
O Nordeste reúne 30,8 milhões de cabeças de gado, 15,7% do rebanho bovino brasileiro, volume superior ao da Austrália (27,4 milhões), mas participa com menos de 1% das exportações nacionais de carne bovina. Os três estados que mais exportam na região, Bahia, Maranhão e Pernambuco, embarcaram juntos 35,09 mil toneladas em 2025, menos do que Tocantins sozinho (127,85 mil toneladas), segundo o Beef Report 2026 da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) divulgado no dia 16 de julho. O desempenho regional na balança comercial do setor está relacionado à menor produtividade por carcaça e ao número inferior de plantas frigoríficas de grande porte, mas o primeiro trimestre de 2026 já registrou alta de 51,38% nos embarques regionais.
A participação nordestina na exportação de carnes ficou abaixo de 1% em 2025, ano em que o Brasil faturou US$ 18 bilhões com embarques para 177 destinos e se tornou o maior produtor mundial do setor, ultrapassando os Estados Unidos. O desafio é crescer internacionalmente em um cenário onde mercados importantes estão restringindo cotas e impondo barreiras sanitárias, como a China e a União Europeia.
Segundo o Beef Report, o Nordeste tem dois desafios: aumentar a produtividade por carcaça e recuperar áreas degradadas para pastagens. A média brasileira de produtividade é de 77,3 kg de carcaça por hectare, e nenhum dos grandes estados pecuários do Nordeste alcança metade desse patamar.
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Produtividade por carcaça abaixo da média nacional
A Bahia, maior rebanho da região com 12,03 milhões de cabeças (6,16% do nacional), opera a 20,84 kg/ha. O Maranhão (8,25 milhões de cabeças, 4,22%) chega a 38,93 kg/ha. Pernambuco (2,18 milhões, 1,12%) marca 26,03 kg/ha e o Ceará (2,46 milhões, 1,26%), 33,73 kg/ha. Na ponta mais frágil, o Rio Grande do Norte registra 5,34 kg/ha e o Piauí, 8,82 kg/ha, ambos em áreas com manejo extensivo de baixa tecnologia. Alagoas (79,84 kg/ha) e Sergipe (73,13 kg/ha) são as exceções, próximos da média nacional.
A produtividade baixa se reflete no volume exportado: a Bahia embarcou 7,08 mil toneladas em 2025 (0,2% do total), o Maranhão exportou 21,60 mil toneladas (0,7%) e Pernambuco, 6,41 mil toneladas (0,2%). No país, 76% da área de pastagens opera abaixo dos 77,3 kg/ha, com índice de 43,2 kg/ha nas faixas de baixa tecnologia, patamar próximo ao dos estados nordestinos com maior produção.
Recuperação de pastagens e sistema intensivo
O segundo desafio tem dimensão ambiental. O rebanho nordestino cresceu de 29,2 milhões de cabeças em 2024 para 30,8 milhões em 2025, mas a Caatinga, que concentra 28,8 milhões de hectares de pastagens, carrega índices de degradação entre os mais altos do país: 17% da área com degradação severa e 39% com degradação moderada. No plano nacional, 17,9 milhões de hectares precisam de recuperação, com 4,9 milhões em estágio avançado. O custo estimado chega a US$ 51,5 bilhões na Amazônia (26,7 milhões de hectares) e US$ 75,5 bilhões no Cerrado (38,6 milhões de hectares).
O restante do país já colheu ganhos com a intensificação: entre 2005 e 2025, a produção brasileira cresceu 41%, de 8,8 milhões para 12,35 milhões de TEC, enquanto a área de pastagem recuou 12%, de 181 milhões para 159,8 milhões de hectares.
A produtividade por hectare cresceu 183% em três décadas, o efeito poupa-terra acumula 423 milhões de hectares de desmatamento evitado, e o peso médio da carcaça atingiu 258,5 kg. Os sistemas intensivos (confinamento e terminação a pasto) alcançaram 11,2 milhões de cabeças em 2025, 23,5% de todos os abates, crescimento de 27,2% sobre 2024.
