados – merece atenção não só de empresários, mas também da parcela da sociedade que está ociosa e busca emprego.
Estratégia de mapeamento e busca ativa
A iniciativa adota uma abordagem estratégica, começando pelo mapeamento detalhado das vagas disponíveis nas construtoras para, em seguida, buscar ativamente candidatos que preencham essas posições. Segundo Leonardo Luna, diretor executivo da CCPE, embora o local e data ainda estejam sendo definidos, o objetivo é realizar o evento entre setembro e outubro.
“O importante agora, neste momento inicial, é que as construtoras iniciem o cadastro de suas vagas para que possamos dar andamento a essa importante iniciativa”, destaca Luna.
Desafios Estruturais do Setor
Segundo o professor Nelson Marconi, coordenador do Curso de Graduação em Administração Pública da FGV, o afastamento dos trabalhadores do setor está diretamente relacionado à precarização do trabalho, que envolve salários baixos, falta de vínculo empregatício estável, ausência de direitos sociais, condições de trabalho precárias e jornadas variáveis e pouco claras.
O maior ponto chave é mostrar que pode existir uma estabilidade, uma segurança maior para o trabalhador e condições de trabalho adequadas”, destaca o especialista. Ele explica que a oferta salarial inadequada e as condições inseguras e instáveis levam os trabalhadores a optarem por outras atividades que ofereçam maior formalização, estabilidade e menor esforço físico.
O cenário se complica ainda mais com o envelhecimento dos trabalhadores que já estão no setor e a crescente dificuldade de atrair mão de obra jovem. “Há a questão do envelhecimento dos trabalhadores que já estão no setor e a dificuldade de atrair mão de obra jovem, que busca oportunidades com menos esforço e maior autonomia, muitas vezes influenciados por ideias de prosperidade individualista e atividades alternativas, como trabalho em redes sociais”, pontua Marconi.
Impacto nos custos e entregas
Para Carol Boxwell, vice-presidente da Ademi-PE, esse descompasso pode impactar diretamente a entrega de projetos e elevar os custos de produção, com reflexos no mercado habitacional e de infraestrutura. A expectativa é que esta união inédita do setor contribua para reduzir o déficit de mão de obra, ampliar a inclusão social e valorizar a profissão, preparando a construção civil pernambucana para os desafios futuros com o suporte da tecnologia e da diversidade.
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