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Carcaça, pastagem e frigorífico: o que falta ao Nordeste para exportar mais carne

Relatório Beef Report 2026 mostra que BA, MA e PE exportaram juntos menos carne que Tocantins. Investimentos de R$ 1,6 bilhão em frigoríficos já elevaram embarques em 51% no primeiro trimestre deste ano
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  1. Nordeste concentra 15,7% do rebanho bovino brasileiro, mas exporta menos de 1% da carne nacional.
  2. Bahia, Maranhão e Pernambuco exportaram 35,09 mil toneladas em 2025, volume inferior ao de Tocantins isoladamente.
  3. Produtividade regional por carcaça fica muito abaixo da média brasileira de 77,3 quilogramas por hectare.
  4. Primeira exportação de 2026 registrou alta de 51,38% nos embarques regionais comparado ao período anterior.
  5. Recuperação de pastagens degradadas na Caatinga e adoção de sistemas intensivos são essenciais para competitividade.
Carcaça, pastagem e frigorífico: o que falta ao Nordeste para exportar mais carne relatório Beef Report 2026
Funcionárias realizam desossa em planta frigorífica. O Nordeste reúne 30,8 milhões de cabeças de gado e participa com menos de 1% das exportações nacionais de carne bovina, segundo o Beef Report 2026 da Abiec. Foto: Beef Report/Reprodução

O Nordeste reúne 30,8 milhões de cabeças de gado, 15,7% do rebanho bovino brasileiro, volume superior ao da Austrália (27,4 milhões), mas participa com menos de 1% das exportações nacionais de carne bovina. Os três estados que mais exportam na região, Bahia, Maranhão e Pernambuco, embarcaram juntos 35,09 mil toneladas em 2025, menos do que Tocantins sozinho (127,85 mil toneladas), segundo o Beef Report 2026 da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) divulgado no dia 16 de julho. O desempenho regional na balança comercial do setor está relacionado à menor produtividade por carcaça e ao número inferior de plantas frigoríficas de grande porte, mas o primeiro trimestre de 2026 já registrou alta de 51,38% nos embarques regionais.

A participação nordestina na exportação de carnes ficou abaixo de 1% em 2025, ano em que o Brasil faturou US$ 18 bilhões com embarques para 177 destinos e se tornou o maior produtor mundial do setor, ultrapassando os Estados Unidos. O desafio é crescer internacionalmente em um cenário onde mercados importantes estão restringindo cotas e impondo barreiras sanitárias, como a China e a União Europeia.

Segundo o Beef Report, o Nordeste tem dois desafios: aumentar a produtividade por carcaça e recuperar áreas degradadas para pastagens. A média brasileira de produtividade é de 77,3 kg de carcaça por hectare, e nenhum dos grandes estados pecuários do Nordeste alcança metade desse patamar.

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Produtividade por carcaça abaixo da média nacional

A Bahia, maior rebanho da região com 12,03 milhões de cabeças (6,16% do nacional), opera a 20,84 kg/ha. O Maranhão (8,25 milhões de cabeças, 4,22%) chega a 38,93 kg/ha. Pernambuco (2,18 milhões, 1,12%) marca 26,03 kg/ha e o Ceará (2,46 milhões, 1,26%), 33,73 kg/ha. Na ponta mais frágil, o Rio Grande do Norte registra 5,34 kg/ha e o Piauí, 8,82 kg/ha, ambos em áreas com manejo extensivo de baixa tecnologia. Alagoas (79,84 kg/ha) e Sergipe (73,13 kg/ha) são as exceções, próximos da média nacional.

A produtividade baixa se reflete no volume exportado: a Bahia embarcou 7,08 mil toneladas em 2025 (0,2% do total), o Maranhão exportou 21,60 mil toneladas (0,7%) e Pernambuco, 6,41 mil toneladas (0,2%). No país, 76% da área de pastagens opera abaixo dos 77,3 kg/ha, com índice de 43,2 kg/ha nas faixas de baixa tecnologia, patamar próximo ao dos estados nordestinos com maior produção.

Recuperação de pastagens e sistema intensivo

O segundo desafio tem dimensão ambiental. O rebanho nordestino cresceu de 29,2 milhões de cabeças em 2024 para 30,8 milhões em 2025, mas a Caatinga, que concentra 28,8 milhões de hectares de pastagens, carrega índices de degradação entre os mais altos do país: 17% da área com degradação severa e 39% com degradação moderada. No plano nacional, 17,9 milhões de hectares precisam de recuperação, com 4,9 milhões em estágio avançado. O custo estimado chega a US$ 51,5 bilhões na Amazônia (26,7 milhões de hectares) e US$ 75,5 bilhões no Cerrado (38,6 milhões de hectares).

