
Embora estados como Pernambuco praticamente não participem do mercado externo — a exportação de carne de frango é praticamente nula —, a gripe aviária poderá impactar os produtores da região caso o surto nacional não seja controlado dentro dos 28 dias previstos pelo governo federal.
Pernambuco, por exemplo, produz cerca de 14 milhões de frangos por mês e 13 milhões de ovos por dia, com foco no abastecimento de estados vizinhos como Bahia, Alagoas, Piauí e Maranhão.
Se a exportação dos grandes polos produtores do Sul continuar suspensa, como já ocorre com as restrições impostas por mercados como China, União Europeia, Coreia do Sul, Canadá e Argentina, o excedente de carne de frango poderá ser redirecionado para o consumo interno.
Edival Veras, vice-presidente da Associação Avícola de Pernambuco (Avipe), explica que isso aumentaria a oferta nos supermercados e, consequentemente, pressionaria os preços para baixo — beneficiando o consumidor no curto prazo, mas trazendo perdas para produtores locais do Nordeste.
“O mercado de ovos e de frangos funciona de forma muito ajustada com o consumo. A gente não tem normalmente sobras e nem excedente. Em um processo de exportação impedido, a gente vai ter um excedente e vamos terminar trazendo esse mercado para baixo”, esclarece.
A carne de frango é a mais consumida no Brasil, com média de 45,5 quilos per capita em 2024, de acordo com a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA). O aumento da oferta no mercado interno pode, em um primeiro momento, reduzir o preço ao consumidor. No entanto, se a crise sanitária se estender, poderá causar desequilíbrios logísticos, dificuldades de escoamento da produção e até prejuízos para pequenas e médias granjas da região Nordeste.

O vice-presidente da AVIPE também explicou que, apesar do possível impacto no preço da carne, o ovo não seria afetado, uma vez que Pernambuco é um estado autossuficiente na produção do alimento e foca na exportação interna.
“Pernambuco é o primeiro estado produtor de ovos no Nordeste, atendendo outros estados da região como Bahia, Alagoas, Piauí e Maranhão. Para os outros países, a exportação chega quase a zero”, pontua.
Preço do quilo no atacado está perto de R$ 10
De acordo com o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), em 19 de maio de 2025, o frango congelado no atacado foi comercializado a R$ 8,67 por quilo na Grande São Paulo, enquanto em Erechim (RS) o preço chegou a R$ 10,39. Apesar da leve queda observada em maio, os valores registrados em abril representaram a maior média nominal da série histórica, situando-se muito acima dos praticados no mesmo período de 2024.
No Nordeste, especificamente em Pernambuco, não há cotações recentes disponíveis para o frango congelado no atacado. Ainda assim, a região tende a ser afetada pelas oscilações de preços no Sul e Sudeste, devido à interligação logística e comercial do mercado nacional.
Segundo dados do Banco do Nordeste, com base na Pesquisa Trimestral de Abate do IBGE (2024), a produção de carne de frango no Nordeste no terceiro trimestre de 2024 atingiu 156,7 mil toneladas, resultado de um crescimento de 24,2% em relação ao mesmo período de 2023. O desempenho foi impulsionado principalmente por Pernambuco, que produziu 39,9 mil toneladas e se manteve como o segundo maior produtor da Região, com 25,5% do total, atrás apenas da Bahia, responsável por 49,8% da produção nordestina.
Caso suspeito investigado no Ceará
A confirmação do primeiro caso de gripe aviária em uma granja comercial no Brasil reacendeu o alerta sanitário em todo o país, com repercussões diretas sobre a cadeia produtiva de frango — inclusive no Nordeste, região que, apesar de não ser protagonista nas exportações, pode sentir os efeitos no mercado interno.
Um dos focos investigados atualmente pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) está em Salitre, no interior do Ceará, em uma criação de subsistência. Embora isolado, o caso simboliza a capilaridade da crise sanitária envolvendo a gripe aviária.
Desde maio de 2023, o Brasil vinha registrando casos esporádicos da influenza aviária (H5N1) em aves silvestres, mas até então havia conseguido evitar a contaminação em granjas comerciais.
Esse cenário mudou no dia 16 de maio de 2025, quando o Mapa confirmou um foco em produção industrial na cidade de Montenegro, no Rio Grande do Sul. A partir desse episódio, o país passou a enfrentar uma nova etapa da crise, que agora afeta diretamente o comércio internacional e acende o alerta nas cadeias regionais, como a nordestina.
Outras investigações em curso
Além do foco confirmado no Rio Grande do Sul, o Mapa investiga casos suspeitos no Tocantins, Santa Catarina e em produções familiares de subsistência no Ceará, Mato Grosso e Sergipe. Desses, três já foram descartados. Ainda assim, o cenário permanece instável, e o governo federal trabalha para erradicar o vírus em até quatro semanas a partir do início das ações de contenção.
A perspectiva, segundo o Mapa, é que a retomada das exportações ocorra de forma gradual, com os países voltando a comprar do Brasil à medida que a situação for considerada controlada. Até lá, o frango pode se tornar mais barato para o consumidor brasileiro — mas ao custo de um possível prejuízo para os produtores nordestinos.
Suspensões internacionais afetam 17 mercados
Com a confirmação do foco industrial da gripe aviária, 17 países interromperam a compra de carne de frango do Brasil. A medida afeta diretamente os estados exportadores — Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul —, que juntos respondem por mais de 80% das exportações nacionais. Em 2024, o Brasil exportou 5,295 milhões de toneladas de frango, o equivalente a 35,4% da produção total, segundo dados da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA). Os principais mercados foram China, Emirados Árabes Unidos, Japão e União Europeia.
Gripe aviária não é transmitida por carne de frango ou ovos
A influenza aviária H5N1 não é transmitida pelo consumo de carne de frango ou ovos devidamente cozidos. A principal forma de contágio entre humanos se dá por contato direto e prolongado com aves infectadas. Segundo o Ministério da Saúde, o risco de transmissão para humanos permanece muito baixo, e não há registro de casos no Brasil até o momento. humanos se dá por contato direto e prolongado com aves infectadas. Segundo o Ministério da Saúde, o risco de transmissão para humanos permanece muito baixo, e não há registro de casos no Brasil até o momento.
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