
A Movecta vai dobrar sua área alfandegada em Suape e colocar em operação uma segunda unidade na região, em um movimento estratégico para se antecipar ao novo ciclo de crescimento esperado para o porto pernambucano. O plano prevê a implantação do Terminal 2, em área de CLIA — Centro Logístico e Industrial Aduaneiro —, além de investimentos em tecnologia, equipamentos e melhorias operacionais que somam R$ 100 milhões.
O anúncio, antecipado em entrevista exclusiva ao Movimento Econômico pelo CEO da Movecta, Rodrigo Casado, faz parte do planejamento estratégico da companhia. A empresa deve fechar 2026 com faturamento próximo de R$ 1 bilhão, mas quer chegar a 2030 com receita de R$ 2 bilhões.
> Faça parte do canal da Movimento Econômico no WhatsApp
A Movecta atua como operadora logística retroportuária, oferecendo armazenagem alfandegada, transporte rodoviário e serviços agregados às cargas que chegam aos portos ou saem deles. A empresa não faz navegação, mas se posiciona como elo entre o porto e o cliente, ou entre o cliente e o porto, atuando também nos portos de Santos (SP) e Itajaí (SC).
O movimento em Suape está diretamente ligado à expectativa de aumento da movimentação de cargas no porto, impulsionada pela chegada da APM Terminals, subsidiária do grupo Maersk, e por outros investimentos em infraestrutura logística na região.
“Com o anúncio dos investimentos da APM Terminals, a gente realmente acredita que novas rotas marítimas virão para Suape, que novas oportunidades acontecerão e que haverá mais desenvolvimento”, afirmou Casado.
Movecta garante retaguarda
A expansão da Movecta vai garantir que Suape tenha uma retaguarda logística preparada para absorver esse crescimento. A empresa já opera uma unidade alfandegada de 90 mil metros quadrados dentro da zona primária do porto, próxima ao Tecon Suape. O Terminal 2 da companhia terá 86 mil metros quadrados, dos quais 6 mil já estão prontos. A expansão para a área total será gradual, acompanhando o crescimento da movimentação portuária.
A nova unidade está localizada em uma área da própria empresa, licenciada pela Receita Federal para operar como recinto alfandegado. A licença do CLIA já existia desde 2023, mas vinha sendo mantida em compasso de espera. Segundo Casado, a companhia não via, até então, volume suficiente na região para justificar a ativação plena do projeto. O cenário, no entanto, mudou.
A entrada da APM Terminals no porto acelerou a competitividade entre operadores portuários. “Estamos nos antecipando a esse movimento. Queremos estar totalmente preparados para atender a qualquer demanda dos clientes”, resumiu Casado.
A expectativa do CEO é que a consolidação do fluxo de investimentos ocorra nos próximos dois ou três anos, à medida que a operação da APM Terminals comece a ganhar escala.
Potencial de Suape
A aposta da Movecta parte da avaliação de que Suape pode ampliar protagonismo no cenário portuário nacional. Casado lembra que, em 2010, quando a companhia chegou ao porto pernambucano por meio de aquisições, havia a expectativa de que Suape se tornasse um dos três maiores portos do país em movimentação de contêineres. Esse potencial, segundo ele, não se concretizou plenamente nos últimos anos, mas permanece relevante.

“Suape tem uma posição importante, embora hoje esteja, acredito, na casa do sexto maior porto do Brasil em movimentação de contêineres. Mas vemos muito potencial para que seja um hub logístico do Nordeste”, afirmou.
Para o executivo, o porto passa por uma nova janela de oportunidade. Além da chegada da APM Terminals, ele cita o esforço da autoridade portuária, da Receita Federal, dos operadores e dos armadores para aumentar a eficiência e a competitividade da região.
Em Suape, a companhia atende operações de importação e exportação, mas a maior parte da receita vem da importação. A razão, segundo Casado, é que a carga importada permite maior agregação de valor. Muitas vezes, depois de desembarcar, o produto ainda precisa passar por processos como abertura de contêiner, montagem, desmontagem, etiquetagem, rotulagem, embalagem, selagem ou outras intervenções antes de seguir ao destino final.
“A importação é importante porque permite gerar mais serviço agregado. A carga chega e ainda posso manipular, etiquetar, embalar, montar e mandar para o destino final”, afirmou.
