
A força dos provedores de internet no Nordeste, responsáveis por 84% da banda larga fixa da região, tem reposicionado o Ceará como um polo estratégico da conectividade global. Com 922 provedores atuando apenas no território cearense, o setor demonstra escala, resiliência e capacidade de atrair investimentos em infraestrutura digital de alta complexidade. Esse movimento, que ganhou destaque durante o Abrint Nordeste — maior encontro de provedores da região, realizado em Fortaleza —, evento que ocorre em Fortaleza e está transformando o estado em um dos principais centros da economia digital brasileira.
Para Breno Vale, presidente da Associação Brasileira de Provedores de Internet e Telecomunicações (Abrint), o avanço dos pequenos e médios provedores nas últimas três décadas foi determinante para esse cenário. “Os provedores conectaram quem estava desconectado. Agora, o desafio é outro: governança, ESG, melhoria dos próprios data centers e contratação de estruturas terceirizadas. O crescimento não está mais na expansão territorial, mas em eficiência, qualidade e diversificação de serviços.”
Essa transformação ocorre em paralelo ao avanço de data centers e novas rotas internacionais de cabos submarinos, com epicentro em Fortaleza. “A cidade tem uma grande oferta de cabos submarinos chegando no hub da Praia do Futuro, o que garante menor latência na troca de dados com outros países. Isso cria uma facilidade técnica enorme para instalação de data centers”, explicou Breno em entrevista ao Movimento Econômico.
Segundo ele, o estado combina três vantagens estratégicas: mão de obra especializada, vasta rede de fibra óptica interligada a outras regiões e conexões diretas com centros como São Paulo — essencial para operações com grande volume de dados. “Estamos falando de uma infraestrutura que traz capital, movimenta a economia e gera empregos qualificados. O Ceará está preparado para absorver esse ciclo de investimentos.”
Competitividade regional e futuro dos serviços
Entre as tendências que devem moldar a economia dos provedores nos próximos anos estão a adoção de inteligência artificial na gestão de redes, a expansão das redes neutras e a entrada das Prestadoras de Pequeno Porte (PPPs) no mercado móvel por meio das MVNOs — operadoras virtuais que permitem ao provedor oferecer serviços fixos e móveis. “Banda larga virou commodity. Velocidade já não é o que define o negócio: o assinante quer estabilidade, atendimento de qualidade e serviços adicionais. Fidelizar virou o principal desafio econômico”, afirma Breno.
O presidente da Abrint também aponta que a intensa competitividade no mercado nordestino exige maior regularização e governança. Segundo ele, esse processo já está em andamento com o apoio da Anatel. “É um mercado grande, mas que tende a se ajustar. A capilaridade dos provedores é justamente o que garantiu o avanço da conectividade no país.”

Segurança, facções e risco econômico
Entre os temas de peso na economia regional está o impacto da presença de facções criminosas sobre pequenas operações de internet, especialmente em periferias e áreas remotas. Breno afirma que o problema é grave e está na pauta permanente da entidade. “É um problema sério de segurança pública. Estamos o tempo todo buscando apoio do governo e da Anatel para evitar que esses episódios avancem”, diz.
Ele destaca, porém, que os casos mais críticos se concentram em provedores menores, os microprovedores que não estavam plenamente regularizados. “Boa parte dos provedores tomados por facções, em algum momento, passou por algum tipo de irregularidade. Não estamos falando das empresas estruturadas, mas de pequenos provedores de bairro, muitos sem registro formal na Anatel.”
Apesar do cenário, Breno reforça que o foco é preservar o consumidor e evitar interrupções de serviço. “É uma preocupação grande para o mercado. Quem é atendido não pode ficar sem conexão por causa da insegurança.” Para ele, melhorar o ambiente regulatório e fortalecer a governança das empresas é parte da solução.

Linhas de crédito para provedores
Entre os expositores desta edição do Abrint Nordeste, o Efí Bank apresentou sua nova atuação como agente financeiro credenciado do Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (FUST). A instituição, que atende cerca de 60% das empresas do setor em serviços financeiros e meios de pagamento, passa a operar linhas de crédito reembolsáveis voltadas para projetos de expansão de infraestrutura em regiões com baixa cobertura de internet.
O credenciamento, segundo seu CEO, Denis Silva, possibilita a oferta de condições diferenciadas de financiamento a pequenas e médias operadoras, especialmente no Nordeste. O banco terá acesso a juros subsidiados, garantias públicas e mecanismos que priorizam municípios de até 30 mil habitantes, perfil comum dos provedores que impulsionaram a conectividade regional. A expectativa é aumentar o alcance de investimentos em backbone, FTTH, redes de transporte e energia associada à operação de telecom.
“Na prática, isso muda três coisas importantes para o pequeno provedor nordestino: redução do custo de capital, dado o acesso a crédito mais barato do que no mercado convencional; maior agilidade, com processo digital, linguagem próxima da realidade dos PSIs, e menos burocracia típica de bancos tradicionais; e aderência geográfica, uma vez que o FUST prioriza regiões tidas como de baixa atratividade econômica, o que coloca alguns municípios do Nordeste como foco das operações”, explica.
Durante a feira, o Efí Bank destacou ainda que sua plataforma digital permite que provedores, clientes ou não, iniciem pedidos de crédito de forma simplificada, o que pode acelerar a formalização e a expansão de redes em áreas rurais ou remotas. Para o banco, as PPPs do Nordeste têm papel central na inclusão digital e são parceiras estratégicas na execução das políticas públicas previstas pelo Fust.
“São atores centrais na inclusão digital do Nordeste. Em muitos municípios, são o único agente oferecendo banda larga fixa com qualidade. E são provedores que têm a capilaridade que as grandes operadoras não têm: atendem bairros periféricos, comunidades rurais, povoados e distritos afastados. Além de estarem totalmente alinhados ao objetivo do FUST, que é universalizar a conectividade”, afirma.
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