
Com a taxa básica de juros ainda em patamar elevado e a renda fixa oferecendo retornos atrativos, investir em imóveis deixou de ser uma decisão baseada apenas na expectativa de valorização. Em um cenário onde o crédito está mais caro e há maior seletividade do comprador, especialistas avaliam que o imóvel segue no radar de quem busca construir patrimônio, mas passou a exigir mais planejamento, análise de risco e estratégia financeira.
O Comitê de Política Monetária do Banco Central do Brasil (Copom), anuncia na noite desta quarta-feira (17) se mantém a taxa Selic no patamar de 14,50% ao ano. Os analistas estimam que os juros fechem o ano de 2026 em 13,75% ao ano, superando a previsão anterior que era de 13,5% ao ano.
A pesquisa projeta reduções graduais na taxa básica de juros brasileira para os próximos anos. A estimativa do mercado é que a Selic caia para 12% ao ano em 2027, passe para 10,25% ao ano em 2028 e chegue ao patamar de 10% ao ano ao final de 2029.
O movimento ocorre após o colegiado ter reduzido os juros em 0,25 ponto percentual na reunião de abril. De junho de 2025 a março deste ano, o indicador permaneceu fixado em 15% ao ano, o maior nível registrado em quase 20 anos, sofrendo cortes posteriores diante da retração inflacionária da época.
Segundo Lauro Braga, especialista em mercado imobiliário ouvido pelo Movimento Econômico, o investimento em imóveis ou renda fixa vai exigir mais planejamento para quem busca evoluir na construção patrimonial.
“O mercado financeiro precisa andar de mãos dadas com o mercado imobiliário, e vice-versa. Não dá mais para fazer uma estratégia que separe os dois”, afirma Braga. Segundo ele, nos últimos anos, o imóvel passou a ser visto também como um ativo financeiro, mas com a diferença de seguir lastreado em um bem físico.
“As pessoas não compram mais só para morar. Elas compram para fazer renda, para revender, como investimento. Então, a gente tem uma modalidade de investimento”, avalia.
Na prática, essa mudança tem levado investidores a buscar alternativas diferentes conforme o perfil, o capital disponível e o objetivo de retorno. Há casos em que pode ser mais vantajoso manter recursos aplicados na renda fixa e usar o rendimento para pagar um imóvel na planta. Em outros, o caminho pode ser adquirir uma unidade pronta, com potencial de locação imediata, ou utilizar consórcio e financiamento como forma de alavancagem patrimonial.

Juros altos reduzem poder de compra
Apesar da atratividade dos imóveis como ativo patrimonial, o cenário de juros elevados impõe limites ao mercado. Braga afirma que a Selic alta retarda decisões de compra, reduz a circulação de dinheiro e achata o poder de compra das famílias e investidores.
“Juros altos nunca ajudam o mercado. Eles fazem com que o dinheiro fique retido. As pessoas deixam de colocar dinheiro na rua, deixam de investir”, diz.
No mercado imobiliário, o impacto aparece principalmente no financiamento. Como grande parte das operações depende de crédito, a elevação dos juros reduz o valor que o comprador consegue financiar com a mesma parcela mensal.
Braga exemplifica que uma parcela de R$ 2 mil pode representar poderes de compra muito diferentes conforme o nível dos juros. Em um cenário mais favorável, esse valor poderia sustentar um financiamento em torno de R$ 250 mil. Com juros mais altos, a mesma parcela pode cair para algo próximo de R$ 180 mil ou R$ 190 mil.
“Quando os juros estão altos, o poder de compra fica achatado. E o mercado imobiliário vive do financiamento. Sem financiamento, praticamente não temos a maior parte das operações”, afirma.
Dados divulgados pela Brain Inteligência Estratégica apontam que em Maceió segue com demanda aquecida, mas também começa a refletir um movimento observado no país em que o desejo de compra continua elevado, especialmente entre os mais jovens, mas a sonhada compra de um imóvel tem sido adiada diante da pressão de juros, renda e preço final.
No acumulado de 12 meses até março, foram vendidas 5.683 unidades verticais em Maceió, alta de 3% em relação ao mesmo intervalo encerrado em março de 2025. Na Região Metropolitana, o avanço foi ainda maior, de 15%, com 244 unidades vendidas. O resultado reforça a percepção de que a demanda segue ativa, mesmo em um ambiente econômico mais restritivo.
O avanço da locação é outro sinal dessa pressão. Segundo a Brain, a busca por aluguel, que ficava entre 16% e 17% das famílias no início de 2024, passou para cerca de 20% em 2025. O movimento indica que parte dos consumidores continua desejando comprar, mas tem migrado para a locação diante das dificuldades de renda, crédito e endividamento.
Investidor busca renda, não apenas revenda
A mudança no comportamento do comprador ficou mais evidente depois da pandemia. Segundo Braga, antes desse período, a maior parte dos investidores buscava imóveis com foco na revenda após a valorização durante a obra. Hoje, o perfil dominante é outro.
“Até o momento da pandemia, 75% dos clientes compravam para revender, com a intenção de fazer aquela alavancagem do período de obra. Hoje, já temos um perfil totalmente diferente: 75% compram para fazer renda”, afirma.
Nesse cenário de crédito caro, programas habitacionais com condições diferenciadas tendem a ganhar ainda mais relevância. O programa habitacional Minha Casa, Minha Vida se tornou uma das principais engrenagens do mercado imobiliário brasileiro e deve continuar avançando, inclusive com maior presença na classe média.
“A classe média precisa ser abraçada, porque ficou uma disparidade muito grande entre o preço final dos imóveis e o que ela pode pagar”, avalia.

Imóvel continua relevante, mas exige método
Apesar do cenário instável, o imóvel segue como alternativa relevante para quem busca construir patrimônio, mas a decisão precisa ser cada vez mais técnica, segundo análise do especialista. Em um cenário de juros altos, a compra deve considerar prazo, capacidade de pagamento, renda esperada, liquidez, valorização e risco.
A diferença, segundo ele, é que o imóvel combina características de ativo financeiro com a segurança de um bem físico. Mas, para gerar resultado, precisa ser comprado com método.
“O primeiro passo é buscar um especialista nesse tipo de produto. Quem quer investir precisa alinhar expectativa e realidade, entender quanto pode desembolsar e qual rentabilidade faz sentido para aquela estratégia”, finalizou.
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