A Movecta atende setores como farmacêutico, químico, de bebidas, automotivo e de alimentos. Em Suape, segundo Casado, a companhia é a maior recebedora de bebidas importadas no porto. Esses produtos, em geral, demandam serviços acessórios antes da distribuição no mercado interno.
Antiga Localfrio
A empresa, que completa 73 anos em 2026, também carrega o legado da antiga Localfrio, marca substituída por Movecta em 2023. A mudança refletiu a diversificação da companhia para além da cadeia fria, embora essa continue sendo uma especialidade relevante, especialmente em cargas refrigeradas e congeladas. Casado destaca que a companhia atende desde cargas secas de exportação até operações mais complexas, como as de produtos farmacêuticos refrigerados.

“Hoje conseguimos dar tranquilidade ao porto de que qualquer carga que chegue aqui terá uma retroárea capaz de atender à necessidade do cliente”, disse.
Para Casado, a existência de uma retroárea preparada influencia diretamente a decisão de trazer cargas para determinada região. “Se o importador precisar fazer algum tipo de manipulação na carga, ele quer saber se aquela região tem uma área retroportuária que ofereça esse serviço. Se não tiver, muitas vezes ele não quer levar a carga para lá”, explicou.
Reforço tecnológico
Os investimentos contemplam reforço em tecnologia. Um dos exemplos citados pelo CEO é o Centro de Controle Operacional, instalado em Santos, mas responsável pelo planejamento dos terminais da companhia em todo o Brasil. A estrutura usa inteligência artificial para organizar a disposição dos contêineres nos pátios e reduzir o número de movimentações necessárias, o tempo de operação e os custos.
“Um caminhão podia levar várias horas para retirar um contêiner em uma unidade da empresa. Com a reorganização operacional e o uso de tecnologia, esse tempo médio caiu para cerca de 45 minutos”, ressalta.
Outro investimento citado é o ReefWatch, sistema de telemetria usado no monitoramento de contêineres reefer, destinados a cargas refrigeradas. A tecnologia acompanha a temperatura das cargas durante todo o período em que elas estão sob gestão da companhia, reduzindo o risco de avarias.
A empresa também vem adquirindo equipamentos mais eficientes de movimentação e redesenhando layouts de pátios para aumentar a produtividade. Essa frente é considerada essencial no planejamento estratégico, especialmente nas unidades em que não há possibilidade de expansão física.
“Em Suape, temos o melhor dos mundos, porque podemos aumentar de tamanho e também colocar tecnologia para fazer tudo de forma mais eficiente. Em outras unidades, onde não dá para ampliar área, a tecnologia permite usar melhor o espaço existente”, afirmou.
Plano de expansão
A expansão em Suape faz parte de um plano mais amplo de crescimento. No Movecta 2030, a empresa prevê dobrar de tamanho, combinando expansão orgânica, ganhos de eficiência, tecnologia, entrada em novas geografias e possíveis aquisições.
Segundo Casado, entre 60% e 70% do crescimento necessário para atingir os R$ 2 bilhões em faturamento virá da capacidade orgânica da própria companhia. Os 30% a 40% restantes dependerão de crescimento inorgânico, por meio de aquisições ou entrada em novas regiões.
Para conduzir essa agenda, a Movecta criou uma diretoria de estratégia e transformação dedicada a avaliar geografias e oportunidades no Brasil. No Nordeste, Ceará e Bahia estão no radar, embora Suape siga sendo visto como o principal hub potencial da região.
“Estamos avaliando Ceará e Bahia, mas visualizamos Suape como uma localização de ouro”, afirmou Casado.
Mais empregos
A empresa tem cerca de 1,2 mil colaboradores diretos no Brasil. Em Suape, são 250. Com os novos investimentos, a expectativa é criar pelo menos mais 100 posições na região ao longo do ciclo de expansão.
A qualificação de mão de obra é um dos desafios. Casado afirma que a Movecta trabalha com planos internos de carreira para formar profissionais dentro da própria operação. A ideia é permitir que um colaborador que entra como ajudante possa evoluir para operar empilhadeiras de pequeno porte e, depois, equipamentos de maior complexidade.
Para o CEO, a vocação portuária de Suape, Santos e Itajaí ajuda a reduzir esse gargalo, mas a formação de mão de obra especializada continuará sendo estratégica para sustentar o crescimento.
Veja também:
Senai Park aproxima Pernambuco da produção de hardware
Vila Galé assume antigo hotel do Paiva, que reabre em outubro








