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Lula sanciona lei com 63 vetos estratégicos e preserva metas ambientais

Objetivo, segundo o governo Lula, é garantir integridade de licenciamentos e agilizá-los, dar segurança jurídica a investidores e respeitar comunidades originárias. "Economia e ecologia devem ser parte da mesma equação", diz ministra Marina Silva
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presidente Lula e ministra do Meio Ambiente Marina Silva
As sanções do presidente Lula ao projeto de lei foram apontadas pela ministra do Meio Ambiente, Matina Silva, como “estratégicas”. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

CCom 63 vetos a dispositivos considerados críticos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou, nesta sexta-feira (8), o Projeto de Lei nº 2.159/2021, instituindo a nova Lei Geral do Licenciamento Ambiental. Os trechos vetados são os que estão em conflito com padrões de controle ambiental e avaliação prévia, como a licença por autodeclaração (Licença Ambiental por Adesão e Compromisso — LAC). Ao todo, o texto aprovado pelo Congresso continha cerca de 400 dispositivos, mas parte significativa foi excluída pelo governo sob a justificativa de que poderiam fragilizar a fiscalização e reduzir a efetividade das políticas ambientais vigentes.

De acordo com a Casa Civil, as diretrizes que nortearam a decisão foram: manutenção da integridade do processo de licenciamento ambiental em conformidade com a Política Nacional do Meio Ambiente, a Constituição Federal e a Lei Complementar nº 140/2011; proteção dos direitos dos povos indígenas e comunidades quilombolas; garantia de segurança jurídica para empreendimentos e investidores; e aceleração dos processos sem comprometer a qualidade das análises técnicas. O governo ressaltou que a retirada de pontos controversos não significa recusa em buscar celeridade, mas sim preservação de salvaguardas socioambientais fundamentais.

Para evitar lacunas jurídicas e insegurança regulatória, o Executivo editará uma medida provisória conferindo eficácia imediata à Licença Ambiental Especial (LAE). Paralelamente, será encaminhado ao Congresso Nacional, em regime de urgência constitucional, um novo projeto de lei que tratará dos dispositivos vetados, com ajustes que conciliem rapidez e robustez nos procedimentos.

Principais vetos à Lei Geral do Licenciamento Ambiental (PL 2.159/2021)

Eixo temáticoO que foi vetadoJustificativa do governoImpactos potenciais
Licença Ambiental por Adesão e Compromisso (LAC)Autorização autodeclaratória para atividades de médio potencial poluidor, com validade de 5 a 10 anos, sem análise prévia detalhada.Risco de enfraquecer o controle ambiental e permitir aprovação de empreendimentos sem estudos técnicos adequados.Maior rigor no licenciamento, mas possível aumento no tempo de análise de projetos.
Dispensa de licenciamentoIsenção de licenças para determinadas atividades em áreas rurais e de infraestrutura.Proteção de ecossistemas sensíveis e manutenção de padrões da Política Nacional de Meio Ambiente.Setor produtivo alega possível aumento de custos e prazos.
Renovação automáticaRenovação de licenças por prazo superior a 5 anos sem nova avaliação.Evitar perda de atualidade das condicionantes ambientais.Mais previsibilidade na fiscalização, mas maior burocracia para empresas.
Participação de órgãos de controleRedução da competência de órgãos como Funai, Iphan e órgãos estaduais para análise em áreas de impacto cultural, histórico ou indígena.Preservar direitos de comunidades tradicionais e garantir participação institucional.Amplia etapas de análise, mas evita lacunas de proteção a territórios.
Proteção da Mata AtlânticaNormas que poderiam flexibilizar regras de supressão de vegetação e recuperação de áreas.Manutenção da Lei da Mata Atlântica e compromissos internacionais de biodiversidade.Preserva cobertura florestal; setor imobiliário e agrícola questionam impacto em novos empreendimentos.
Estudos de impacto ambientalDispensa de EIA/RIMA em casos com risco médio.Evitar subavaliação dos impactos e garantir estudos detalhados.Reforça segurança ambiental; aumenta exigências para empresas.
Condicionantes ambientaisRedução ou simplificação das exigências de planos e medidas mitigadoras (como Plano Básico Ambiental).Assegurar efetividade das compensações ambientais.Pode elevar custos de adequação, mas mantém padrões técnicos.

Lula e Marina Silva defendem integridade de licenciamento

Durante a sanção, o presidente Lula afirmou que “o Brasil não pode abrir mão de um licenciamento sério e eficiente. É possível agilizar sem comprometer a preservação ambiental e os direitos das comunidades”.

Já a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, classificou os vetos como “estratégicos”: “Eu já sinalizava isso em todas as entrevistas que dava, de que iríamos fazer vetos estratégicos para preservar a integridade do licenciamento, e isso ficou assegurado”.

Marina também destacou que metas como desmatamento zero e redução de emissões de gases de efeito estufa entre 59% e 67% seguem inalteradas e com mecanismos mais robustos, incluindo equipes especializadas para obras consideradas estratégicas.

Entidades favoráveis e contrárias

A Fundação SOS Mata Atlântica comemorou a decisão, afirmando que “os vetos afastam riscos concretos de flexibilização indevida do licenciamento e fortalecem a governança ambiental”. Para a entidade, a preservação de dispositivos que asseguram participação social e estudos de impacto ambiental é essencial para evitar prejuízos irreversíveis a ecossistemas sensíveis.

O Ministério Público Federal também considerou positiva a exclusão de mais de 30 artigos que, segundo a procuradoria, poderiam gerar retrocessos ambientais e inviabilizar a atuação de órgãos como a Funai na análise de projetos que impactam terras indígenas.

Em sentido contrário, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) divulgou nota dizendo que “o veto a dispositivos que ampliariam a aplicação da LAC representa um retrocesso para a simplificação de processos, afetando investimentos e a competitividade do país”. A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) acrescentou que a retirada de prazos e procedimentos simplificados “pode atrasar obras e projetos fundamentais, especialmente no interior e nas regiões Norte e Nordeste, onde há maior dependência de infraestrutura logística e irrigação”.

Impactos econômicos no Nordeste

No Nordeste, o licenciamento ambiental tem efeito direto sobre cadeias produtivas estratégicas. A carcinicultura no Rio Grande do Norte e no Ceará, a fruticultura irrigada no Vale do São Francisco (PE/BA), a agropecuária, a indústria e a energia eólica dependem de licenciamento claro e eficiente para manter investimentos e competitividade. Segundo o levantamento “Nordeste em Números”, realizado pela Sudene e IBGE em janeiro de 2025, a região concentra projetos que somam bilhões de reais e que necessitam de previsibilidade regulatória para avançar.

Desafio de equilibrar desenvolvimento e preservação

O governo argumenta que a combinação de vetos, medida provisória e novo projeto de lei representa uma estratégia para equilibrar proteção ambiental, desenvolvimento econômico e segurança jurídica. A tramitação no Congresso será determinante para avaliar se esse equilíbrio será mantido — algo especialmente relevante para a agenda ambiental brasileira no cenário regional e global.

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