O restante do país já colheu ganhos com a intensificação: entre 2005 e 2025, a produção brasileira cresceu 41%, de 8,8 milhões para 12,35 milhões de TEC, enquanto a área de pastagem recuou 12%, de 181 milhões para 159,8 milhões de hectares.

A produtividade por hectare cresceu 183% em três décadas, o efeito poupa-terra acumula 423 milhões de hectares de desmatamento evitado, e o peso médio da carcaça atingiu 258,5 kg. Os sistemas intensivos (confinamento e terminação a pasto) alcançaram 11,2 milhões de cabeças em 2025, 23,5% de todos os abates, crescimento de 27,2% sobre 2024.

A participação do Nordeste nos sistemas intensivos não consta do levantamento da Abiec, mas investimentos no Matopiba, que abrange áreas de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, começam a alterar o perfil produtivo da faixa oeste da região.

Mais de R$ 1,6 bilhão em novas plantas mudam o perfil do Nordeste

A Masterboi, instalada em Canhotinho (PE), é a principal responsável pela ampliação da capacidade exportadora de Pernambuco. A empresa fatura R$ 3,5 bilhões, exporta para mais de 140 países e reúne mais de 4 mil colaboradores. O investimento de R$ 60 milhões em um novo túnel de congelamento na unidade pernambucana elevou o abate diário de 700 para 900 animais e gerou cerca de 200 postos de trabalho.

Em 31 de março de 2026, a empresa assinou memorando com o governo do Ceará para construir uma planta em Iguatu, a 362 km de Fortaleza, com investimento de R$ 250 milhões, capacidade de até 1.000 abates por dia, 750 empregos diretos e previsão de operação em 2028. A escolha de Iguatu considerou a logística da Transnordestina, que conecta o interior ao Porto do Pecém, a disponibilidade hídrica e a presença de criatórios consolidados, segundo o governo cearense. O empreendimento encerra 25 anos sem frigorífico de grande porte habilitado para exportação no estado.

A mesma infraestrutura logística atraiu a JBS Seara, maior processadora de proteína animal do mundo: executivos da empresa visitaram o Terminal Logístico de Iguatu (TLI) e o Complexo do Pecém em junho de 2026 para avaliar condições de escoamento. O TLI está com 85% das obras concluídas e previsão de operação entre agosto e setembro, com planos para um terminal de contêineres de 50 mil metros quadrados.

No Oeste da Bahia, a Captar Agrobusiness, dona do maior confinamento do Nordeste em Luís Eduardo Magalhães, estrutura um plano de R$ 1,2 bilhão até 2030 para erguer o que pretende ser o maior frigorífico da região, com cluster agroindustrial voltado para o mercado externo. No Maranhão, a Fribal, maior frigorífico do estado, investiu R$ 82 milhões nos últimos dois anos na diversificação de operações.

O financiamento público acompanha o movimento privado. O BNB destinou cerca de R$ 26 bilhões à bovinocultura de corte entre 2020 e março de 2026, com recursos do FNE, sendo R$ 5,73 bilhões somente em 2024. O Maranhão liderou as contratações (29,07%), seguido pela Bahia (23,60%). Os vínculos empregatícios no setor na área de atuação do banco cresceram 24,82% entre 2020 e 2024, de 92,29 mil para 115,20 mil, segundo o Ministério do Trabalho. No primeiro semestre de 2026, a China ampliou a habilitação de frigoríficos brasileiros, incluindo unidades do Nordeste.

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Carcaças bovinas em linha de abate de frigorífico habilitado para exportação no Nordeste, região que embarcou 35,09 mil toneladas em 2025, menos que Tocantins sozinho, mas registrou alta de 51,38% nos embarques no primeiro trimestre de 2026 após investimentos de R$ 1,6 bilhão em novas plantas. Foto: ME

Exportações do Nordeste crescem 51% em três meses

Entre janeiro e março de 2026, o Nordeste exportou 9,6 mil toneladas de carne bovina, 51,38% mais do que no mesmo período de 2025, com faturamento de US$ 44,9 milhões e alta de 71,08% em receita, segundo o Caderno Setorial nº 427 do Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste (Etene), vinculado ao BNB. Os embarques alcançaram 84 países. A América do Sul absorveu 33,41% do total, com o Uruguai na primeira posição (2,48 mil toneladas, US$ 12,6 milhões, altas de 52% e 75%). A Ásia, liderada por Hong Kong, respondeu por 12,14%. A Argélia teve a maior variação: +244% em volume, segundo o MDIC/Secex.

