
O governo do Rio Grande do Norte deu início à estruturação do projeto que pretende criar, do zero, um porto voltado à expansão da indústria de energia eólica e de outros segmentos da economia verde. Nesta semana, a governadora Fátima Bezerra (PT) assinou a ordem de serviço que autoriza o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) a elaborar o modelo de implantação e gestão do Porto Indústria-Verde, previsto para ser construído em Caiçara do Norte, no litoral potiguar.
Com investimentos estimados em R$ 10 bilhões, o empreendimento foi concebido para atender inicialmente à cadeia da energia eólica offshore e deverá funcionar como um complexo portuário-industrial capaz de atrair fabricantes de equipamentos, projetos de hidrogênio verde, mineração e outras atividades ligadas à transição energética.
A assinatura do contrato marca o início dos estudos que irão definir o modelo de governança do empreendimento, incluindo a possibilidade de concessão à iniciativa privada ou parceria público-privada (PPP). A expectativa é que a modelagem seja concluída até o início de 2027, permitindo o lançamento do processo para escolha dos investidores responsáveis pela implantação do complexo.
O projeto nasceu da necessidade de criar uma infraestrutura adequada para atender o avanço da energia eólica no estado. Há um ano, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) concedeu, a primeira licença prévia para o Sítio de Testes de Aerogeradores Offshore, no litoral do município de Areia Branca, com capacidade instalada de até 24,5 megawatts (MW).
Um porto pensado para a nova economia energética
A iniciativa surge em um momento estratégico para o estado. Atualmente, o Rio Grande do Norte responde por cerca de 32% da geração de energia eólica do Brasil, segundo dados do governo estadual, e lidera as perspectivas de desenvolvimento da eólica offshore no país. Apesar desse protagonismo, o estado enfrenta desafios relacionados ao escoamento da energia produzida e à necessidade de ampliar sua base industrial para absorver parte dessa produção energética.
Segundo a coordenadora de Desenvolvimento Energético do Rio Grande do Norte, Emilia Casanova, a concepção do porto nasceu justamente da necessidade de criar uma infraestrutura adequada para a nova geração de empreendimentos offshore.
“O Porto Indústria-Verde começou a ser pensado a partir do potencial da eólica offshore e da necessidade de uma infraestrutura logística que desse apoio a essa atividade. As peças utilizadas nas usinas offshore são muito maiores do que as utilizadas em terra, exigindo uma estrutura específica para fabricação, movimentação e embarque”, explicou.
Estrutura modular prevê investimentos de R$ 6,8 bilhões
O projeto será implantado de forma modular. A primeira fase prevê investimentos de R$ 3,1 bilhões em infraestrutura básica, incluindo dragagem, construção do canal de acesso, cais e áreas operacionais.
A segunda etapa, estimada em R$ 2,1 bilhões, contempla estruturas voltadas à produção de hidrogênio verde e amônia. Já a terceira fase, com aporte previsto de R$ 1,6 bilhão, será dedicada à diversificação das operações, incluindo terminais especializados para veículos e produtos químicos.
Somadas, as três etapas representam investimentos de R$ 6,8 bilhões e foram desenhadas para permitir uma expansão gradual do empreendimento de acordo com a demanda do mercado.
Com a criação da estrutura de acesso ao porto e outras atividades relacionadas, os investimentos para viabilizar o empreendimento chegam a R$ 10 bilhões.
Caiçara do Norte foi escolhida por localização estratégica
A escolha de Caiçara do Norte, cidade com cerca de 6,5 mil habitantes, foi resultado de estudos conduzidos pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), que analisaram fatores como potencial eólico, condições ambientais e localização estratégica em relação aos futuros parques marítimos.
“Considerando o potencial eólico e o mapa de licenciamento ambiental dos parques offshore em análise pelo Ibama, foi identificado que Caiçara do Norte seria o melhor local para essa infraestrutura”, afirmou Emilia Casanova.
A área destinada ao empreendimento abrange cerca de 13,3 mil hectares e alcança também parte do município de Galinhos. A ampla retroárea disponível é considerada um dos diferenciais do projeto, permitindo futuras expansões sem as limitações observadas em portos urbanos mais antigos.
O modelo adotado prevê a integração entre atividades industriais e operações portuárias. A lógica é permitir que equipamentos sejam fabricados dentro do complexo e transportados diretamente para os locais de instalação no mar, reduzindo custos logísticos e aumentando a competitividade.
“Esse modelo de porto-indústria é muito comum no Mar do Norte. Você tem as indústrias instaladas dentro da área portuária e consegue fazer toda a movimentação dos equipamentos sem grandes deslocamentos”, destacou a coordenadora.
A inspiração vem de experiências bem-sucedidas em países como Dinamarca e Espanha, especialmente em regiões que se consolidaram como polos globais da indústria eólica offshore.
BNDES definirá formato de gestão do porto
O BNDES será responsável por estruturar o modelo de governança e de negócios do empreendimento. A instituição iniciará imediatamente os estudos para definir qual formato será mais adequado: concessão, parceria público-privada (PPP) ou outro modelo que venha a surgir das análises técnicas.
Segundo o superintendente de Soluções de Infraestrutura do banco, Ian Ramalho Guerriero, o objetivo é construir um projeto capaz de se tornar um novo vetor de desenvolvimento para o Nordeste. “Estamos falando de um porto totalmente novo, pensado desde o início para funcionar como um porto-indústria. Além da função logística, ele terá capacidade de estimular a instalação de atividades industriais e criar um ambiente favorável para novos investimentos”, afirmou.
Guerriero compara a iniciativa aos principais complexos industriais-portuários do país. “Hoje temos exemplos importantes como Suape (PE), Pecém (CE) e Açu (RJ). O Porto Indústria-Verde tem potencial para se juntar a esse grupo de empreendimentos transformadores”, disse.
Os estudos terão duração inicial de oito meses. Nos primeiros quatro meses serão avaliadas alternativas de governança e implantação. Em seguida, será desenvolvido o modelo escolhido, incluindo contratos, regulamentação e estrutura operacional.
A previsão é que, no primeiro semestre de 2027, a proposta consolidada seja submetida à consulta pública antes do lançamento do processo de seleção dos investidores.
Embora a eólica offshore seja a principal motivação do projeto neste momento, o governo do estado e o BNDES enxergam potencial para atrair uma série de outros empreendimentos. Entre os segmentos identificados estão hidrogênio verde, amônia verde, mineração, indústria automotiva, combustíveis sustentáveis e fabricação de equipamentos para energia renovável.
“O setor de eólica offshore provavelmente será o pioneiro, mas o porto foi pensado para receber diversas atividades econômicas ao longo do tempo”, observou Guerriero. A expectativa é que a disponibilidade de energia renovável em larga escala funcione como um diferencial competitivo para a instalação dessas empresas.
Transformar energia eólica em desenvolvimento econômico
A discussão sobre o Porto Indústria-Verde ocorre em um contexto de crescimento acelerado da geração renovável no Nordeste e de desafios para o aproveitamento local dessa energia. Questionado sobre o momento da implantação do projeto, Guerriero defendeu que a infraestrutura é justamente o passo necessário para converter a liderança energética em desenvolvimento econômico.
“Quando uma região dispõe de energia abundante, ela cria oportunidades para atrair investimentos industriais. Mas a indústria também precisa de logística, infraestrutura e ambiente regulatório adequado. É justamente essa combinação que estamos buscando construir”, afirmou.
Para o executivo do BNDES, a ampliação da infraestrutura logística pode ajudar a criar um novo ciclo de industrialização baseado na energia limpa produzida na região.
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