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Planta da Caatinga avança para uso comercial em bioinsumos e cosméticos

Em testes na Embrapa Semiárido, o alecrim-do-mato da Caatinga superou 25 espécies em ação antifúngica contra patógenos de manga e uva, com protocolos de cultivo já disponíveis
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Além da aplicação agrícola, o alecrim-do-mato também desperta interesse da indústria de cosméticos e fragrâncias. Foto: Clarice Rocha/Embrapa

Nativa da Caatinga e presente em todos os estados do Nordeste com exceção de Alagoas, a Lippia grata Schauer — conhecida como alecrim-do-mato — emergiu como a espécie de maior potencial entre 25 plantas aromáticas avaliadas por pesquisadores da Embrapa Semiárido, com sede em Petrolina (PE), ao longo de mais de uma década. Após análises químicas e ensaios biológicos, a espécie se destacou pelo elevado valor químico e pela forte ação antifúngica e antibacteriana frente a patógenos de importância agrícola, abrindo caminho para uso comercial em bioinsumos, cosméticos e fragrâncias.

Os trabalhos tiveram início em 2009, com levantamento de plantas aromáticas produtoras de óleos essenciais nos estados de Pernambuco e Bahia. Das espécies identificadas, muitas já utilizadas por comunidades tradicionais do Vale do São Francisco, a Lippia grata se sobressaiu nas avaliações químicas e biológicas.

“Desde os primeiros levantamentos, o alecrim-do-mato apresentou um potencial muito superior ao das demais espécies avaliadas”, afirma Ana Valéria Vieira de Souza, pesquisadora da Embrapa Semiárido.

Os resultados abriram três frentes de pesquisa: domesticação da planta com definição de protocolos de produção e extração do óleo essencial; avaliação de aplicações agrícolas e industriais; e desenvolvimento de formulações para diferentes usos. Os protocolos completos de cultivo e extração do óleo estão disponíveis no portal da Embrapa, o que reforça a aplicabilidade comercial imediata da tecnologia.

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Produção de mudas do alecrim-do-mato em escala permite controle e melhor resultado de colheita. Foto: Clarice Rocha/Embrapa

Protocolo de cultivo e rendimento do óleo

O alecrim-do-mato não se propaga por sementes, o que exigiu o desenvolvimento de protocolo específico de produção de mudas por propagação vegetativa. Os experimentos demonstraram facilidade de enraizamento sem necessidade de substâncias estimulantes, tornando o processo viável para produção em escala. Para formação das mudas, recomenda-se a coleta de ramos medianos das plantas matrizes, retirados entre 50 e 60 centímetros do solo, com vermiculita expandida como substrato de melhor desempenho nos testes realizados.

Em condições semiáridas, a colheita pode ser realizada ao longo de todo o ano. As folhas devem ser secas à sombra — a exposição direta ao sol compromete a qualidade do óleo. O uso de folhas secas proporciona rendimento entre 3 e 5 mililitros de óleo essencial a cada 100 gramas de folhas, índice considerado elevado. A destilação é o método indicado para extração, e o armazenamento deve ser feito em frascos âmbar ou protegidos da luz, em temperaturas inferiores a 15 °C.

Quimiotipo diferenciado no Vale do São Francisco

O alecrim-do-mato coletado no Vale do São Francisco apresenta quimiotipo diferenciado — a identidade química da planta, que indica quais moléculas são predominantes em sua composição —, distinto dos registrados em outras localidades do Semiárido. A característica foi identificada pela Embrapa em parceria com empresas do setor industrial.

“O quimiotipo local mostrou uma composição mais potente, o que expande as possibilidades industriais e agrega valor ao produto final”, afirma Ana Valéria. Mesmo dentro da mesma espécie, diferentes populações podem apresentar perfis químicos variados, resultando em características e potenciais distintos.

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Em condições semiáridas, a colheita do alecrim-do-mato pode ser realizada ao longo de todo o ano. Foto: Clarice Rocha/Embrapa

Ação antifúngica e desenvolvimento de bioinsumos

Ensaios laboratoriais e em campo confirmaram a ação antifúngica e antibacteriana do óleo essencial da Lippia grata contra patógenos que afetam culturas estratégicas da região. Os testes demonstraram eficiência na inibição dos fungos Lasiodiplodia, Aspergillus, Alternaria e Cladosporium, que impactam produções de manga e uva no Semiárido. “Testamos quebra-faca, marmeleiro e outras espécies. O alecrim-do-mato foi disparadamente a espécie aromática mais eficiente”, relata Pedro Martins, pesquisador da Embrapa Semiárido.

Os experimentos mostraram ainda paralisação do crescimento de determinados fungos mesmo sem contato direto com o óleo — comportamento especialmente relevante para a pós-colheita da uva, que não pode receber tratamentos que umedeçam os cachos.

A pesquisa avança para o desenvolvimento de formulações e nanoformulações que tornem o óleo mais estável, seguro e eficiente no campo, superando desafios como volatilidade, degradação pela luz e baixa solubilidade. Douglas Britto, pesquisador da Embrapa Semiárido, conduz estudos sobre o uso do composto em revestimentos pós-colheita para prolongar a vida útil da manga.

Bioeconomia da Caatinga e agricultura familiar

Além da aplicação agrícola, a Lippia grata desperta interesse da indústria de cosméticos e fragrâncias. Desde 2022, a Embrapa Semiárido mantém parceria com a empresa Bio Assets em projeto de inovação aberta voltado ao desenvolvimento de produtos comerciais a partir de ativos naturais da Caatinga e do Cerrado.

A próxima etapa prevê a transição do cultivo para sistemas agroecológicos, com implantação das tecnologias em propriedades de agricultores familiares. A planta apresenta características favoráveis a esse modelo: alta adaptação ao Semiárido, baixa demanda hídrica e possibilidade de plantio consorciado com outras espécies.

“O alecrim-do-mato é um dos exemplos mais fortes de como a biodiversidade da Caatinga pode impulsionar inovação, renda e inclusão socioprodutiva”, afirma Ana Valéria Vieira de Souza, pesquisadora da Embrapa Semiárido.

*Com informações da Embrapa

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