
Visivelmente mais magra, comendo pouco, dormindo menos e com saudade dos filhos — assim se apresentou a governadora de Pernambuco, Raquel Lyra, no início da entrevista às equipes do Movimento Econômico e da Folha de Pernambuco, na manhã desta segunda-feira (29). A rotina intensa, marcada por agendas em sequência e viagens frequentes, tem deixado suas marcas na mulher de 1,60 metro. “Estou trabalhando todos os finais de semana, durmo em média cinco horas por noite e, muitas vezes, não consigo parar para almoçar”, contou. Raquel planeja tirar alguns dias de férias ao lado dos filhos. “Só eu e eles. Fugir um pouco, porque a saudade aperta”, confidenciou.
A governadora tem pressa. Para ela, Pernambuco vive uma janela decisiva. Ao longo da conversa, Raquel Lyra deixou claro que o Estado precisa, ao mesmo tempo, reorganizar sua infraestrutura logística, enfrentar passivos históricos, recuperar competitividade industrial, equalizar contratos estratégicos em Suape, consolidar a retomada da Transnordestina e administrar os efeitos da reforma tributária — apontada por ela como uma das maiores incertezas fiscais do país e um risco direto ao equilíbrio regional.
Incentivos fiscais à indústria geraram mais de R$ 1 bilhão em investimentos em 2025 para Pernambuco. Com a reforma tributária pondo fim a esses benefícios, como o governo pretende manter a competitividade do Estado?
A reforma tributária aprovada ainda gera muitas incertezas. Nós não sabemos qual será a alíquota geral, quais setores terão regimes específicos nem qual será o tamanho do fundo que vai substituir os incentivos fiscais. Isso afeta diretamente o planejamento das empresas, porque investimento é decidido com antecedência. A modelagem atual leva mais recursos para o Sudeste e aprofunda desigualdades regionais. Levar mais dinheiro para quem já tem mais dinheiro não é justo. Essa conta não pode ser apenas per capita. Ela precisa considerar onde há necessidade real de investimento estruturador, onde existem déficits históricos — inclusive de acesso à água para beber.
Diante desse cenário, nossa estratégia é clara: investir pesado em infraestrutura. Lançamos um programa de R$ 5 bilhões em estradas, saneamento, duplicação da BR-232 e conclusão do Arco Metropolitano. Isso melhora a logística, aumenta a competitividade e mostra ao setor produtivo que Pernambuco é um Estado confiável. A reforma está aprovada, mas precisa ser regulamentada com cuidado. Não pode ser feita a toque de caixa, porque pode ser uma grande oportunidade, mas também um grande risco para quem ainda depende de incentivos fiscais.
Qual é a margem fiscal que o Estado tem hoje para fazer esses investimentos em infraestrutura?
Nós estamos reestruturando a dívida do Estado com o Banco Mundial, o que vai permitir alongar prazos e abrir espaço fiscal. Quando eu cheguei em 2023, Pernambuco não podia fazer uma operação de crédito sequer. Organizamos a casa, aderimos a programas de ajuste fiscal e hoje somos um Estado bom pagador. Banco não faz favor a ninguém. O Estado precisa ser bom pagador. E nós somos.
Pernambuco lidera a geração de empregos no Nordeste, mas ainda tem a maior taxa de desemprego do país, com dois dígitos. Como o governo está lidando com esse desafio?
Reduzimos o desemprego de quase 15% para cerca de 10%. Fomos o Estado que mais reduziu a taxa e que mais aumentou a renda média do trabalhador, segundo o Caged. Isso é resultado direto dos investimentos públicos, que saltaram de 3% para 12% da receita corrente líquida. Hoje temos cerca de R$ 40 bilhões em investimentos privados em execução. Só a duplicação do trem 2 da refinaria Abreu e Lima vai gerar cerca de 16 mil empregos. O novo terminal da APM Terminals já emprega mais de mil pessoas apenas nas obras.
Além disso, estamos investindo fortemente na qualificação profissional. Quando o setor produtivo diz que falta mão de obra, nós perguntamos qual é a demanda e capacitamos. O objetivo é garantir que o emprego fique nos territórios, fortalecendo a economia regional de forma sustentável.

Em breve começam as operações do terminal privado da APM Terminals, com liberdade tarifária e alto investimento tecnológico. Como o governo pretende evitar uma concorrência assimétrica com o Tecon Suape? E como anda a renegociação contratual do terminal atual?
Essa é uma questão central para o Estado. O Tecon Suape opera há mais de 30 anos sob um contrato antigo, que não dialoga mais com a realidade do mercado. A chegada da APM Terminals representa uma mudança de patamar. Eles anteciparam para 2026 investimentos previstos para sete anos e vão operar o terminal mais moderno da América Latina, totalmente eletrificado e mais eficiente.
Para lidar com essa assimetria, contratamos uma consultoria técnica especializada que está avaliando cenários para a renegociação do contrato do Tecon e para o desenho da próxima concessão, já que esse contrato vence em cerca de cinco anos. Suape é um ativo estratégico e continuará sendo central para o desenvolvimento de Pernambuco. O objetivo é garantir equilíbrio competitivo e justiça tarifária.
