
A cochonilha-do-carmim que destruiu mais de 850 mil hectares de palma forrageira no semiárido nordestino nas últimas duas décadas começa a encontrar uma barreira genética nos primeiros campos de multiplicação do programa InovaPalma, da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), executados em parceria com o Instituto Nacional do Semiárido (INSA/MCTI): em fevereiro, os plantios da variedade Orelha de Elefante Mexicana (Opuntia stricta) foram instalados nos municípios de São José do Seridó, Apodi e Equador, no Rio Grande do Norte, e em Quixeramobim, no Ceará, com novas áreas em implantação em Iguatu (CE). A cultivar, identificada pelo programa de melhoramento genético do Instituto Agronômico de Pernambuco (IPA) como resistente ao inseto, já responde por mais de 80% das novas áreas de plantio no semiárido desde a reconstituição iniciada em 2008.
A palma forrageira ocupa hoje entre 500 e 600 mil hectares no semiárido nordestino — a maior área de cultivo da cactácea em escala mundial — e sustenta a pecuária bovina, caprina e ovina nos longos períodos de estiagem em que a pastagem natural entra em colapso. Cultivada na região desde o final do século XIX, a planta é fonte simultânea de energia e água para os rebanhos, com teor de carboidratos não fibrosos de 61,79% e capacidade de produção em precipitações anuais de até 200 mm — condição inviável para gramíneas e leguminosas convencionais.
Antes da chegada da Dactylopius opuntiae, a área cultivada superava 1 milhão de hectares; o Censo Agropecuário do IBGE (2017) registrou apenas 147.439 hectares colhidos naquele ano, reflexo direto das perdas acumuladas desde os primeiros registros da praga.
A opção pela Opuntia stricta tem base no programa de melhoramento genético do IPA, conduzido há mais de 50 anos em Pernambuco. A variedade opera sob o código IPA 200016 e apresenta metabolismo fotossintético MAC — mecanismo que permite a abertura dos estômatos durante a noite, reduzindo a perda hídrica e garantindo eficiência superior à das gramíneas em condições de déficit hídrico. Em sistemas irrigados, pesquisas registram produtividade de até 37,55 toneladas de matéria seca por hectare por ciclo de 12 meses, com capacidade de substituir até 80% do milho na dieta de ruminantes sem comprometer o desempenho produtivo dos rebanhos.
Estrutura e investimentos do InovaPalma
O InovaPalma foi lançado em outubro de 2023 durante o IV Encontro Técnico da Rede Palma, em Recife (PE), com orçamento total de R$ 7,5 milhões do Fundo de Desenvolvimento do Nordeste (FDNE), distribuídos em três eixos: expansão do cultivo, produção de farelo e pesquisa aplicada. A Rede Palma, criada em 2017 e coordenada pela Sudene, reúne Embrapa, secretarias estaduais de agricultura, universidades e a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).
Em março de 2025, a Sudene assinou convênios com o INSA e a Universidade Federal da Paraíba (UFPB) para execução de R$ 6 milhões em ações específicas — R$ 2,1 milhões para instalação dos campos de multiplicação e distribuição de 18 milhões de cladódios-semente ao longo da vigência do projeto, com capacitação mínima de 100 agricultores por estado contemplado e realização de 15 intercâmbios de produtores e técnicos.
Em setembro de 2025, o INSA teve dois projetos adicionais aprovados no programa, somando R$ 5,3 milhões via convênio triplo entre o instituto, a Sudene e o Parque Tecnológico da Paraíba — sendo R$ 2,6 milhões para expansão do cultivo e R$ 3,2 milhões para produção industrial de farelo, em parceria com a UFPB. No mesmo mês, a Sudene liberou R$ 1,6 milhão em repasses para três projetos em execução simultânea: expansão de áreas, alimentação de suínos e nutrição de ruminantes, desenvolvidos com INSA, UFPB e Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE).
O projeto de farelo prevê cultivo intensivo em 4 hectares, instalação de unidade de secagem e armazenamento com capacidade para 160 toneladas, e comercialização do produto processado como commodity vegetal para o semiárido.
Cadeia de valor da palma além da ração animal
A cadeia produtiva mapeada pelo InovaPalma extrapola a alimentação de rebanhos. Pesquisadores do INSA apresentaram na 77ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), realizada em julho de 2025 na UFRPE, em Recife, um portfólio de produtos alimentícios derivados da cactácea: farinha de palma para panificação, picles, palma cristalizada com indicação para merenda escolar, geleias, molhos e extratos em diferentes colorações.
A UFRPE, com R$ 56 mil via convênio com a Fundação Apolônio Salles (FADURPE), conduz pesquisa sobre uso da palma na nutrição de ruminantes — bovinos de carne e leite e caprinos —, com resultados que definirão os percentuais de substituição viáveis em relação à ração convencional, dado exigido para comercialização junto a frigoríficos e cooperativas.
O plano de expansão prevê 18 unidades de multiplicação de 0,75 hectare cada, distribuídas em municípios do semiárido de 6 estados e de Minas Gerais. Segundo José Aíldo Sabino, engenheiro agrônomo e coordenador do InovaPalma na Sudene, as visitas técnicas já foram concluídas na Paraíba e no Rio Grande do Norte, com as missões em Pernambuco, Ceará, Alagoas e Sergipe previstas para os meses seguintes.
A recuperação da área cultivada para o patamar de 500 a 600 mil hectares foi sustentada pelo repovoamento com cultivares resistentes à cochonilha; o InovaPalma opera para que a expansão das próximas décadas consolide a Opuntia stricta como material genético padrão nos novos plantios do semiárido.
*Com informações da Sudene
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