
O preço do diesel S10 começou a recuar após o pico registrado em abril, mas o alívio ainda não chegou com a mesma força ao caixa das transportadoras do Nordeste. Um levantamento mostra que o combustível acumula alta de 15,63% entre 28 de fevereiro e 17 de junho e os estados do Piauí, Bahia, Pernambuco e Ceará concentram as maiores altas estaduais do país.
O levantamento foi realizado pela TruckPag, uma empresa de meios de pagamento e gestão de abastecimento para frotas pesadas, que comparou os valores do litro do diesel pelo país desde que teve início a escalada das tensões geopolíticas no Oriente Médio. O levantamento mostra que o preço do combustível está em processo de acomodação após um período de alta entre março e abril.
A alta ocorreu de forma rápida. Segundo o levantamento, o preço médio nacional saiu de R$ 5,93 na semana de 1º a 7 de março para R$ 7,39 entre 29 de março e 4 de abril, avanço de aproximadamente 24,6% em um mês. Depois disso, o mercado iniciou uma trajetória gradual de queda, com o preço em R$ 6,64, mas sem retornar aos níveis anteriores.
Em junho, os dados indicam uma acomodação. Na semana mais recente do levantamento, o preço médio passou de R$ 6,70 no domingo (14) para R$ 6,67 na segunda-feira (15), R$ 6,66 na terça (16) e R$ 6,64 na quarta-feira (17). A queda é moderada, mas mostra um mercado mais estável após a forte volatilidade registrada entre março e abril.

Nordeste sente impacto maior com alta do preço do diesel S10
A pressão, no entanto, foi mais intensa no Nordeste. De acordo com a TruckPag, a região concentrou praticamente todas as maiores altas estaduais do país desde fevereiro. O Piauí liderou o aumento, com avanço de R$ 1,54 por litro. Em seguida aparecem Bahia, com alta de R$ 1,30; Pernambuco, com R$ 1,29; Maranhão, com R$ 1,19; e Ceará, com R$ 1,16.
Para Kassio Seefeld, CEO e fundador da TruckPag, a região sentiu os maiores impactos da elevação nos preços, com impacto em toda a cadeia logística.
“O Nordeste pegou a parte mais pesada dessa alta. Pelos nossos dados de abastecimento real, o pico nacional foi R$ 7,43 no começo de abril, mas no Nordeste passou de R$ 7,68, e a Bahia chegou a R$ 8,08, mais de R$ 2 acima de onde estava em fevereiro. Desde o fim de fevereiro, o diesel subiu cerca de R$ 1,24 na região contra R$ 0,89 na média do Brasil. Na prática, o transportador do Nordeste pegou quase 40% mais reajustes que o resto do país”, afirma.
Segundo Seefeld, mesmo com o recuo recente do petróleo, o preço do diesel na região segue acima da média nacional e distante do patamar pré-crise.
“O preço recuou um pouco agora, acompanhando o petróleo, que voltou para o menor nível em três meses depois do acordo entre Estados Unidos e Irã. Mas o Nordeste continua rodando uns R$ 0,36 acima da média nacional, bem acima de fevereiro. O alívio no gráfico ainda não virou alívio no caixa de quem opera lá”, diz.
Frete não acompanha diesel na mesma velocidade
O impacto do diesel sobre as transportadoras é direto porque o combustível representa uma das principais parcelas do custo operacional do transporte rodoviário. Em uma empresa de médio porte, com consumo próximo de 100 mil litros de diesel por mês, a variação acumulada apontada pela TruckPag representa cerca de R$ 90 mil a mais por mês em combustível.
Para Seefeld, o problema não está apenas no preço, mas na velocidade da alta e parte das empresas viu o peso do diesel sobre o faturamento subir cerca de 10 pontos percentuais em poucas semanas.
“O que mais machuca não é só o preço, é a velocidade. Conversando com clientes que operam na região, o custo do diesel sobre o faturamento subiu uns 10 pontos em poucas semanas. Quem estava em 45% viu virar 55%. O frete não acompanha na mesma hora, então abre um buraco entre o que entra e o que sai”, afirma.

Esse descompasso afeta a rentabilidade das transportadoras e dificulta a formação de preços. Segundo o executivo, a oscilação semanal do diesel passou a comprometer o planejamento de contratos mais longos.
“Teve cliente pedindo prazo, teve quem atrasasse pagamento. E a oscilação semanal quebrou o planejamento. O transportador não consegue mais fechar um frete para 30 dias sem se proteger com cláusula de reajuste”, diz.
Transportadoras ajustam operação
Com o diesel mais caro no Nordeste, transportadoras têm adotado estratégias operacionais para reduzir perdas. Entre as medidas estão abastecer antes de entrar na região, cruzar determinados trechos com o mínimo necessário no tanque, buscar postos mais competitivos fora das áreas de maior preço e monitorar diariamente os valores praticados nos pontos de abastecimento.
A TruckPag também identificou o impacto por quilômetro rodado em clientes atendidos pela empresa. Segundo Seefeld, uma transportadora constatou que o custo de diesel por quilômetro sair de R$ 3,58 em fevereiro para R$ 4,38 em abril, alta de 22% em dois meses. Em maio, o indicador caiu para R$ 4,33, mas ainda ficou 21% acima do nível anterior à escalada dos preços.
“Em uma frota de porte médio, isso vira centenas de milhares de reais por mês de custo a mais, sem o frete acompanhar”, diz.
A queda recente do petróleo no mercado internacional ajuda a reduzir a pressão sobre os combustíveis, mas ainda não garante retorno rápido aos preços anteriores. Segundo a TruckPag, se o recuo do barril se sustentar e o câmbio colaborar, aumenta a possibilidade de novas quedas no diesel.
“Se o diesel começar a cair junto com o barril, o governo pode aproveitar para retirar esse incentivo. Aí a queda que viria pelo petróleo se anula com o corte do benefício, e o transportador fica no zero a zero, sem ver a redução chegar na bomba”, afirma.
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