
“O impacto é gigantesco.” É assim que a diretora de Infraestrutura, Transição Energética e Mudança Climática do BNDES, Luciana Costa, resume a nova onda de investimentos em saneamento básico no Brasil, com destaque para o Nordeste, que concentra parte relevante dos projetos estruturados pelo banco. Segundo ela, os impactos vão além das obras, abordando uma agenda com efeitos diretos sobre saúde pública, produtividade e desenvolvimento econômico.
“Estamos falando de investimentos que reduzem doenças, melhoram a qualidade de vida, aumentam a produtividade e ainda diminuem os gastos públicos com saúde. É um círculo virtuoso”, afirma.
A fala sintetiza o papel estratégico que a região passou a ocupar no esforço nacional para cumprir as metas do novo marco legal do saneamento, que prevê a universalização do acesso à água tratada e à coleta e tratamento de esgoto até 2033. Hoje, o Nordeste reúne cerca de R$ 36 bilhões em projetos estruturados pelo BNDES, dentro de um pacote nacional que ultrapassa R$ 100 bilhões e deve beneficiar mais de 43 milhões de brasileiros.
Região concentra investimentos por necessidade histórica por saneamento
De acordo com a diretora, a concentração de projetos no Nordeste não é uma escolha aleatória, mas uma resposta direta ao déficit histórico de cobertura. “Como hoje a cobertura de esgotamento sanitário e de água é muito menor na região Norte e Nordeste, é natural que haja mais projetos nessas regiões”, explica.
Ela destaca que, dos 14 estados com projetos estruturados ou em estruturação pelo banco, a maioria está nessas duas regiões, um indicativo de que o sucesso da agenda nacional de saneamento passa necessariamente pelo avanço nesses territórios. “Se a gente não avançar nessas regiões, dificilmente o Brasil consegue cumprir as metas de 2033”, reforça.
Luciana Costa também enfatiza o papel do BNDES como articulador desse processo, desde a modelagem dos projetos até a estruturação do financiamento. “No primeiro ciclo, entre 2020 e 2022, a gente aprendeu muito a modelar melhor os projetos e a distribuir os riscos. Foram projetos bem-sucedidos, que conseguiram levantar os recursos necessários. Agora, no segundo ciclo, estamos ainda mais preparados”, afirma.
Segundo ela, o banco atua como um “selo de qualidade”, garantindo segurança jurídica e atraindo investidores privados, fator essencial para dar escala aos investimentos. “A nossa estratégia é mobilizar vários ‘bolsos’: BNDES, mercado de capitais, bancos privados e instituições multilaterais. São projetos grandes, que precisam acessar diferentes fontes de financiamento”, explica.

Nordeste concentra investimentos de saneamento
A distribuição dos investimentos entre os estados nordestinos revela não apenas volume de recursos, mas diferentes estágios de maturidade e modelos de concessão. Alagoas, Ceará, Sergipe e Pernambuco concentram os principais projetos já estruturados. Somados, esses estados reúnem cerca de R$ 36 bilhões em investimentos e devem beneficiar aproximadamente 16,9 milhões de pessoas, quase 40% do total nacional atendido pelos projetos já mapeados.
A diretora de Infraestrutura, Transição Energética e Mudança Climática do BNDES, Luciana Costa, explica que essa concentração reflete o déficit histórico da região e a necessidade de acelerar investimentos para cumprir o prazo de 2033. “Como hoje a cobertura de esgotamento sanitário e de água é muito menor na região Norte e Nordeste, é natural que haja mais projetos nessas regiões”, afirma.

