
A fruticultura do Vale do São Francisco enfrenta forte apreensão com o início do tarifaço dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros nesta quarta-feira (22). A uva, principal fruta exportada pela região, ficou fora da lista de isenções do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) e sofre o impacto direto das novas medidas protecionistas. Com a decisão do governo norte-americano, a tarifa sobre a uva brasileira subiu para 35%, resultado da aplicação de 25 pontos percentuais adicionais à alíquota anterior.
A mudança afeta diretamente o Vale do São Francisco, local responsável por 75% da produção nacional da fruta e 95% das exportações brasileiras do setor. Segundo a Abrafrutas (Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frutas e Derivados), a medida anunciada pelo governo de Donald Trump afeta o melão e a melancia que também são produzidos por estados como Rio Grande do Norte, Piauí, Bahia, Pernambuco e Ceará.
Segundo o diretor-executivo da Abrafrutas, Eduardo Brandão, os produtores do Vale do São Francisco e de Mossoró (RN) serão bastante impactados com as novas sobretaxas. Cerca de 99% da uva exportada pelo Brasil aos Estados Unidos é produzida em Petrolina (PE).
A preocupação atinge o coração da economia regional, já que o cultivo de uva gera cerca de 70 mil empregos diretos e indiretos no polo agrícola. Dados do Sindicato dos Produtores Rurais de Petrolina indicam que as mulheres ocupam metade dessa força de trabalho local.
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Impactos no setor e janela de exportações
Além dos trabalhadores do campo, os produtores rurais temem perdas financeiras às vésperas da principal temporada de embarques para o exterior. A janela de exportações do segundo semestre é decisiva para garantir o faturamento do ano e manter os investimentos na lavoura.
Embora o mercado norte-americano não seja o maior comprador em volume, ele é considerado estratégico devido à alta rentabilidade paga aos exportadores. A exclusão da uva da lista de exceções dos Estados Unidos atinge um produto de elevado valor agregado do agronegócio nacional.
“Em 2025 exportamos US$ 42 milhões em uva, o que equivale a quase 15 mil toneladas. Praticamente toda essa produção vem do Vale do São Francisco, então essas sobretaxas impactam da pior forma possível os produtores nordestinos”, alertou Eduardo Brandão.
Eduardo Brandão disse que, mesmo com as taxas, o Brasil vai seguir exportando uva e outras frutas aos Estados Unidos, mas em paralelo busca contribuir com o Governo Federal fornecendo informações sobre o desempenho das exportações de frutas, na tentativa de abrir diálogo. “Sabemos que existe um contexto geopolítico e interesse do governo americano sobre o Brasil. Fizemos o possível para dialogar com o governo norte-americano, mas eles argumentaram que produzem uvas, por exemplo, mas nosso produto chega para eles na entressafra, entre agosto e janeiro. Agora é buscar atender nossos clientes lá e abrir outras oportunidades de exportação”, disse.

Participação da fruta no mercado externo
Segundo levantamento da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), 36,5% das vendas do agronegócio brasileiro para os Estados Unidos sofrerão a cobrança da nova tarifa. Os 63,5% restantes do setor continuarão protegidos pela lista de exceções comerciais.
Dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) registram que as vendas da fruta para os norte-americanos já perdiam força. Em 2024, os Estados Unidos compraram 13,8 mil toneladas de uva do Brasil, somando o valor de US$ 12,8 milhões no período.
Em 2025, os embarques para o mercado americano alcançaram 14 mil toneladas, movimentando o valor de US$ 41,5 milhões. Paralelamente, a Europa consolidou a liderança nas compras, enquanto a Argentina aumentou as importações de 3,6 mil para oito mil toneladas.
Perda de competitividade e novos destinos
A advogada especialista em comércio internacional Anna Dolores Sá Malta avalia que a alta tarifária reduz os lucros na safra. “A elevação da tarifa para 35% reduz significativamente a competitividade da uva brasileira no mercado norte-americano. Ainda que os Estados Unidos já viessem perdendo participação nas exportações da fruta, trata-se de um mercado estratégico pela rentabilidade”, afirma.
