
Pesquisadores da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) desenvolveram um creme dental com ativo natural em substituição ao flúor, produzido a partir do óleo essencial da planta Tetradenia riparia, popularmente chamada de mirra ou falsa-mirra, com propriedades antibacterianas, anticárie e de combate à halitose comprovadas em laboratório. A tecnologia não tem equivalente registrado no país e gerou um pedido de patente no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), depositado em setembro de 2024. A publicação oficial em março de 2026 garante à UFPB prioridade sobre a tecnologia enquanto o processo de concessão tramita.
O produto é um dentifrício de fase aquosa única que usa o óleo essencial da mirra como ativo principal, em concentração de 0,01% a 10% em peso. Testes realizados pelos inventores identificaram atividade antibacteriana contra Streptococcus mutans, Staphylococcus aureus e Candida albicans, microrganismos associados à formação de biofilme, cárie e infecções bucais. O resultado diferencia o produto dos cremes dentais convencionais, que utilizam o flúor como agente anticárie central.
A planta que repele mosquito e combate cárie
A matéria-prima tem uma trajetória improvável no Brasil. A Tetradenia riparia é nativa do sul da África e chegou ao país como espécie exótica, cultivada em parques, jardins e próxima a residências por uma função doméstica bem específica: repelir mosquitos. O arbusto de folhas aromáticas tornou-se comum no Nordeste e em regiões subtropicais sem que sua composição química fosse explorada industrialmente. Foi esse território inexplorado que os pesquisadores da UFPB decidiram investigar.
A análise laboratorial por cromatografia gasosa acoplada a espectrometria de massa identificou na planta compostos como fenchona (36,66%), beta-cariofileno (6,62%), cânfora (5,31%) e alfa-pineno (5,26%), todos com propriedades farmacológicas documentadas na literatura científica. A combinação desses compostos em uma formulação estável de creme dental é o núcleo da inovação patenteada.
“A espécie tem reconhecidas propriedades farmacológicas, com atividades antioxidantes, analgésica e bactericidas, mas ainda é pouco estudada quanto à sua aplicação industrial, daí a relevância social e científica do nosso invento”, afirmou a professora Melânia Lopes Cornélio, do Departamento de Engenharia Química da UFPB e coordenadora do projeto.
Estabilidade e aceitabilidade
Em testes comparativos com duas pastas comerciais, o creme da UFPB resistiu por mais de 45 minutos na escova sem despencar, enquanto um dos produtos comerciais cedeu em 5 minutos. O dentifrício formulado também manteve brilho e consistência durante todo o período de exposição ao ambiente, ao contrário dos concorrentes, que perderam essas propriedades com a evaporação de água. A varredura reológica mostrou comportamento de viscosidade idêntico ao das pastas comerciais, dado que atesta que a tecnologia já reúne as condições mínimas para escalonamento industrial. A estabilidade térmica foi avaliada por termogravimetria, com temperatura de degradação total estimada em 300°C.
Testes de aceitabilidade preliminares com usuários relataram sensação de limpeza prolongada em relação ao dentifrício convencional. Participantes com histórico de gengivite também relataram melhoras durante o período de uso. “Nós realizamos um pequeno teste para verificar a aceitabilidade do produto. As pessoas que usaram relataram que perceberam que os dentes e a boca ficaram com uma sensação de limpeza por mais tempo do que com o dentifrício convencional”, disse Cornélio.

Plataforma para a bioeconomia
A patente depositada no INPI vai além do creme dental. O documento técnico cobre um conjunto amplo de produtos de higiene bucal: gel dental, enxaguatório bucal, mousse, espuma, fio dental com revestimento ativo e pastilha mastigável. Cada um desses formatos representa uma frente de mercado distinta, o que transforma a pesquisa da UFPB não em um produto isolado, mas em uma plataforma tecnológica com múltiplas possibilidades de exploração comercial e licenciamento.
O potencial regional é direto. A Tetradenia riparia já ocorre de forma naturalizada no Nordeste, o que coloca a região em posição favorável para estruturar uma cadeia de fornecimento local da matéria-prima. A escala da bioeconomia depende da capacidade de cultivar, processar e industrializar a planta em volume, etapas que a patente ainda não cobre, mas que a publicação do documento técnico pelo INPI torna agora públicas e acessíveis a potenciais parceiros industriais e investidores.
Além da coordenadora, integram a equipe de inventores os pesquisadores Josilene de Assis Cavalcante, Yuri Mangueira do Nascimento, José Maria Barbosa Filho e Felipe Queiroga Sarmento Guerra, todos vinculados à UFPB.
*Com informações da UFPB
Leia mais: Ceará vai ao espaço em 2027 com nanossatélite que resiste à radiação











