
Analistas do mercado financeiro e economistas reforçam a expectativa de que o Banco Central (BC) possa acelerar o ciclo de cortes da taxa Selic, com alguns projetando uma decisão mais ousada já para o 1º trimestre de 2026. Essa visão ganhou força após a divulgação do Produto Interno Bruto (PIB) do 3º trimestre, que veio abaixo do esperado, sinalizando uma perda de ímpeto da atividade econômica brasileira. A estagnação do crescimento, combinada com o arrefecimento da inflação, reforça o argumento de que a alta taxa de juros não se sustenta mais sem causar danos severos ao crédito, ao consumo e ao emprego.
Com a economia em ritmo lento, o custo de manter juros muito altos tende a aumentar, gerando um impacto negativo sobre o investimento. Essa perspectiva fortalece o argumento de que o BC pode ser forçado a estimular a atividade via corte de juros. A expectativa de muitos economistas e do mercado (via sondagens como o Focus) já projeta a Selic chegando a algo em torno de 12% ao ano até o fim de 2026.
PIB fraco e o arrefecimento da inflação de demanda
O principal catalisador para a expectativa de um corte acelerado de juros reside no desempenho da economia, especialmente no 3º trimestre. O PIB brasileiro ficou praticamente estagnado, subindo irrisórios 0,1% na margem. Embora na ótica da oferta, a agricultura (0,4%), a indústria (0,8%) e os serviços (0,1%) tenham apresentado leve avanço, é na ótica da demanda que o cenário de desinflação se consolida.
O consumo das famílias ficou parado em um tímido 0,1% na margem, a despeito da massa salarial, que está em patamares elevados, e do desemprego baixo. “A falta de dinamismo no consumo das famílias evidencia que os problemas gerados pelo aquecimento do mercado de trabalho no conjunto dos preços pode estar chegando ao fim”, explica o economista André Perfeito.
Outro dado que sustenta o alívio nos preços é o resultado do IGP-DI de novembro, que ficou estável em 0,1% na variação mensal, abaixo da estimativa mediana de 0,2%. O indicador reitera que os preços no atacado (que representam 60% do índice) seguem em deflação, com queda acumulada de 3,64% no ano. “Este seria mais um bom indicador de que os preços estão sob relativo controle e deveria influenciar as projeções de IPCA no Focus”, observa Perfeito.
“Jogo de espelhos” entre BC e mercado
Apesar das evidências de que a inflação está sob relativo controle, o corte da Selic não é um processo automático. A decisão esbarra na incerteza política e fiscal que cerca o pleito presidencial de 2026.
André Perfeito aponta para um impasse. “O Copom já deixou mais que claro que olha as expectativas de inflação. Eles não vão fazer nada antes que o mercado revise as expectativas de IPCA e — cá entre nós — os economistas não vão revisar o IPCA porque dão sobrepeso aos aspectos fiscais pendurados no pleito presidencial do ano que vem”, explica. “Estamos assim presos em um jogo de espelhos infernal. Cabe saber quem vai piscar antes, o BCB ou o mercado”, conclui André Perfeito.
Valdeci Monteiro, doutor em economia, sócio da Ceplan e professor da Universidade Católica de Pernambuco, concorda que o corte da Selic deverá ser gradual e cauteloso, pois o BC deve monitorar de perto a evolução da inflação, câmbio e os riscos domésticos e externos.
Impacto regional: oportunidade para indústria e emprego
Embora a atividade econômica tenha mostrado uma forte desaceleração ao longo deste ano, o emprego formal tem demonstrado uma certa resiliência. Segundo Ademilson Saraiva, economista da Ceplan, esse reflexo de uma economia menos acelerada não acontece de imediato sobre o emprego, devido a decisões de investimento e planejamento de produção prévios.
No entanto, a indústria aguarda a revisão dos juros. “O setor produtivo, ele também aguarda com uma certa ansiedade essa revisão do Banco Central sobre a taxa de juros, especialmente a indústria, porque é um fator bastante importante sobre as possibilidades de investimento e aumento da produção”, afirma Saraiva.
Em termos de crédito e consumo, juros mais baixos tornam empréstimos e financiamentos mais baratos (crédito pessoal, imobiliário, para empresas etc.). Isso tende a estimular o consumo das famílias e os investimentos empresariais, impulsionando a atividade econômica.
”Com empresas investindo e a atividade econômica mais aquecida, há espaço para retomada ou aceleração da geração de empregos, redução do desemprego e potencial aumento da renda”, explica o professor Valdeci Monteiro. Ele ressalta que o efeito não é automático nem imediato, mas contribui para uma melhora no poder de compra das famílias, desde que a inflação esteja sob controle.
O consumo e o alerta
Apesar da tendência de queda da inflação acumulada em 12 meses, que se aproxima do teto da meta, os economistas alertam para uma possível volatilidade de curto prazo no consumo. “A gente tem observado realmente um arrefecimento tanto no consumo de bens duráveis, quanto também no consumo de serviços prestados às famílias, mas é uma tendência que pode mudar com a chegada das férias de fim de ano”, avalia o economista Ademilson Saraiva.
Apesar da expectativa de corte da Selic ser um fator positivo para a indústria, essa mudança no comportamento do consumidor nos próximos dois meses (dezembro e janeiro) pode gerar um repique na inflação de serviços e bens duráveis. Entretanto, a mensagem central é que o corte dos juros é fundamental. A redução pode ter um impacto importante sobre a perspectiva de investimento, especialmente no setor industrial, e pode ser o principal motor para a geração de emprego em 2026.
Procurada pela reportagem do Movimento Econômico, a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) considerou o cenário ainda hipotético e preferiu não comentar, reforçando a cautela institucional que cerca o tema.
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