
Na cidade de Caruaru, uma cena corriqueira revela a complexidade da tropicalização da tecnologia de veículos autônomos. Durante um experimento conduzido pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), um manequim foi identificado como pessoa, enquanto um pedestre, andando no meio da rua, empurrando um carrinho de bebê, passou despercebido pelo sistema de visão computacional. O caso ilustra como algoritmos treinados em contextos urbanos do hemisfério norte não conseguem interpretar situações comuns nas cidades brasileiras e latino-americanas.
A resposta a esse desafio vem do Voxar Labs, laboratório do Centro de Informática da UFPE (CIn/UFPE), que atua para adaptar – ou “tropicalizar” – tecnologias de veículos autônomos à realidade latino-americana. A proposta é clara: desenvolver sistemas de percepção capazes de compreender o trânsito informal, a infraestrutura deficitária e os comportamentos espontâneos de pedestres e condutores.
Situações como placas danificadas ou mal posicionadas, animais soltos, como os famosos cachorros caramelos que circulam livremente pelas ruas, e até construções, objetos ou carrocerias que lembram trens ou ônibus escolares, representam grandes desafios para a interpretação de sistemas automatizados.
O Nordeste tem se consolidado como um eixo estratégico para a indústria automotiva nacional. A chegada da GM ao Ceará, da Stellantis em Goiana (PE) e da fábrica da BYD em Camaçari (BA) amplia a presença de grandes montadoras na região. A articulação entre indústria e universidades pode fortalecer a cadeia de inovação local. A proximidade com os centros de pesquisa, como a UFPE, é vista como uma vantagem para acelerar o desenvolvimento e a aplicação de tecnologias veiculares avançadas, afirma o pesquisador Willams de Lima, líder de projetos de pesquisa e desenvolvimento do Voxar Labs.
Com o apoio de programas como o Mover (sucessor do Rota 2030), editais da Finep e CNPq, e o fortalecimento de polos universitários, a expectativa é que o Brasil alcance até 2030 um patamar de autonomia veicular adaptado à sua própria realidade urbana.
“Não estamos apenas testando carros. Estamos reescrevendo os padrões globais a partir da nossa realidade, com tecnologia feita no Brasil, para brasileiros“, destaca Willams de Lima.

O desafio da direção autônoma no contexto urbano brasileiro
Durante a palestra “Veículos autônomos na América Latina: de sci-fi à realidade?”, realizada na sexta-feira (17) no festival REC’n’Play, o pesquisador apresentou uma análise crítica sobre os limites das soluções importadas.
“Os sensores e algoritmos desenvolvidos fora do Brasil não foram treinados para reconhecer realidades como a de Caruaru, onde a sinalização é ausente, as faixas para pedestres apagadas e o trânsito depende da comunicação entre as pessoas“, afirmou.
Desde 2011, o Voxar desenvolve pesquisas em inteligência artificial (IA), visão computacional e mapeamento urbano por sensores para permitir que veículos autônomos operem com segurança em ambientes desafiadores. Para isso, os pesquisadores criaram um banco de dados com imagens coletadas em toda a América Latina, incluindo Recife, Caruaru, São Paulo, no Brasil, e também cidades do Paraguai, Argentina, Colômbia, Peru e Venezuela.
Esses dados alimentam simuladores gráficos ultrarrealistas, que permitem testar o comportamento dos algoritmos em condições adversas: chuva, buracos, sinalização improvisada, obras e travessias informais. O foco é garantir robustez em situações comuns no Brasil, mas incomuns no exterior.

Limitações técnicas e custo elevado travam avanço
A abordagem também segue os níveis de autonomia definidos pela SAE (Society of Automotive Engineers), que vão do nível 0 (sem autonomia) ao nível 5 (autonomia plena, sem volante ou pedais). Atualmente, os testes no Brasil estão concentrados nos níveis 2 e 3, com assistência parcial ou condicional do condutor. Em comparação, países como os Estados Unidos já operam projetos experimentais em nível 4, principalmente em áreas urbanas controladas.
O custo é outro entrave relevante. Um sensor Lidar pode custar cerca de R$ 175 mil, enquanto um radar automotivo padrão-ouro chega a R$ 425 mil. O conjunto completo de sensores para um veículo semi-autônomo pode ultrapassar R$ 1,5 milhão, somando processamento, integração e software embarcado.
Por isso, o Voxar trabalha em soluções baseadas em câmeras convencionais e modelos otimizados, mais acessíveis para o mercado nacional.
“Nosso objetivo é desenvolver autonomia veicular acessível e funcional para as condições reais da América Latina, e não apenas replicar soluções do Norte Global“, destacou Lima.
Viés de IA: quando o algoritmo falha com o Brasil
Estudos de pesquisadores chineses citados por Lima mostram que sistemas de visão artificial apresentam vieses estruturais: são até 30% menos eficazes para identificar pedestres com pele escura e têm dificuldade para detectar crianças ou pessoas em cenários noturnos. Esses vieses têm origem nos dados de treinamento, predominantemente coletados em cidades da Europa, EUA e Ásia.
O caso do manequim em Caruaru simboliza esse problema: o sistema reconheceu uma figura estática como humana, mas não detectou um pedestre real empurrando um carrinho, por não corresponder às “formas” esperadas pelo algoritmo.
Outro exemplo citado por Lima foi um modelo de IA que confundiu carrocerias e reboques com vagões de trem, por nunca ter sido treinado para lidar com modificações visuais comuns em caminhões brasileiros.
Simulação urbana, previsão de trajetórias e monitoramento fisiológico
Além da percepção do ambiente, o Voxar também investe em simulação de situações urbanas críticas, como freadas de emergência, ultrapassagens e interações com ciclistas. Tudo é testado em ambiente digital com motores gráficos de alta fidelidade.
A equipe também explora o uso de modelos generativos para prever trajetórias e comportamentos de agentes no trânsito, como pedestres, ciclistas ou veículos não sinalizados. A técnica antecipa cenários de risco e melhora a capacidade de resposta do sistema autônomo.
Outro projeto em andamento é o monitoramento da saúde de motoristas humanos, usando sensores não invasivos para avaliar batimentos, respiração, fadiga e níveis de estresse. O sistema emite alertas em tempo real quando identifica sinais de risco, como sonolência ou tensão emocional.
Indústria, pesquisa e o papel do Nordeste
Com 14 anos de atuação e mais de 30 colaboradores, o Voxar Labs possui parcerias com empresas como HP, Samsung, Stellantis e Volkswagen. Foi o único centro do Norte e Nordeste a ter quatro projetos aprovados na primeira fase do edital de mobilidade da Fundep, concorrendo com ICTs do Sudeste e Sul.
O laboratório também integra consórcios internacionais com universidades da Alemanha, Reino Unido e Japão, além de atuar em projetos conjuntos com grandes montadoras, como Volkswagen e Stellantis, ampliando o alcance global da pesquisa desenvolvida no Recife.
Outro gargalo destacado durante a palestra foi a ausência de um marco legal claro no Brasil para veículos autônomos. Apesar de discussões em curso no Congresso, ainda não há regulamentação que permita testes em larga escala ou defina responsabilidades jurídicas, o que limita a evolução da tecnologia no país.
Além disso, Lima aponta a necessidade de infraestrutura de conectividade para sustentar o avanço dos veículos autônomos, com destaque para a disponibilidade de redes 5G, essenciais para integração em tempo real entre veículos, sensores e centros de controle urbano.
Leia mais: Plataformização avança no NE com renda maior, jornada extensa e pouca proteção