Pernambuco lidera em volume e alcance social
Entre os estados nordestinos, Pernambuco se destaca como um dos principais polos desse novo ciclo. O projeto que engloba a Região Metropolitana do Recife, o Pajeú e o Sertão prevê investimentos de R$ 18,2 bilhões e deve beneficiar cerca de 7,8 milhões de pessoas.
Para a diretora, o impacto dessas iniciativas vai além da infraestrutura. “Não estamos falando de começar do zero, mas de expandir e melhorar redes que já existem, levando água tratada e esgotamento sanitário para muito mais pessoas”, afirma.
Ela destaca que, especialmente em regiões como o Sertão, os efeitos são estruturais: “Isso muda completamente a realidade das pessoas, com impacto direto na saúde, na educação e na economia local”.
A concessão parcial dos serviços de saneamento e distribuição de água no Sertão pernambucano foi formalizada com o consórcio Vita Sertão, que atenderá 24 municípios antes operados majoritariamente pela Compesa. A outorga total é de R$ 805 milhões, dividida em três parcelas. As prefeituras recebem inicialmente R$ 129,6 milhões (60%), seguidos de duas parcelas de cerca de R$ 43 milhões.
O Governo de Pernambuco terá aproximadamente R$ 141 milhões no primeiro repasse e mais duas parcelas de R$ 47 milhões, enquanto a Compesa receberá R$ 212 milhões inicialmente, além de duas parcelas de R$ 71 milhões. Os recursos do Estado serão destinados à universalização do saneamento, e os municípios deverão investir na melhoria dos serviços.
A concessão é parcial porque a Compesa segue responsável pela produção de água, enquanto a operação passa à iniciativa privada. Após a assinatura, haverá transição de 180 dias. A Vita Sertão prevê investir R$ 3,2 bilhões, incluindo obras como o Sistema Produtor Integrado de Petrolina, Afrânio e Dormentes (36 meses) e a ampliação do Sistema Adutor do Oeste (60 meses), atendendo cidades estratégicas do semiárido.
O modelo integra a divisão do Estado em dois blocos. Além do Sertão, o bloco RMR/Pajeú reúne cerca de 160 municípios e foi vencido por consórcio liderado pela Acciona, com participação da BRK, com outorga de R$ 3,5 bilhões. O contrato deve ser assinado nos próximos meses.

Modelos diferentes, objetivo comum
Outros estados do Nordeste também avançam em ritmos distintos, mas com o mesmo objetivo. No Ceará, a PPP de esgotamento sanitário prevê R$ 6,2 bilhões em investimentos para atender 4,2 milhões de pessoas. Em Sergipe, o projeto mais recente soma R$ 6,3 bilhões para 2,3 milhões de habitantes. Já Alagoas, pioneiro no modelo, investiu cerca de R$ 5,5 bilhões e se tornou referência nacional.
Para Luciana Costa, essa diversidade de modelos é um sinal de amadurecimento do setor. “O importante é que todos esses projetos estão alinhados com a meta de universalização. Cada estado encontra a melhor forma de estruturar, mas o objetivo é comum”, afirma.
Apesar do avanço, a diretora alerta que o principal desafio agora é garantir a execução dos projetos dentro do prazo necessário. “A execução pode levar de sete a dez anos. Por isso, é fundamental estruturar bem desde o início para que as entregas aconteçam dentro do horizonte de 2033”, afirma.
Ceará e Sergipe combinam escala e equilíbrio regional
O Ceará aparece como o segundo maior projeto da região, com R$ 6,2 bilhões em investimentos e cobertura estimada de 4,2 milhões de pessoas. O modelo adotado, de PPP de esgotamento sanitário, reforça uma estratégia focada na ampliação da coleta e tratamento, um dos principais gargalos do país.
Já Sergipe, com R$ 6,3 bilhões previstos, apresenta um equilíbrio entre volume de investimento e população atendida (2,3 milhões de pessoas), indicando um modelo mais concentrado territorialmente, mas com forte potencial de impacto regional.
Alagoas: menor volume, maior efeito demonstrativo
Apesar de ter valores menores (cerca de R$ 5,5 bilhões somando capital e interior), Alagoas desempenha um papel central na consolidação do modelo. Foi o primeiro estado do Nordeste a realizar concessões estruturadas pelo BNDES, ainda em 2020, e funcionou como prova de conceito para o restante do país.
Com 2,6 milhões de pessoas beneficiadas, o estado apresenta uma relação investimento/população mais equilibrada e foi responsável por atrair diferentes operadores privados, criando um ambiente competitivo que hoje se replica em outros estados.
Financiamento e execução: chave para cumprir prazos
Segundo Luciana Costa, o desafio não está apenas em estruturar os projetos, mas em garantir sua execução dentro do prazo necessário para a universalização. “A execução dos investimentos pode levar de sete a dez anos. Por isso, é fundamental estruturar bem os projetos desde o início”, afirma.
Ela destaca que o financiamento será distribuído entre diferentes fontes, com BNDES, mercado de capitais, bancos privados e organismos multilaterais, o que aumenta a capacidade de investimento e reduz riscos.
Além de cumprir metas legais, os investimentos em saneamento têm impacto direto sobre indicadores sociais e econômicos, especialmente em regiões mais vulneráveis. “É um investimento com impacto gigantesco. Reduz doenças, melhora a produtividade, diminui gastos públicos com saúde e aumenta o desempenho escolar”, afirma a diretora.
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