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Disputa com etanol eleva preço do milho para avicultura de PE

A avicultura de Pernambuco está sentindo o aumento do preço do milho produzido no Matopiba depois que a região recebeu duas biorrefinarias que produzem etanol de milho
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milho - Abramilho
A previsão da Abramilho é de que o Brasil tenha um excedente de 46 milhões de toneladas do grão a serem exportadas nesta safra 25/26. Foto: Site da Abramilho.

O uso do milho produzido no Matopiba para fazer etanol fez o preço do grão aumentar cerca de 16% nos últimos dois anos naquela região, segundo o vice-presidente da Associação Avícola de Pernambuco (Avipe), Josimário Florêncio. O milho é usado na alimentação dos frangos. Formado por regiões do Maranhão, Tocantins, Piauí e oeste baiano, o Matopiba é um dos fornecedores diretos das empresas de avicultura instaladas no Estado. “A médio prazo, os custos de produção do frango e do ovo vão ficar mais caros”, argumenta Josimário.

As biorrefinarias resultaram numa maior demanda pelo milho produzido no Matopiba. Mas não foi só isso. “O preço do grão passou a ser balizado pelo preço internacional fixado pela Bolsa de Valores de Chicago com previsão de preços até setembro”, comenta Josimário.

Antes das usinas de etanol chegarem ao Matopiba, Josimário recorda que os avicultores pernambucanos aproveitavam o momento da colheita do milho daquela região para comprar o grão por preços mais em conta, já que os produtores daquela não tinham como armazenar o cereal por um período mais longo. “Era a época de barganhar um preço mais barato”, comenta Josimário.

Há dois anos, antes das usinas se instalarem no Matopiba, o saco com 60 kg de milho era vendido por R$ 75 naquela região. Agora, a mesma quantidade de milho é comercializada por R$ 87, independente da época do ano.

“Ganhamos um concorrente na compra do milho, que consome uma quantidade grande de grãos”, resume Josimário. O polo avícola de Pernambuco consome, em média, 3 milhões de toneladas de milho anualmente.

A longo prazo, Josimário diz que o setor tem que procurar alguma alternativa para alimentar os frangos. “Uma delas seria usar uma forma nutricional das galinhas comerem o DDGS, um subproduto do etanol de milho, que é usado na ração animal”, comenta. O DDGS é produzido pelas refinarias de etanol de milho.

Para o leitor ter ideia, estão em funcionamento duas biorrefinarias da empresa no Matopiba, sendo uma na cidade de Luís Eduardo Magalhães, no oeste baiano, e outra em Balsas, no Sul do Maranhão. A fábrica baiana e maranhense podem processar, respectivamente, 1 milhão de toneladas de grãos por ano e 2 milhões de toneladas de milho, anualmente.

As biorrefinarias se instalaram no Matopiba porque a região é uma grande produtora de grãos e, consequentemente, a matéria-prima paga pouco de frete, porque é processada próxima ao local onde é cultivada.

Daniel Rosa cita que o Brasil tem excedente na produção de milho e deve exportar 46 milhões de toneladas nesta safra (25/26). Foto: Abramilho/Divulgação

A produção de milho no País

O Brasil é o terceiro maior produtor de milho do planeta e segundo maior exportador do grão, ficando atrás apenas dos Estados Unidos, que também é o primeiro colocado na produção deste cereal. A China é o segundo maior produtor, mas consome tudo que produz.

“Cerca de 22% de todo o milho plantado no Brasil vai para a produção de etanol. O preço do milho está subindo por causa de um problema estrutural, que inclui o aumento dos custos de produção em 10% na safra 25/26 com incremento no preço de insumos, como sementes, fertilizantes e defensivos agrícolas”, resume o diretor técnico da Associação Brasileira dos Produtores de Milho e Sorgo (Abramilho), Daniel Rosa.

Segundo ele, dizer que o etanol de milho é responsável pelo aumento do preço do milho “não é uma pura verdade”, porque há um sistema truncado. “É preciso uma política pública via Conab para vender aos pequenos produtores do Nordeste, colocando o milho pra vender no mercado, quando estiver caro. A Conab já faz isso, mas precisava ter mais previsibilidade, por exemplo, informando aos produtores quando vai abrir os estoques pra venda”, argumenta Daniel.

Ainda de acordo com o executivo, as biorrefinarias de etanol se instalaram no Matopiba, porque o milho estava barato lá. “As biorrefinarias também compram o milho de forma antecipada. Então, os produtores do Matopiba já sabem pra quem vão vender. E, geralmente, os pequenos produtores não conseguem comprar de forma antecipada”, conclui.

Daniel cita que, na safra 25/26, o Brasil vai consumir 95 milhões de toneladas de milho – incluindo os 22 milhões usados para a produção de etanol – e a expectativa é de que ocorra um excedente de 46 milhões de toneladas a serem exportadas.

Com o conflito do Oriente Médio, os Estados Unidos decidiram reduzir a produção de milho, este ano, em 3% nesta safra por causa da alta do preço dos fertilizantes nitrogenados. “Isso significa que deixarão de ser produzidas 30 milhões de toneladas que os Estados Unidos exportavam para outros países”, diz Daniel. Ou seja vai diminuir a oferta, o que implica em preços mais altos.

E o cenário futuro é de aumento de custos para vários produtos agrícolas, incluindo o milho. “O diesel aumentou cerca de 30% e vai impactar no frete, também subiu o preço dos fertilizantes nitrogenados e isso vai influir na próxima safra, que ocorre em junho”, acrescenta Daniel.

Ao longo dos anos adquirir o milho sempre exigiu uma logística complexa para o setor avícola de Pernambuco, que consome muito deste grão sem ter grandes plantios nas suas proximidades. A produção da avicultura pernambucana é concentrada no Agreste setentrional, empregando cerca de 200 mil pessoas.

Antes da produção do Matopiba, os avicultores de Pernambuco chegaram a trazer milho importado porque saía mais barato do que comprar no Sudeste do País por causa do frete rodoviário. Segundo informações da Avipe, Pernambuco tem 2 mil granjas e cerca de 120 empresas produtoras.

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