- Publicidade -

Com Silicon Saxony, Alemanha reduz dependência em semicondutores

Nesta 3ª e última reportagem da série sobre a Alemanha, veja como o país fortalece sua autonomia industrial em meio a disputas geopolíticas
Patricia Raposo
Patricia Raposo
De Recife CEO do Movimento Econômico [email protected]
- Publicidade -
Dresden capital da Saxonia
Dresden capital da Saxônia, concentra grandes empresas de semicondutores/Foto: divulgção

O estado da Saxônia, no leste da Alemanha, tornou-se um dos principais exemplos europeus de política industrial voltada à soberania tecnológica. Na capital Dresden, o Silicon Saxony, ecossistema que integra empresas, universidades, centros de pesquisa e governo, revela como o país tem estruturado uma resposta concreta à crescente dependência externa em cadeias fundamentais — especialmente a de semicondutores.

Esse movimento não surge de forma isolada. Ele está diretamente ligado a uma estratégia mais ampla da Alemanha e da União Europeia para fortalecer sua autonomia industrial em um cenário global marcado por disputas geopolíticas, reorganização das cadeias produtivas e concentração tecnológica em poucos países.

Neste cenário, a Alemanha têm ampliado sua estratégia para além das parcerias tradicionais. A relação transatlântica com os Estados Unidos e o Canadá, assim como a OTAN, segue como pilar central, mas há um movimento claro de expansão para regiões como Ásia, África e América Latina, cujo peso econômico cresce de forma consistente.

Em conversa com jornalistas de veículos estrangeiros em Berlim, entre eles o Movimento Econômico, Christoph Israng, diretor de Segurança Econômica, Comércio Exterior e Políticas de Promoção de Investimentos do governo alemão, destacou que as cadeias de suprimento deixaram de ser apenas uma questão de eficiência. “Hoje, elas também são instrumentos de poder político”, afirmou. Segundo ele, há uma disputa global por acesso a recursos estratégicos, mercados e mão de obra qualificada, o que aumenta o risco de dependências que podem ser usadas como forma de pressão entre países.

O que se vê hoje no Silicon Saxony não algo recente. Desde a reunificação, em 1990, a Saxônia vem se desenvolvendo e se tornando um estado federado moderno, com uma economia inovadora e um setor científico de destaque.

De acordo com David Mitchell, chefe de Relações Internacionais e Cooperação para o Desenvolvimento da Chancelaria do Estado da Saxônia, a base dessa transformação está na articulação entre política pública, pesquisa e indústria. A Saxônia concentra hoje uma das maiores densidades de instituições científicas da Alemanha e mantém uma tradição industrial forte, especialmente nos setores automotivo, de engenharia mecânica e robótica. Essa combinação permitiu que a região se posicionasse como um dos principais polos de alta tecnologia da Europa.

Cluster de semicondutores

Nesse contexto, o cluster de semicondutores se tornou central. A rede Silicon Saxony reúne mais de 365 empresas e cerca de 76 mil profissionais, conectando fabricantes globais, fornecedores, centros de pesquisa e universidades em um mesmo território.

“Nós também nos definimos muito em relação à nossa localização dentro da Europa. Por isso, nos chamamos de ‘coração da Europa’. Se vocês traçarem duas linhas — por exemplo, de Lisboa a Moscou, de oeste a leste, e de Oslo a Roma, de norte a sul — elas se cruzariam na Saxônia”, explica Thomas Haun, diretor-geral da Saxony Trade and Invest.  

Unidade da Infineon em Dresden, Silicon Saxony, Alemanha
Unidade da Infineon em Dresden, Silicon Saxony/Foto: Moimento Econômico

Entre as empresas instaladas estão GlobalFoundries, Infineon Technologies e Bosch, além da futura operação da European Semiconductor Manufacturing Company (ESMC), joint venture que inclui a TSMC.

A TSMC (Taiwan Semiconductor Manufacturing Company) é a maior fabricante de chips do mundo e escolheu Dresden para construir sua primeira fábrica na Europa como parte da estratégia da União Europeia para fortalecer a produção local de chips e reduzir a dependência asiática. O investimento de dez bilhões de euros na Alemanha é uma parceria entre a TSMC, Bosch, Infineon e NXP.

É um reforço e tanto ao ecossistema. “Um terço dos chip produzidos na Europa é feito na Saxônia”, ressalta Mitchell, destacando o peso estratégico da região na indústria continental.

