
Na contramão da história da Mata Sul pernambucana, marcada pela hegemonia da cana-de-açúcar, um novo vetor produtivo começa a ganhar espaço na região. O cultivo do cacau e a produção de chocolate artesanal, com origem controlada e vínculo com o território começa a chamar a atenção na região. Foi nesse cenário que surgiu a Alteva, marca criada durante a pandemia e que hoje simboliza não apenas uma diversificação econômica, mas também uma mudança de vida no campo.
A base são as terras do Engenho Conceição, no município de Escada. O engenho produz, hoje, cerca de 1,5 tonelada de cacau por ano. A colheita é destinada à produção de amêndoas (cerca de 40 quilos por mês), que vira chocolate, e à degustação dos visitantes. O nome da empresa tem as iniciais dos três irmãos e sócios – Alfredo, Teresa e Valéria. A Alteva conta com uma cartela de produtos com nove sabores de chocolates, entre barras e bombons. Na Páscoa, a variedade de formatos se diversifica, ampliando para os tradicionais ovos.
As vendas ocorrem na loja instalada no engenho e pela internet. Neste ano, de maneira inédita, a Alteva fechou uma parceria com o Núcleo de Apoio à Criança com Câncer (Naac), que está comercializando os produtos com parte do valor revertido para a instituição.
História de transformação
A história começa em 2020, quando o engenheiro Alfredo Correa deixou a rotina urbana no Recife para se instalar no engenho da família, em Escada, diante das incertezas provocadas pela Covid-19. O que seria uma solução temporária acabou se transformando em um projeto estruturado de produção agrícola e agroindustrial.
“Minha vida sempre foi na cidade. O engenho era só para fim de semana. Com a pandemia, vim para cá sem saber quanto tempo ficaria. Foi quando comecei a olhar para o que já existia aqui”, conta. O ponto de partida foi o cacau, cultura implantada na propriedade há cerca de 45 anos pelo seu avô.

Alfredo decidiu testar caminhos para comercializar a produção. “Eu comecei colhendo o cacau e tentando entender como vender. Fui aprendendo tudo pela internet, desde fermentação até secagem. Errei muito, acertei também, mas fui evoluindo no processo”, relembra.
A primeira estratégia foi vender as amêndoas para outros mercados. Porém, os desafios logísticos e a baixa margem financeira mostraram que o modelo não era sustentável. “Quando levei o produto para fora, ele foi bem aceito, mas financeiramente não fechava. A distância, o custo e o volume pequeno dificultavam muito. Foi aí que entendi que precisava agregar valor”, explica.
A virada veio com a decisão de produzir chocolate. Ainda em 2021, Alfredo iniciou os primeiros testes de receitas de forma artesanal, distribuindo amostras para familiares e amigos. “A primeira batida de chocolate foi totalmente experimental. Eu fazia, levava para minha irmã, para amigos, e pedia opinião. Foi um processo muito intuitivo, de tentativa e erro”, diz.
O potencial do produto levou à criação da Alteva, marca fundada em sociedade com as irmãs, que assumiram as etapas de refino, desenvolvimento das receitas e comercialização. “A gente dividiu naturalmente as funções. Eu fico com toda a parte do campo, desde a colheita até a torra. Elas trabalham o refinamento, a receita e a apresentação final. Mas, na prática, todo mundo faz tudo”, resume.
Produção própria e valor agregado no campo
A produção segue o conceito “tree to bar”, no qual todas as etapas são controladas pela própria marca, desde o plantio do cacau até a embalagem. Do total de cacau produzido, parte é destinada às experiências turísticas e outra parte à fabricação dos chocolates. Atualmente, a Alteva processa cerca de 40 quilos de amêndoas por mês, número que pode chegar a 60 quilos em períodos de maior demanda, como a Páscoa e a Fenearte, que a empresa participa há duas edições. “A gente mantém uma produção contínua e vai formando estoque. Na Páscoa, praticamente zera tudo. Depois, começa de novo para atender outros períodos fortes”, afirma Alfredo.
Apesar do crescimento do cacau, a cana-de-açúcar ainda é a principal fonte de receita do engenho, responsável por cerca de 60% do faturamento. “Antes, a cana era 100% da nossa receita. Hoje, ela já caiu para 60%. O cacau e outros produtos estão ganhando espaço e ajudando a diversificar o negócio”, destaca.
Agroturismo e experiência como estratégia de negócio
Outro pilar importante do negócio é o agroturismo. O engenho recebe, em média, 150 visitantes por mês, entre turistas e grupos escolares, que participam de experiências imersivas no processo produtivo. “Eu faço questão de acompanhar as visitas. Conto a história, mostro cada etapa, levo o pessoal para conhecer o cacau, a cana, a bica. É uma forma de conectar as pessoas com o que a gente produz aqui”, explica.
A experiência inclui desde o contato com a lavoura até a degustação dos produtos, reforçando o vínculo entre origem e consumo, um dos diferenciais do chocolate artesanal produzido na região.
Uma curiosidade é que Alfredo é descendente de João Alfredo Correia de Oliveira, político, jurista e uma das principais lideranças do Segundo Reinado. Pernambucano de Itamaracá, ele construiu uma trajetória que o levou aos cargos de deputado, senador e, posteriormente, de presidente do Conselho de Ministros entre 1888 e 1889, função equivalente à de primeiro-ministro no Império. Reconhecido como um dos “heróis da abolição”, João Alfredo é apontado como o principal articulador político da Lei Áurea, tendo conduzido as negociações que culminaram na libertação dos escravizados, formalizada com a assinatura da princesa Isabel. No Recife, sua memória permanece preservada no Museu da Abolição, instalado no local onde ficava sua antiga residência. Essa é uma das histórias apresentadas aos visitantes durante os roteiros do agroturismo no Engenho Conceição.
Mais do que um empreendimento, a iniciativa representa uma mudança de perspectiva para o próprio fundador. “A renda do campo é menor, isso é fato. Mas a qualidade de vida que eu tenho hoje não tem comparação. Eu consigo trabalhar, acompanhar minha família, ver meus filhos crescerem. Isso não tem preço”, afirma.
A Alteva contribui para fortalecer o surgimento de um novo arranjo produtivo na Mata Sul. Segundo Alfredo, já existem pelo menos cinco produtores de cacau na região, nos municípios de Rio Formoso, Água Preta e Ribeirão. Poucos avançaram para a produção de chocolate. “A gente começa a ver um movimento se formando. Ainda é pequeno, mas existe potencial para criar um polo de cacau e chocolate aqui na Mata Sul”, avalia.

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