
Desde que o governo americano abriu uma investigação comercial contra práticas brasileiras ligadas a comércio digital e serviços de pagamento eletrônico, o Pix voltou ao centro do debate. O sistema, que cresceu 49% no último ano e chegou a 7,37 bilhões de operações mensais, tem o Nordeste como segunda maior base regional de usuários. Segundo analistas, porém, o principal impacto da disputa não deve ocorrer sobre o funcionamento do Pix, mas sobre a expansão de novas funcionalidades associadas ao sistema.
Dados de maio do Banco Central apontam que o Pix totalizou 7,1 bilhões de transações, que ultrapassaram R$ 2,9 trilhões em valores. O Nordeste segue como a segunda região com o maior número de transações, atrás do Sudeste e à frente das demais regiões do Brasil.
Levantamento do Centro de Estudos de Microfinanças e Inclusão Financeira (FGVCemif), divulgado em 2025, mostra que Rio Grande do Norte (63,8%), Bahia (60,69%), Pernambuco (60,56%), Sergipe (59,62%) e Ceará (58,99%) figuram entre os estados com maior proporção de usuários do sistema, evidenciando o avanço da digitalização dos pagamentos e da inclusão financeira na região.
O alto volume de transações dentro do Sistema de Pagamento Instantâneo (SPI) colocou o sistema brasileiro na investigação comercial dos Estados Unidos, aberta pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), no âmbito da Seção 301 do Trade Act de 1974. O mecanismo permite ao governo norte-americano investigar atos, políticas e práticas considerados desleais ou prejudiciais ao comércio dos Estados Unidos.
Pressão americana pode afetar novas funcionalidades no Pix
No caso do Pix, o debate envolve o papel do Banco Central como regulador e operador do sistema, em um mercado onde também atuam bancos, fintechs, instituições de pagamento e empresas globais de tecnologia. A discussão ocorre em paralelo ao novo tarifaço anunciado pelo governo Donald Trump contra exportações brasileiras, que pode ter efeito a partir de 15 de julho.
O presidente do Instituto Brasileiro de Finanças Digitais (IFD), Rodrigo de Abreu Pinto, explicou ao Movimento Econômico que a disputa tende a ter impacto limitado sobre o funcionamento do Pix. Segundo ele, não há sinais de que o governo federal pretenda alterar regras que ajudaram a popularizar o sistema, como a gratuidade e a obrigação de instituições com mais de 500 mil contas ativas disponibilizarem o Pix.
“O impacto tende a ser limitado, já que não há sinais de que o atual governo pretenda realizar qualquer mudança nas regras que tornaram o Pix popular, como a gratuidade e a obrigação de instituições com mais de 500 mil contas ativas disponibilizarem o Pix”, afirma.
Apesar de não ver ameaça direta ao funcionamento do Pix, Rodrigo avalia que há riscos em torno da expansão de novas funcionalidades associadas ao sistema. Para ele, a pressão regulatória e comercial pode estimular restrições por parte de parceiros privados, especialmente em soluções que dependem de integração tecnológica.
“Há risco concreto de parceiros passarem a limitar funcionalidades relacionadas ao sistema. Estamos vendo isso com a Apple, que vem restringindo o Pix por aproximação via NFC em iPhones”, diz.

No caso do Nordeste, o presidente do IFD avalia que a pressão externa não deve reduzir a utilização do sistema. A popularidade do Pix na região, segundo ele, está associada aos ganhos práticos percebidos pelos usuários, independentemente de renda, origem social ou posicionamento político.
“O Pix é tão popular na região que, independentemente da origem, da classe social ou até mesmo do posicionamento político, os usuários compreendem os benefícios trazidos pelo sistema e não deixarão de utilizá-lo em razão de críticas ou pressões vindas do governo norte-americano, sobretudo porque não foram apresentados argumentos consistentes contra o Pix”, afirma Rodrigo.
Cartões também avançam
Apesar da expansão do sistema de pagamento, o mercado de cartões também mantém trajetória de crescimento no Brasil. Segundo a Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs), o setor de cartões de crédito, débito e pré-pagos deve crescer entre 9,5% e 11,5% em 2026, ultrapassando pela primeira vez a marca anual de R$ 5 trilhões em transações.
A popularização dos pagamentos por aproximação e a digitalização do consumo têm sustentado a expansão do setor de cartões, em paralelo à consolidação do Pix nas transações de maior frequência.
Na prática, os dois meios tendem a seguir ocupando espaços complementares em um mercado de pagamentos cada vez mais digitalizado, com o sistema brasileiro consolidado como infraestrutura essencial para transferências instantâneas e pagamentos cotidianos.
“O Pix não foi desenhado para excluir o setor privado, mas para funcionar como um trilho sobre o qual bancos, fintechs e empresas de tecnologia possam desenvolver soluções”, afirmou Rodrigo de Abreu.
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