A participação do Nordeste nos sistemas intensivos não consta do levantamento da Abiec, mas investimentos no Matopiba, que abrange áreas de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, começam a alterar o perfil produtivo da faixa oeste da região.
Mais de R$ 1,6 bilhão em novas plantas mudam o perfil do Nordeste
A Masterboi, instalada em Canhotinho (PE), é a principal responsável pela ampliação da capacidade exportadora de Pernambuco. A empresa fatura R$ 3,5 bilhões, exporta para mais de 140 países e reúne mais de 4 mil colaboradores. O investimento de R$ 60 milhões em um novo túnel de congelamento na unidade pernambucana elevou o abate diário de 700 para 900 animais e gerou cerca de 200 postos de trabalho.
Em 31 de março de 2026, a empresa assinou memorando com o governo do Ceará para construir uma planta em Iguatu, a 362 km de Fortaleza, com investimento de R$ 250 milhões, capacidade de até 1.000 abates por dia, 750 empregos diretos e previsão de operação em 2028. A escolha de Iguatu considerou a logística da Transnordestina, que conecta o interior ao Porto do Pecém, a disponibilidade hídrica e a presença de criatórios consolidados, segundo o governo cearense. O empreendimento encerra 25 anos sem frigorífico de grande porte habilitado para exportação no estado.
A mesma infraestrutura logística atraiu a JBS Seara, maior processadora de proteína animal do mundo: executivos da empresa visitaram o Terminal Logístico de Iguatu (TLI) e o Complexo do Pecém em junho de 2026 para avaliar condições de escoamento. O TLI está com 85% das obras concluídas e previsão de operação entre agosto e setembro, com planos para um terminal de contêineres de 50 mil metros quadrados.
No Oeste da Bahia, a Captar Agrobusiness, dona do maior confinamento do Nordeste em Luís Eduardo Magalhães, estrutura um plano de R$ 1,2 bilhão até 2030 para erguer o que pretende ser o maior frigorífico da região, com cluster agroindustrial voltado para o mercado externo. No Maranhão, a Fribal, maior frigorífico do estado, investiu R$ 82 milhões nos últimos dois anos na diversificação de operações.
O financiamento público acompanha o movimento privado. O BNB destinou cerca de R$ 26 bilhões à bovinocultura de corte entre 2020 e março de 2026, com recursos do FNE, sendo R$ 5,73 bilhões somente em 2024. O Maranhão liderou as contratações (29,07%), seguido pela Bahia (23,60%). Os vínculos empregatícios no setor na área de atuação do banco cresceram 24,82% entre 2020 e 2024, de 92,29 mil para 115,20 mil, segundo o Ministério do Trabalho. No primeiro semestre de 2026, a China ampliou a habilitação de frigoríficos brasileiros, incluindo unidades do Nordeste.

Exportações do Nordeste crescem 51% em três meses
Entre janeiro e março de 2026, o Nordeste exportou 9,6 mil toneladas de carne bovina, 51,38% mais do que no mesmo período de 2025, com faturamento de US$ 44,9 milhões e alta de 71,08% em receita, segundo o Caderno Setorial nº 427 do Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste (Etene), vinculado ao BNB. Os embarques alcançaram 84 países. A América do Sul absorveu 33,41% do total, com o Uruguai na primeira posição (2,48 mil toneladas, US$ 12,6 milhões, altas de 52% e 75%). A Ásia, liderada por Hong Kong, respondeu por 12,14%. A Argélia teve a maior variação: +244% em volume, segundo o MDIC/Secex.
Pernambuco, estado que recebeu o maior investimento em capacidade frigorífica, avançou 124% em volume e 174% em faturamento, resultado direto da habilitação de plantas da Masterboi para novos mercados. A Bahia cresceu 65% em volume e 70% em receita. O Maranhão avançou 30% e 47%, respectivamente. O Ceará registrou alta de 42% em volume e 49% em receita. Alagoas seguiu na direção contrária, com retração de 47,5%.