A ESMC é considerada o maior investimento corporativo da história da Saxônia. O projeto terá capacidade de produção de 40 mil wafers por mês. Os wafers são finas fatias de silício purificado, a base física dos semicondutores. Devem ser gerados mais de 2 mil empregos diretos de alta tecnologia. O investimento sinaliza uma mudança estrutural: a tentativa europeia de reposicionar-se em uma cadeia dominada historicamente por países asiáticos.

Infinenon na Alemanha
Nova fábrica da Infineon que está em construção em Dresden/Foto: divulgação

A Infineon Technologies é outra grande empresa presente no Silicon Saxony e tem em Dresden um de seus principais centros globais, dedicado à produção e ao desenvolvimento de semicondutores — componentes essenciais para praticamente toda a economia digital. Fundada em 1994, a partir de uma divisão da Siemens, a companhia reúne mais de 4 mil funcionários na cidade, consolidando-se como um dos maiores empregadores industriais da região e responsável por fabricar mais de 400 tipos de chips, que atendem a setores como a indústria automotiva, especialmente veículos elétricos, energia, segurança digital, telecomunicações e data centers, sendo fundamentais para tecnologias como inteligência artificial, mobilidade elétrica e energias renováveis. A Infineon também avança em sua expansão com a construção de uma nova unidade, a Smart Power Fab, apoiada por cerca de 920 milhões de euros em recursos públicos e com previsão de operação a partir deste ano

Não é uma corrida, é uma maratona

Para Haun, o diferencial da região não está em incentivos isolados, mas na construção de um ecossistema ao longo do tempo. “Hoje muitos países têm ambições na indústria de semicondutores, mas isso é uma maratona, não uma corrida curta”, afirmou. Segundo ele, a presença de fornecedores, universidades e mão de obra qualificada foi decisiva para atrair investimentos dessa escala.

Esse ponto é central para entender a estratégia alemã. Em setores intensivos em capital e tecnologia, como semicondutores, o custo de mão de obra perde relevância diante de fatores como infraestrutura, acesso a conhecimento, capacidade de inovação e proximidade entre os diferentes atores da cadeia produtiva.

A lógica também se estende à questão das matérias-primas. Mitchell destacou o depósito de lítio em Cinovec, na fronteira entre Alemanha e República Tcheca, que concentra entre 3% e 5% das reservas mundiais. O recurso é estratégico para baterias e tecnologias ligadas à transição energética, reforçando a preocupação europeia com segurança de suprimento.

Outro elemento relevante é a integração entre diferentes setores industriais. A Saxônia mantém uma forte base automotiva, com fábricas da Volkswagen, BMW e Porsche, além da produção de baterias da Mercedes-Benz. A microeletrônica, segundo Haun, cresce rapidamente e tende a ganhar ainda mais espaço na estrutura econômica regional.

Concentração atrai profissionais qualificados

A concentração de empresas em um mesmo território cria vantagens adicionais. “Não há outro lugar no mundo onde haja tantos fabricantes diferentes de chips em um só local”, afirmou Haun. Esse ambiente amplia a mobilidade de profissionais – que podem mudar de emprego com mais facilidade -, facilita a troca de conhecimento e fortalece a capacidade de inovação contínua. A região tem atraindo profissionais qualificados de todo mundo.

A estratégia também incorpora uma dimensão internacional. A Saxônia atua como ponte entre Europa Ocidental e Oriental, mantendo relações com países como Polônia, República Tcheca, Ucrânia, Índia, Japão e Taiwan. “Estamos fortalecendo o Estado Livre da Saxônia como um local atrativo para investimentos, instalação de empresas e recrutamento de trabalhadores qualificados”, afirmou Mitchell.

No pano de fundo, o que se observa é uma mudança mais ampla na política industrial alemã. A dependência externa em semicondutores — evidenciada durante a pandemia e intensificada pelas tensões geopolíticas — passou a ser tratada como risco econômico e estratégico.

Alemanha oferece mais do que incentivos fiscais

O modelo alemão oferece um sinal claro: a atração de investimentos de alta tecnologia exige mais do que incentivos fiscais. Depende da construção de um ecossistema integrado, com continuidade de políticas públicas, formação de capital humano, pesquisa aplicada e coordenação entre governo e setor produtivo.

Para Christoph Israng, fortalecer a economia não significa adotar posturas protecionistas. O desafio está em equilibrar abertura e segurança, garantindo competitividade sem ampliar vulnerabilidades. Nesse processo, empresas também desempenham papel decisivo ao alinhar estratégias de curto prazo com uma visão mais ampla de estabilidade.

Leia também:

Alemanha reforça estratégia para atrair investimentos e mira empresas inovadoras

- Publicidade -
- Publicidade -

Mais Notícias

- Publicidade -