Pernambuco, estado que recebeu o maior investimento em capacidade frigorífica, avançou 124% em volume e 174% em faturamento, resultado direto da habilitação de plantas da Masterboi para novos mercados. A Bahia cresceu 65% em volume e 70% em receita. O Maranhão avançou 30% e 47%, respectivamente. O Ceará registrou alta de 42% em volume e 49% em receita. Alagoas seguiu na direção contrária, com retração de 47,5%.

O fechamento do Estreito de Ormuz durante o conflito no Oriente Médio afetou embarques de março para Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Turquia, mercados relevantes para carga viva, segundo o Etene. No quarto trimestre de 2025, o Nordeste abateu 1,004 milhão de cabeças, recorde da série recente, com avanço de 9,08% sobre o mesmo período de 2024. A produção de carne chegou a 252,66 mil toneladas, alta de 7,18% na mesma base de comparação, segundo o IBGE.

Cota chinesa, veto europeu e o cenário para o Nordeste

A ampliação da capacidade exportadora do Nordeste ocorre num momento em que os dois maiores mercados compradores de carne bovina brasileira impõem restrições. O primeiro semestre de 2026 registrou US$ 9,929 bilhões em exportações nacionais, alta de 33,4% sobre o mesmo período de 2025, segundo a Abiec, mas as vendas à China, que somaram US$ 4,818 bilhões (+50,3%) com 774,7 mil toneladas, esgotaram a cota de importação fixada por Pequim em 1,106 milhão de toneladas para 2026. Dentro do limite, a tarifa é de 12%. Acima, incide sobretaxa de 55%, o que levou frigoríficos a interromper embarques em julho.

A Abrafrigo projeta queda de cerca de US$ 4 bilhões nas vendas ao mercado chinês em 2026 em relação aos US$ 8,845 bilhões de 2025. A expectativa do setor é retomar linhas de abate no último trimestre, com cargas chegando aos portos chineses já dentro da cota de 2027.

A União Europeia acrescentou outra barreira. A partir de 3 de setembro de 2026, o bloco suspende a importação de carne bovina brasileira por falta de comprovação de que a cadeia produtiva opera livre do uso de antimicrobianos. A adequação inclui rastreio durante todo o ciclo de vida do animal e pode levar até dois anos.

Os Estados Unidos, em nova rodada de sanções comerciais, isentaram a carne bovina de alíquotas adicionais às já existentes. Para o Nordeste, que amplia capacidade frigorífica justamente quando China e União Europeia restringem acesso, a diversificação de destinos registrada no primeiro trimestre, com 84 países atendidos e 33,41% dos embarques absorvidos pela América do Sul, ganha peso estratégico. A participação do Nordeste nas exportações nacionais permaneceu abaixo de 1% em 2025, e as projeções da Athenagro até 2035 não detalham a região.

O Brasil que ultrapassou os Estados Unidos

A cadeia da carne bovina movimentou R$ 1,159 trilhão em 2025, 9,1% do PIB de R$ 12,738 trilhões, recorde nominal com alta de 18,2% sobre 2024. O país alcançou a liderança global na produção, com 12,35 milhões de TEC e participação de 16,08% no total mundial de 76,79 milhões de TEC. Os Estados Unidos ficaram com 11,81 milhões de TEC, acumulando retração de 5,65% no rebanho em dez anos. Em uma década, o incremento brasileiro foi de 2,98 milhões de TEC, o maior entre todos os países.

O preço médio de exportação subiu de US$ 4.431 por tonelada em 2024 para US$ 5.143 em 2025, e a participação das exportações na produção atingiu 36,7%, recorde da série. A carne bovina representou 10,6% das exportações do agronegócio (US$ 169,2 bilhões) e 5,2% de todas as exportações brasileiras (US$ 348,3 bilhões). A China absorveu 56,17% de toda a carne importada do Brasil, com 1,68 milhão de toneladas e US$ 8,9 bilhões em receita. Nos últimos cinco anos, o volume exportado cresceu mais de 70%.

A Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA) reconheceu o país em maio de 2025 como livre de febre aftosa sem vacinação, após 20 anos sem registro da doença, e o Brasil é classificado como de risco insignificante para EEB desde 2012.

As projeções da Athenagro para 2035 indicam produção de 15,18 milhões de TEC, exportações de 7,09 milhões de TEC (47% da produção) e peso médio de carcaça de 292,78 kg. Segundo a FAO e a OCDE, o país deve suprir 40% da demanda global até 2034. O consumo per capita formal ficou em 31,17 kg de carcaça por ano em 2025, e o mercado interno absorveu 7,87 milhões de TEC, 63,33% da produção.

Leia mais: Carne premium de Alagoas ganha escala regional com cooperativa e uso de IA

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