
O setor de franquias no Nordeste vem consolidando um ciclo de crescimento consistente, impulsionado pela diversificação de mercados, interiorização das marcas e pela força de segmentos como saúde, beleza e alimentação. Dados da Associação Brasileira de Franchising (ABF) mostram que a região registrou expansão de 13,3% no faturamento em 2025, superando a média nacional, que ficou em 10,4%. O desempenho reforça o protagonismo nordestino em um setor que já representa cerca de 2,7% do PIB brasileiro.
De acordo com levantamento da ABF, o faturamento total das franquias no Nordeste ultrapassou R$ 43 bilhões, com destaque para Bahia, Pernambuco e Ceará, que lideram o ranking regional em volume financeiro, número de unidades e geração de empregos. A Bahia aparece na liderança, com mais de R$ 10,8 bilhões em faturamento e cerca de 7,4 mil unidades, seguida por Pernambuco, que soma R$ 8,5 bilhões e mais de 5,5 mil operações.
Segundo o diretor regional Norte/Nordeste da ABF, Fernando Ribeiro, o avanço acima da média nacional reflete uma combinação de fatores estruturais e comportamentais. “Alguns mercados do Sul e Sudeste já se mostram mais saturados, principalmente nas capitais. O Nordeste passou a ser visto com mais atenção pelas marcas, que identificam aqui um consumidor interessado em marcas consolidadas e modelos de negócio já testados”, afirma.
Ele acrescenta que o movimento se intensificou no pós-pandemia, com maior interesse de redes nacionais pela região. “Há uma janela de expansão ainda muito grande. A tendência é que o Nordeste continue performando acima da média nacional, com crescimento entre 13% e 16% nos próximos anos, enquanto a média nacional fique entre 10% e 14%”, projeta.
Interiorização de franquias impulsiona expansão
Um dos vetores mais relevantes desse crescimento é a interiorização das franquias. Cidades de médio porte e polos regionais têm se tornado estratégicos para a expansão das redes, diante de uma demanda reprimida por marcas reconhecidas.
“A disputa nas capitais é muito intensa, especialmente em shopping centers. Já no interior, muitas marcas chegam como pioneiras, atendendo um público que antes não tinha acesso a esses produtos e serviços”, explica Ribeiro. Segundo ele, esse movimento tem sido adotado por praticamente todas as redes, ampliando o alcance das franquias para além dos grandes centros urbanos.
O avanço no número de unidades reforça essa tendência. Em 2025, o Ceará liderou o crescimento percentual (3,6%), seguido por Pernambuco (3,1%) e Paraíba (2,2%), indicando um dinamismo maior em mercados fora do eixo tradicional.

Saúde e beleza lideram, alimentação sustenta empregos
O levantamento da ABF aponta uma hegemonia clara do segmento de Saúde, Beleza e Bem-Estar, líder em faturamento e número de unidades em todos os estados nordestinos. Em alguns mercados, como Maranhão e Rio Grande do Norte, a participação do setor ultrapassa 30% do faturamento total.
Para Ribeiro, essa liderança não é recente. “Esse movimento já vinha antes da pandemia, mas se fortaleceu muito nesse período. O cuidado com a saúde e o bem-estar ganhou ainda mais relevância e deve permanecer em alta por muitos anos”, afirma.
Ao lado desse segmento, o setor de Alimentação/Food Service desempenha papel central na geração de empregos. Em estados como Ceará e Bahia, responde por mais de 20% das vagas diretas, dividindo o protagonismo com o setor de beleza. No total, o Nordeste reúne mais de 247 mil empregos diretos no franchising, com destaque para Bahia (63,7 mil), Pernambuco (48,2 mil) e Ceará (38,6 mil).

Casos locais refletem tendência de crescimento
A trajetória de redes regionais ilustra o potencial do modelo. Fundada há uma década no Recife, a franquia de salões de beleza Maria Borboleta nasceu como um pequeno quiosque em um shopping e hoje soma 27 unidades, distribuídas entre a Região Metropolitana do Recife (capital, Olinda, Jaboatão dos Guararapes e Paulista) e interior de Pernambuco (Carpina, Goiana e Caruaru). A rede se prepara para chegar a João Pessoa.
Segundo a CEO Nathalia Matos, a decisão de franquear o negócio surgiu ainda na abertura da segunda unidade. “Eu entendi que seria mais estratégico crescer por meio de franquias. Hoje temos uma lista de interessados, mas já não temos espaço para expandir em algumas regiões”, afirma.
Ela destaca que a padronização dos processos e o suporte ao franqueado são diferenciais do modelo. “O franqueado chega, muitas vezes, sem experiência, e encontra tudo estruturado. Isso traz segurança e acelera o crescimento”, diz. Atualmente, a rede emprega cerca de 250 pessoas em suas unidades.
No segmento de estética facial, a expansão também alcança cidades do interior. Franqueado da Royal Face, Wander Klismam opera unidades em Sobral e Juazeiro do Norte, no Ceará, além de Olinda, em Pernambuco.
“O interior oferece boas oportunidades. Em Sobral, por exemplo, atendemos cerca de 350 clientes por mês. É um mercado com demanda crescente e menos saturado”, afirma. Ele destaca ainda a necessidade de profissionalização da gestão. “Com unidades distantes, é essencial ter uma estrutura organizada, com supervisão e processos bem definidos”, acrescenta.
Klismann ingressou no ramo de franquias em 2022. Ele trabalhava como gestor na unidade de Sobral e, em 2024, surgiu a oportunidade de se tornar sócio. Em seguida, veio uma nova janela para expandir para Juazeiro do Norte e Olinda. Os planos de expansão ainda não cessaram. “Estou avaliando os próximos passos. Minha preferência é crescer pelo Nordeste, mas não descarto oportunidades em outras regiões”, explica.

Mercados emergentes ganham protagonismo
Apesar da liderança consolidada de Bahia e Pernambuco, estados de porte intermediário vêm ganhando destaque pelo ritmo de crescimento. Paraíba e Rio Grande do Norte lideraram a expansão do faturamento em 2025, com altas de 10,8% e 10,5%, respectivamente.
A Paraíba também registrou o maior avanço na geração de empregos (2,8%), sinalizando um ambiente favorável à expansão de novos negócios. Em contrapartida, alguns mercados apresentaram sinais de alerta, como Alagoas, que teve retração no número de empregos (-0,7%), e Maranhão, com leve queda no número de unidades (-0,8%).
Outro fator que tem impulsionado o crescimento do setor é o perfil do investidor. Segundo Ribeiro, há uma diversificação crescente entre os novos franqueados, que incluem desde empreendedores iniciantes até profissionais que buscam alternativas mais seguras após experiências malsucedidas em negócios próprios.
“O franchising oferece um modelo já testado, com processos definidos e menor taxa de mortalidade. Isso tem atraído pessoas que querem empreender com mais segurança”, explica. Além disso, as microfranquias, com investimento inicial mais baixo, têm ampliado o acesso ao setor, especialmente em nichos específicos, como lavanderias e serviços automotivos.
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