
Existe uma data sem dia marcado que já entrou no radar de bancos, gestoras e custodiantes de ativos digitais: o Q-Day. É assim que especialistas chamam o momento em que um computador quântico será capaz de quebrar parte da criptografia usada hoje para proteger transações financeiras, carteiras digitais e blockchains.
O ponto sensível está nas chaves criptográficas. Sistemas financeiros e blockchains dependem de assinaturas digitais para autenticar transações e provar a titularidade de ativos. Segundo pesquisa do Google Quantum AI, futuros computadores quânticos poderão quebrar a criptografia de curva elíptica usada em criptomoedas e outros sistemas com menos recursos do que se estimava antes. O estudo fala em ataques executáveis em “poucos minutos”, sob determinadas premissas de hardware quântico avançado. (Google Pesquisa). “A computação quântica deixou de ser uma discussão teórica e passou a ser uma prioridade de planejamento de infraestrutura”, afirmou Mike Belshe, CEO da BitGo.
Diante desse cenário, a BitGo decidiu se antecipar. Em parceria com a Silence Laboratories, a custodiante anunciou a primeira simulação de transação pós-quântica realizada por uma instituição regulada usando infraestrutura de carteira baseada em MPC, sigla para computação multipartidária. A demonstração mostrou que assinaturas resistentes à computação quântica podem ser incorporadas a fluxos institucionais já usados por bancos, corretoras e fundos, preservando controle distribuído de chaves, regras de aprovação, auditoria e separação de funções.
Ainda que não seja imediato para quem usa Pix, banco digital ou criptomoedas, o assunto deixou de restrito a laboratórios: em março de 2026, o Google definiu 2029 como prazo interno para concluir sua migração para criptografia pós-quântica, alertando que computadores quânticos representarão ameaça relevante a padrões atuais de criptografia e assinaturas digitais.
A computação quântica tem o potencial de transformar fundamentalmente a segurança digital e mudar algumas das premissas por trás da segurança financeira moderna. Hoje, contas bancárias, sistemas de pagamento, carteiras digitais e criptomoedas dependem de criptografia que é praticamente impossível de ser comprometida com computadores clássicos. Um computador quântico suficientemente avançado poderia eventualmente enfraquecer certos sistemas criptográficos de chave pública, incluindo os esquemas de assinatura usados para autenticar softwares, proteger comunicações e autorizar transações digitais.
“Os ativos digitais estão particularmente em risco, pois grande parte da infraestrutura existente ainda depende de esquemas de segurança que não foram projetados para resistir a ameaças quânticas”, analisa Jay Prakash, CEO da Silence Laboratories.
Prakash explica que a solução usa um protocolo PQ-MPC baseado no ML-DSA, algoritmo de assinatura digital padronizado pelo NIST no FIPS 204 para proteção em um ambiente pós-quântico. Em 2024, o NIST finalizou seus primeiros padrões de criptografia pós-quântica, incluindo o ML-KEM para criptografia geral e o ML-DSA para assinaturas digitais. (NIST)
Nas palavras de Mike Belshe “a computação quântica passou de discussão teórica a prioridade de planejamento de infraestrutura para a indústria de ativos digitais”. O CEO da Silence Laboratories ressalta que os “ativos digitais estão particularmente em risco, porque grande parte dos sistemas ainda depende de assinaturas que não foram construídas para resistir a ameaças quânticas”.
Belshe, ressalta que para o consumidor, a mensagem é de cautela, não de pânico. Para esses, os riscos mais imediatos continuam sendo golpes, phishing, roubo de senhas e engenharia social. Mas, para instituições que guardam trilhões de dólares em ativos digitais, a contagem regressiva já começou. Migrar carteiras, sistemas de custódia, padrões de autenticação e processos regulatórios leva anos.
O ponto principal, segundo os especialistas, é que as contas de consumidores e as carteiras de criptomoedas não se tornaram repentinamente inseguras hoje. O risco quântico não é uma ameaça imediata para o consumidor. É um problema de migração de infraestrutura a longo prazo, e o trabalho de preparação para ele precisa começar muito antes de se tornar urgente.
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