
A equipe RobôCIn, do Centro de Informática (CIn) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), alcançou um resultado inédito para o Brasil ao conquistar o vice-campeonato mundial na RoboCup 2026, realizada em Incheon, na Coreia do Sul. Os estudantes pernambucanos garantiram o segundo lugar na divisão A da categoria Small Size League (SSL), que simula partidas de futebol com robôs autônomos. O grupo também obteve o quinto lugar em Simulação 2D e a nona posição na Liga Humanóide.
A competição, ocorrida entre 30 de junho e 6 de julho, reuniu mais de 3.000 participantes de 45 países e é apontada como a maior do mundo em robótica e Inteligência Artificial (IA).
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Na categoria principal, o RobôCIn se consolidou como a única equipe brasileira na disputa, enfrentando diretamente competidores da Alemanha, China e Japão. O desempenho supera a edição anterior, quando o time ficou em terceiro lugar na mesma divisão.
Como funciona o futebol de robôs autônomos
Na divisão Small Size League (SSL), pequenos robôs jogam de forma totalmente autônoma. Para colocar as máquinas em campo, o custo médio por unidade varia entre R$ 15 mil e R$ 30 mil. Já na categoria de Robôs Humanoides, na qual a equipe estreou após apenas um ano de preparação, os robôs possuem corpo e sentidos semelhantes aos humanos.
Nessa modalidade avançada, o valor de um único modelo de competição internacional pode oscilar de R$ 80 mil a mais de R$ 250 mil. O desenvolvimento dos humanoides é considerado o maior desafio tecnológico atual devido à complexidade mecânica e de programação.
Enquanto os robôs da SSL operam com estabilidade sobre rodas e utilizam câmeras externas suspensas acima do campo, os modelos humanoides utilizam visão egocêntrica, com câmeras instaladas na própria cabeça, dependem de equilíbrio dinâmico para andar e precisam coordenar mais de 20 graus de liberdade nas articulações.
Investimento privado e financiamento coletivo
Para viabilizar a ida da delegação até a Coreia do Sul, a equipe utilizou um modelo híbrido de financiamento. O CIn-UFPE cobriu as passagens e as despesas principais dos membros oficiais. Por outro lado, o envio da equipe de suporte técnico e os custos logísticos adicionais foram financiados por meio de uma campanha de financiamento coletivo (vaquinha) no site Catarse, que arrecadou R$ 50 mil.

O projeto do RobôCIn também conta com o patrocínio formal de grandes empresas nacionais e internacionais para a manutenção dos robôs. Entre as marcas apoiadoras estão a Baterias Moura, o Instituto de Tecnologia Edson Mororó Moura (ITEMM), Microsoft e Incognia, além do fornecimento de insumos tecnológicos pela STMicroelectronics e licenças de softwares pela MathWorks.
Tecnologia de IA aplicada ao mercado real
Criado em 2015 com 12 estudantes e dois professores, o RobôCIn completou 10 anos de atividades com dezenas de integrantes atuais e acumula mais de 15 premiações. O conhecimento desenvolvido nas competições já migra para soluções comerciais no mercado.
O domínio sobre sistemas embarcados de baixa latência e controle de motores, refinados para os torneios, resultou recentemente no desenvolvimento de protótipos de robôs autônomos voltados à manutenção e limpeza solar.
A coordenadora da equipe, professora Edna Barros, detalha a estratégia de reaproveitamento de softwares e algoritmos entre as diferentes categorias de robôs da universidade.
“Com a crescente inserção de humanoides no cenário mundial e na RoboCup montamos uma equipe para pesquisa de desenvolvimento nesta área da Robótica, mas várias técnicas desenvolvidas para navegação e planejamento de trajetórias de robôs com rodas podem ser adaptadas para robôs humanoides. Também as técnicas desenvolvidas de agentes inteligentes para Simulação 2D podem servir de base para humanoides”, explica Edna.
Formação de novos talentos nas universidades
A pesquisadora aponta ainda que expandir o escopo da equipe abre portas para criar patentes e soluções aplicadas à indústria do Nordeste e do mundo. “Para o RobôCIn a inclusão de humanoides na nossa área de atuação representa um desafio, mas também uma oportunidade de desenvolver tecnologia e inovação para várias áreas de aplicação tais como logística, resgate, atuação em ambientes inóspitos e perigosos para os seres humanos”, acrescenta a professora.
A professora ressalta que o resultado obtido na Coreia do Sul coloca o ecossistema acadêmico brasileiro em evidência global. “Essas áreas estão entrelaçadas e vão fazer parte da nossa vida. A melhor maneira de lidar com essa tecnologia é investindo na formação de talentos nas universidades, que podem transformar tudo”, reforça a coordenadora, lembrando que muitos alunos passaram pelo projeto na última década.
O aprendizado na maior competição do mundo
A experiência internacional impactou os estudantes que participaram da rotina de testes e partidas na Coreia do Sul. O integrante da equipe Heitor Cordeiro relata o aprendizado na competição.

“Presenciar um campeonato a nível internacional foi surpreendente e fascinante. Estar em meio a outras equipes, desenvolvedores e pesquisadores me inspirou a continuar inovando na robótica. Além disso, significou muito ter a oportunidade de honrar o trabalho dos veteranos que participaram da construção do RobôCin”, avalia o estudante.
O Centro de Informática da UFPE atua há cinco décadas no ensino e pesquisa em Computação na América Latina, registrando nota máxima (7) na avaliação da Capes em sua pós-graduação e classificação entre os cinco melhores do país pelo Ranking Universitário Folha (RUF) 2025.
O centro recebe anualmente 350 novos alunos em quatro graduações, incluindo a de Inteligência Artificial, e mantém parcerias estratégicas com mais de 40 empresas nacionais e internacionais.
Driele Pires, integrante do RobôCIn, detalha os componentes rigorosos exigidos para manter os robôs competitivos diante dos rivais estrangeiros.
“Seus componentes mais complexos incluem sensores inerciais (IMUs) de alta precisão, servomotores de alto torque e placas de embarcada robustas (como a linha NVIDIA Jetson)”, afirma ao explicar a disparidade de custos e a necessidade de equipamentos industriais de ponta para a correção de movimentos e quedas em tempo real.
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