
No Brejo Pernambucano, a mosca dos estábulos transformou a rotina dos pecuaristas em um verdadeiro desafio. O inseto, que se alimenta do sangue dos animais, ataca em enxames e já provocou prejuízos superiores a R$ 20 mil em algumas propriedades.
Para tentar conter o avanço da mosca dos estábulos, produtores têm desembolsado mais de R$ 10 mil com aluguel de áreas seguras, compra de telas, produtos químicos e outras medidas emergenciais. A chamada “mosca dos estábulos” (Stomoxys calcitrans) é um inseto hematófago — alimenta-se de sangue — e se reproduz com facilidade em ambientes úmidos e com matéria orgânica em decomposição, como fezes e restos de ração.
O problema, que se arrasta há mais de duas décadas, vai muito além das cifras. A mosca dos estábulos causa estresse no gado, reduz o ganho de peso e compromete a produtividade. Muitos produtores relatam noites sem dormir e um sentimento de impotência diante de um inimigo difícil de combater.
“A quantidade de mosca é tanta que o gado não se alimenta. Começa a perder peso e chega num nível de estresse tão grande que as vacas perdem o ciclo reprodutivo, abandonam os bezerros que, em muitos casos, morrem”, relata João Arsênio, pecuarista da região e membro da União Nordestina de Agropecuária (UNA).

É o caso também do pecuarista e veterinário Erwin Oliveira, de Barra de Guabiraba, que relata perdas significativas e não esconde a indignação. Em 2024, quatro bezerros morreram em sua fazenda, cada um avaliado em R$ 2 mil.
“Animais jovens, que são mais fracos, quando chega o surto de moscas dos estábulos, não conseguem sobreviver. Outra perda é o estresse, que faz o rebanho perder peso e aumenta o custo com a engorda”, explicou.
Além das mortes, Erwin precisou alugar um cercado em Ribeirão, com despesas superiores a R$ 8 mil. Também investiu em telas protetoras e no uso da “cola azul”, produto feito para capturar a mosca dos estábulos. Mesmo assim, calcula que já abriu mão de R$ 15 mil em lucros para tentar proteger o rebanho.

Mas, para ele, o problema poderia ser menor se houvesse cumprimento da lei. “A Adagro deveria estar fiscalizando. A lei fala em cobertura, em transporte correto, mas ainda assim se vê a venda dessas camas de galinha. Isso revolta a gente que está aqui pagando a conta”, desabafou.
Cama de galinha e a proliferação da mosca dos estábulos
A cama de galinha — mistura de resíduos do aviário como fezes, penas, restos de ração e material absorvente como feno ou maravalha — é utilizada como adubo na agricultura devido ao seu alto teor de nitrogênio. No entanto, quando misturada à água da chuva, cria o ambiente ideal para a reprodução da mosca dos estábulos.

Apesar da proibição, o uso da cama de galinha ainda é frequente em municípios como Amaraji, Barra de Guabiraba, Bonito, Camocim de São Félix, Chã Grande, Cortês, Gravatá e Sairé.
No ano passado, a Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe) aprovou a Lei nº 18.407, de 22 de dezembro de 2023, que estabeleceu normas rigorosas para o uso, comercialização e transporte de adubo orgânico no Estado de Pernambuco.
Ela determina que o adubo deve ser armazenado de forma segura e hermeticamente fechada quando não for utilizado imediatamente, além de exigir um cadastro simplificado para todos os envolvidos na cadeia produtiva — agricultores, vendedores, doadores e transportadores.
A legislação também impõe a obrigatoriedade de comunicação prévia aos órgãos competentes sobre o local de uso do adubo e define critérios sanitários para o transporte, incluindo documentação específica e registro profissional.
Penalidades como advertência e multas de até R$ 50 mil podem ser aplicadas em caso de descumprimento, e há sanções administrativas para órgãos públicos que não cumprirem as exigências.
Novo presidente da Adagro-PE diz que irá reforçar a fiscalização
O presidente da Agência de Defesa e Fiscalização Agropecuária de Pernambuco (Adagro-PE), Moshe Dayan Fernandes, afirma que barreiras móveis serão criadas para combater o comércio e transporte irregular da cama de galinha. Ele reconhece, no entanto, que apenas a fiscalização não é suficiente para conter a mosca dos estábulos.

“É nosso papel fiscalizar e nós vamos fazer isso. Mas este é um problema sério que envolve várias frentes. Temos que, em algum momento, criar uma forma de todo mundo fazer o seu papel para debelar isso”, disse, apontando para a importância da conscientização de todos os integrantes da cadeia agropecuária do estado.
Segundo Fernandes, serão utilizados fiscais das regionais de Caruaru e Palmares e, havendo necessidade, servidores do Recife também serão empregados na força-tarefa. “Serão barreiras volantes, não vamos ficar parados em um lugar apenas”, comenta.
Além disso, a Adagro planeja realizar visitas às secretarias municipais de agricultura dos municípios mais afetados pela infestação da mosca dos estábulos para entregar material educativo e orientação ao produtor sobre a necessidade de cadastramento para utilização da cama de galinha na agricultura.
O órgão fiscalizador também aposta em pesquisas conduzidas pela IPA, que testam o uso de fungos e técnicas de compostagem para reduzir a proliferação do inseto.
Alternativas em estudo
A União Nordestina de Agropecuária (UNA) busca soluções em parceria com o Instituto Agronômico de Pernambuco. Entre elas, estão adubos produzidos a partir de resíduos do Ceasa-PE e do lodo tratado, que podem substituir a cama de galinha, reduzir a propagação da mosca dos estábulos e ainda ter custo menor para os agricultores.
“Tentamos buscar uma solução que seja viável para todos os lados que compõem o elo da agropecuária. Estamos testando e pesquisando soluções mais baratas que a cama de galinha”, comenta José Orlando, presidente da UNA.
Segundo dados da Pesquisa Pecuária Municipal do IBGE (2023), Pernambuco possui um rebanho bovino de mais de 1,8 milhão de cabeças, sendo o Agreste responsável por cerca de 40% dessa produção. No Nordeste, a pecuária é um dos pilares da economia rural, gerando milhares de empregos diretos e indiretos. A infestação da mosca dos estábulos compromete não apenas a produtividade individual, mas também o abastecimento e os preços no mercado regional.
Leia mais:
Mosca dos estábulos: entenda proibição da cama de frango por 6 meses