O Ceará conseguiu garantir 100% dos recursos do FNDF para o ramal da Transnordestina. Como Pernambuco pode assegurar seus interesses? Há recursos garantidos no orçamento da União de 2026 para o trecho que foi licitado, de Custódia a Arcoverde??
“O Estado de Pernambuco assistiu silente à retirada da Transnordestina do contrato com a empresa privada original em dezembro de 2022. Muita gente disse para eu desistir dessa obra, que esse era um tema vencido. Participei de reuniões em que Pernambuco nem esperado, e nossa sigla aparecia de caneta nas planilhas, depois de impresso. Mas conseguimos, por uma decisão política do presidente da República, com o apoio do ministro Renan Filho e da Infra S.A., garantir a volta da Transnordestina a Pernambuco.
A obra agora são 70 quilômetros entre Custódia e Arcoverde, e temos R$ 400 milhões garantidos pelo governo federal para esse trecho. O compromisso da Infra S.A. é lançar novos trechos ao longo do próximo semestre.
Mas os recursos estão garantidos?
Me preocupa que só há R$ 50 milhões previstos no orçamento do ano que vem. Falei isso com o ministro Renan, com o presidente Lula e com o ministro da Casa Civil. O ministro disse: “Raquel, à medida que a obra for sendo tocada, a gente tira dinheiro de estrada e coloca lá” Confiamos nisso. Mas é importante a gente ver o orçamento aberto para garantir que não haja, quando começar a executar a obra, paralisação.
Há possibilidade de investimento privado?
A Transnordestina nos repõe no mapa logístico do mundo. Tem a Petrobras interessada, tem a China interessada, tem os Emirados Árabes interessados, com a conexão que ela pode nos dar via Suape para o Centro-Oeste e para o Norte brasileiro. É o novo desenho de logística do Brasil via Suape.
Retomado o primeiro quilômetro, a iniciativa privada já começa a se posicionar com interesse. E o trecho de Suape, que diziam que não tinha projeto, não tinha de fato. Nós fizemos o projeto executivo, está pronto. Quando a obra avançar, queremos fazer licitação ou trazer a iniciativa privada, que é o melhor caminho.
Desde o início do governo, houve embates com a Assembleia Legislativa, especialmente em torno da LOA e dos vetos. Como a senhora avalia essa relação?
Não estamos numa disputa política. Essa é uma discussão jurídica. A Constituição é clara: o governador tem 15 dias para sancionar ou vetar a lei aprovada pela Assembleia. Eu fiz isso. O veto precisa tramitar na Casa. Não pode haver decisão liminar de deputado dizendo se o veto é válido ou não.
Nunca vi uma operação de crédito levar quase 180 dias para ser votada. Isso atrasa o desenvolvimento. Uma LOA sem segurança jurídica prejudica o funcionamento da máquina pública, o pagamento de salários, a saúde, a segurança e até os outros poderes. Eu respeito muito a Assembleia, trabalhei lá, sei da importância da Casa. A maioria dos deputados quer o desenvolvimento de Pernambuco. Mas precisamos tirar da frente o que não serve ao interesse do povo.
Se a gente não aproveitar os próximos três anos para azeitar o Estado, para nos preparar para a reforma tributária e para os investimentos da nova economia, Pernambuco perde. Esses investimentos estão sendo decididos agora, não daqui a cinco anos. É por isso que eu digo: os próximos cinco anos poderão ser os melhores cinco anos do Estado de Pernambuco, para que a gente possa projetar os próximos cinquenta.
Qual seria o indicador econômico que, ao final do seu governo, mostraria uma mudança de patamar para Pernambuco?
A mudança de patamar virá de um conjunto de indicadores. O primeiro deles é a competitividade. Em 2022, Pernambuco foi apontado pelo Banco Mundial como o pior estado do país para se fazer negócios. Estamos revertendo esse quadro com investimentos estruturadores em estradas, portos, aeroportos, redução da burocracia, licenciamento ambiental mais ágil e regras fiscais mais claras.
Já temos resultados: Pernambuco lidera a geração de empregos formais no Nordeste, aumentou a renda média, reduziu a extrema pobreza e voltou a crescer acima da média nacional em todos os trimestres de 2025.
Estamos fortalecendo arranjos produtivos como o polo automotivo, a bacia leiteira – que agora é a maior bacia leiteira do Nordeste brasileiro-, o polo de confecções e a fruticultura irrigada, conectando produção ao Porto de Suape com mais infraestrutura e tecnologia. Também estamos investindo na qualificação da mão de obra e na atração de empresas de alto valor agregado.
O objetivo é tornar Pernambuco um estado competitivo, confiável e atrativo para investimentos, com crescimento sustentável e redução das desigualdades. Não é um único indicador — é uma cadeia de ações que precisa se manter e se consolidar até o fim do governo.
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