O fechamento do Estreito de Ormuz durante o conflito no Oriente Médio afetou embarques de março para Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Turquia, mercados relevantes para carga viva, segundo o Etene. No quarto trimestre de 2025, o Nordeste abateu 1,004 milhão de cabeças, recorde da série recente, com avanço de 9,08% sobre o mesmo período de 2024. A produção de carne chegou a 252,66 mil toneladas, alta de 7,18% na mesma base de comparação, segundo o IBGE.
Cota chinesa, veto europeu e o cenário para o Nordeste
A ampliação da capacidade exportadora do Nordeste ocorre num momento em que os dois maiores mercados compradores de carne bovina brasileira impõem restrições. O primeiro semestre de 2026 registrou US$ 9,929 bilhões em exportações nacionais, alta de 33,4% sobre o mesmo período de 2025, segundo a Abiec, mas as vendas à China, que somaram US$ 4,818 bilhões (+50,3%) com 774,7 mil toneladas, esgotaram a cota de importação fixada por Pequim em 1,106 milhão de toneladas para 2026. Dentro do limite, a tarifa é de 12%. Acima, incide sobretaxa de 55%, o que levou frigoríficos a interromper embarques em julho.
A Abrafrigo projeta queda de cerca de US$ 4 bilhões nas vendas ao mercado chinês em 2026 em relação aos US$ 8,845 bilhões de 2025. A expectativa do setor é retomar linhas de abate no último trimestre, com cargas chegando aos portos chineses já dentro da cota de 2027.
A União Europeia acrescentou outra barreira. A partir de 3 de setembro de 2026, o bloco suspende a importação de carne bovina brasileira por falta de comprovação de que a cadeia produtiva opera livre do uso de antimicrobianos. A adequação inclui rastreio durante todo o ciclo de vida do animal e pode levar até dois anos.
Os Estados Unidos, em nova rodada de sanções comerciais, isentaram a carne bovina de alíquotas adicionais às já existentes. Para o Nordeste, que amplia capacidade frigorífica justamente quando China e União Europeia restringem acesso, a diversificação de destinos registrada no primeiro trimestre, com 84 países atendidos e 33,41% dos embarques absorvidos pela América do Sul, ganha peso estratégico. A participação do Nordeste nas exportações nacionais permaneceu abaixo de 1% em 2025, e as projeções da Athenagro até 2035 não detalham a região.
O Brasil que ultrapassou os Estados Unidos
A cadeia da carne bovina movimentou R$ 1,159 trilhão em 2025, 9,1% do PIB de R$ 12,738 trilhões, recorde nominal com alta de 18,2% sobre 2024. O país alcançou a liderança global na produção, com 12,35 milhões de TEC e participação de 16,08% no total mundial de 76,79 milhões de TEC. Os Estados Unidos ficaram com 11,81 milhões de TEC, acumulando retração de 5,65% no rebanho em dez anos. Em uma década, o incremento brasileiro foi de 2,98 milhões de TEC, o maior entre todos os países.
O preço médio de exportação subiu de US$ 4.431 por tonelada em 2024 para US$ 5.143 em 2025, e a participação das exportações na produção atingiu 36,7%, recorde da série. A carne bovina representou 10,6% das exportações do agronegócio (US$ 169,2 bilhões) e 5,2% de todas as exportações brasileiras (US$ 348,3 bilhões). A China absorveu 56,17% de toda a carne importada do Brasil, com 1,68 milhão de toneladas e US$ 8,9 bilhões em receita. Nos últimos cinco anos, o volume exportado cresceu mais de 70%.
A Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA) reconheceu o país em maio de 2025 como livre de febre aftosa sem vacinação, após 20 anos sem registro da doença, e o Brasil é classificado como de risco insignificante para EEB desde 2012.
As projeções da Athenagro para 2035 indicam produção de 15,18 milhões de TEC, exportações de 7,09 milhões de TEC (47% da produção) e peso médio de carcaça de 292,78 kg. Segundo a FAO e a OCDE, o país deve suprir 40% da demanda global até 2034. O consumo per capita formal ficou em 31,17 kg de carcaça por ano em 2025, e o mercado interno absorveu 7,87 milhões de TEC, 63,33% da produção.
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