
Prevista para iniciar no Nordeste em setembro, a safra 2026/2027 de cana-de-açúcar tem uma perspectiva menos negativa para a produção de açúcar do que a observada no início do ciclo no Centro-Sul do país. Apesar do cenário mais otimista, o momento exige cautela, já que custos mais elevados, menor capacidade de renovação de canaviais e o avanço do milho na produção de etanol serão desafios a serem vencidos.
A nova safra e seus desafios serão debatidos durante o 41º Simpósio da Agroindústria da Cana-de-Açúcar de Alagoas, promovido pela Stab Leste, que teve início nesta terça-feira (07) em Maceió e segue até o próximo dia 10. Durante abertura do evento, o diretor da Bio Agência, Tarcílio Ricardo Rodrigues, trouxe um panorama sobre a próxima safra e os impactos nos mercados de etanol e açúcar. Ele apontou uma recuperação nas referências para contratos de outubro e março, trazendo algum alento para usinas e fornecedores da região, mas ainda será um cenário que exigirá cautela.
“Essa será uma safra dificílima, acho que uma das mais desafiadoras. Muitas coisas mudaram, teremos alguns atores novos, o milho está chegando bem forte e será um período que vai exigir muito das empresas, muita disciplina e gerenciamento de risco”, afirmou.
No cenário nacional, Tarcílio Rodrigues explicou que a área de colheita tende a crescer, mas não necessariamente por expansão produtiva. A menor renovação dos canaviais, provocada por restrições financeiras, aumenta a participação de lavouras mais velhas no ciclo 2026/2027.
O clima mais favorável pode ajudar a sustentar a produtividade no curto prazo, mas o especialista alerta que a combinação entre receitas menores e custos elevados tende a limitar investimentos em fertilizantes, herbicidas e outros tratos culturais. O impacto, segundo ele, será maior sobre unidades com produtividade mais baixa.
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“Faltou dinheiro para fazer uma renovação maior e o canavial vai ficar um pouco mais velho. Com receita ruim e custos elevados, não vai ter todo o fertilizante, todos os herbicidas e os tratos culturais que seriam necessários”, disse.
Etanol de milho muda escala da oferta
O avanço do etanol de milho é apontado como um dos principais fatores de pressão sobre o mercado. A projeção apresentada pela Bio Agência indica produção de 11,2 bilhões de litros de etanol de milho na safra 2026/2027, volume equivalente a cerca de 29% da oferta nacional.
Para Rodrigues, o milho deixou de ser uma variável pontual e passou a integrar de forma estrutural o mercado de biocombustíveis. Isso amplia o desafio das usinas de cana em anos de menor remuneração do açúcar, quando parte maior da matéria-prima tende a ser destinada à produção de etanol.
“O milho veio para ficar e numa velocidade muito grande. Quando a cana precisa migrar para o etanol, essa tarefa fica mais difícil porque a oferta de milho cresce ao mesmo tempo”, afirmou.

Mix entre açúcar e consumo de etanol será decisivo na safra
A definição do mix produtivo será central para preservar margens no novo ciclo. No início da safra, as usinas do Centro-Sul reduziram em cerca de oito pontos percentuais a participação do açúcar na produção, priorizando o etanol diante das cotações mais baixas da commodity no mercado internacional.
A estratégia ajudou a reduzir a pressão sobre a oferta global de açúcar. Rodrigues ressaltou que o Brasil tem papel decisivo nesse equilíbrio, por ser o maior fornecedor de açúcar bruto ao mercado internacional e, ao mesmo tempo, ter flexibilidade para converter parte da cana em etanol.
“O Brasil tem capacidade para produzir de 38 a 43 milhões de toneladas de açúcar. O que o mercado está dizendo hoje é: não produza mais do que 39 [milhões de toneladas], porque não cabe”, afirmou.
Com a recuperação parcial das cotações do açúcar, a tendência é que as usinas retomem parte do mix açucareiro. O movimento, porém, precisará ser gradual. Uma reversão brusca pode recriar o excedente global e derrubar os preços, enquanto uma produção excessiva de etanol ampliaria a pressão sobre o mercado doméstico.
A outra variável da equação é a demanda. Para absorver o aumento da oferta, o etanol hidratado precisará ampliar participação no consumo da frota flex, o que depende de maior competitividade frente à gasolina e da adesão do consumidor.
Rodrigues estima que o setor precisará elevar o market share médio do etanol no Centro-Sul para cerca de 33%, acima do patamar observado na safra anterior. Na avaliação dele, há potencial para esse avanço, já que a participação atual do biocombustível ainda está abaixo do tamanho da frota flex no país.
“Tem como dar conta dessa oferta, mas custa caro. Para ganhar participação, o etanol precisa reduzir a paridade e trazer o consumidor de volta”, disse.
Para o Nordeste, a melhora nas referências do açúcar representa um ponto de partida mais favorável para a safra 2026/2027. Ainda assim, o desempenho do ciclo dependerá da capacidade de usinas e fornecedores equilibrarem produtividade, custos, produção de açúcar e etanol em um mercado que passou a conviver com uma oferta estruturalmente maior de biocombustível.

Pesquisa e análise internacional buscam mitigar efeitos no Nordeste
O reitor da Universidade Federal de Alagoas, Josealdo Tonholo, reforçou os desafios enfrentados pelo setor sucroenergético na última safra e destacou o apoio com pesquisas e desenvolvimento de novas variedades RB de cana-de-açúcar, como forma de contribuir com o setor.
Durante o Simpósio, a Ufal fará a liberação regional das variedades RB991532, RB0764 e RB07814, que foram desenvolvidas pelo Programa de Melhoramento Genético da Cana-de-açúcar (PMGCA) e que tem como características melhor produtividade agrícola, resistência a pragas e bom rendimento para produção de açúcar.
“A pauta da vez é o açúcar, que está sobrando no mercado internacional, preço baixando, energia sobrando também, então são temas para pensar como vamos reposicionar o setor sucroenergético. Temos um cenário internacional extremamente complexo, que traz uma instabilidade ao mercado nacional. Com isso, os investimentos precisam ser feitos com muita cautela”, alertou.
O presidente da União Nordestina dos Produtores de Cana-de-Açúcar (Unida), Pedro Campos Neto, falou que depois de uma safra ruim para o Nordeste, já é possível vislumbrar uma melhora no horizonte. Ele fez uma ressalva sobre os reflexos na safra brasileira de problemas enfrentados pela Índia e outros mercados com o aumento da mistura de etanol, o que na sua análise deve trazer efeitos no mercado brasileiro.
“A Índia vem sofrendo com seca e estamos vendo problemas por conta do aumento da mistura de etanol. O biobunker, eu achava que estava mais longe, mas vejo que é uma realidade que está cada vez mais próxima e isso deve gerar uma demanda muito grande para nós [setor], então tudo isso nos força a reduzir custos e aumentar a produtividade, pois a safra está em cima”, disse.
Já o presidente do Sindicato da Indústria do Açúcar e do Etanol de Alagoas (Sindaçúcar-AL), Pedro Robério Nogueira, destacou a importância do Simpósio para debater inovações, mas também de promover reflexão para tomada de decisão do nosso setor.
“O Simpósio chega a sua 41ª edição, começou de forma muito embrionária e hoje chegamos a um evento desta magnitude. Vamos debater aqui os desafios para irrigação, mecanização agrícola e fertilização, sobretudo de bioinsumos, então é um evento muito importante para o setor debater temas de interesse”, completou.
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