Para contornar as barreiras econômicas, analistas defendem que o setor busque outros compradores globais para garantir o escoamento. “Esse cenário exige atenção redobrada dos produtores, revisão dos contratos internacionais e aceleração da busca por novos mercados para reduzir a dependência de um único destino”, destaca Anna Dolores.
Segundo Eduardo Brandão, a Abrafrutas já mantém diálogo com União Europeia, China, Coreia do Sul e outros países para buscar alternativas de ampliar as oportunidades de exportação sem depender tanto dos Estados Unidos. Ele lembrou que situação semelhante ocorreu ano passado quando houve tarifação sobre a manga brasileira, mas ajustes nas operações minimizaram os impactos econômicos.
Necessidade de negociação diplomática
A especialista ressalta a necessidade de ação diplomática do Governo Federal para proteger a economia do semiárido. “Além das estratégias comerciais adotadas pelas empresas, é fundamental que o governo brasileiro mantenha o diálogo internacional para buscar alternativas que restabeleçam condições mais equilibradas de acesso ao mercado norte-americano”, defende a advogada.
Entidades do setor agropecuário já iniciaram orientações técnicas para minimizar os prejuízos aos agricultores nordestinos. Outras frutas como melão e melancia também foram taxadas na mesma medida, mas sofrem menor impacto devido ao menor volume enviado aos Estados Unidos.

Orientação aos produtores e alternativas operacionais
A Abrafrutas trabalha junto aos produtores para estruturar novas rotas de vendas. Em nota oficial, a entidade ressaltou os desdobramentos diretos da medida protecionista adotada pelo governo norte-americano sobre a agricultura nacional.
“No caso da uva brasileira, um dos principais produtos exportados para o mercado norte-americano, a medida elevará a tarifa total para 35%, trazendo desafios para a cadeia produtiva”, declara a instituição.
“A ideia é fazer todo o possível para mitigar os impactos, principalmente para os produtores nordestinos e de todo o país. É um ciclo complicado e seguiremos lutando para diversificar mercados e buscar novas estratégias comerciais”, completou Eduardo Brandão.
A associação relembrou a reação do mercado durante restrições anteriores aplicadas à venda de manga para os Estados Unidos. “A fruticultura brasileira é reconhecida internacionalmente pela qualidade de seus produtos, pela eficiência de sua cadeia produtiva e capacidade de adaptação diante de cenários adversos”, conclui a Abrafrutas.
De calçados a etanol, tarifaço pressiona outros setores do Nordeste
A uva não é o único produto atingido. O documento do USTR, publicado no Federal Register em 16 de junho, lista 2.127 subposições tarifárias protegidas, mas deixou de fora o etanol brasileiro, calçados, vestuário, pedras ornamentais e açúcar orgânico.
O setor norte-americano de etanol apoiou explicitamente a tarifa de 25% durante audiência pública, sob o argumento de que a alíquota é compatível com os achados da investigação e permitiria aos Estados Unidos recuperar participação de mercado perdida em razão das barreiras tarifárias impostas pelo Brasil ao etanol norte-americano.
Os calçados também ficaram de fora das isenções. A indústria calçadista alegou que não há substituto na mesma qualidade e escala disponíveis no Brasil, mas o USTR rejeitou o argumento, sustentando que a proposta de tarifa foi anunciada em 1.º de junho de 2026 e que importadores tiveram tempo para buscar fornecedores alternativos em terceiros países.
O vestuário teve o mesmo tratamento, com pedidos de isenção negados sob a justificativa de que os produtos podem ser obtidos de outras fontes. As pedras ornamentais, setor relevante para estados como Bahia e Espírito Santo, tiveram pedido de isenção rejeitado. O açúcar orgânico ficou de fora da lista sob a alegação do USTR de que o produto poderia ser adquirido de outros países.
Segundo o MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços), a previsão é de que as medidas afetem 18% das exportações nacionais para o mercado estadunidense. No primeiro semestre de 2026, o Brasil importou US$ 1,5 bilhão do mercado estadunidense a mais do que exportou. O déficit do Brasil e superávit para os Estados Unidos mantém-se, apesar do encolhimento do comércio bilateral desde o ano passado.
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