
Uma figura digital que não existe no mundo real está sacudindo o debate político brasileiro nas redes sociais. Dona Maria, um avatar de IA que representa uma mulher idosa e negra, tornou-se um fenômeno de audiência ao publicar vídeos com críticas ácidas ao presidente Lula e a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Com um estilo direto e, muitas vezes, agressivo, a personagem já acumula milhões de visualizações no Instagram, rede na qual já superou o 720 mil seguidores.
O impacto da personagem é mensurável. Um levantamento realizado pela startup Zeeng aponta que o engajamento de Dona Maria no Instagram é comparável ao de políticos tradicionais de direita.
Em média, a personagem alcança 22,5 mil interações por postagem, superando nomes conhecidos como o ex-governador Ronaldo Caiado. A análise revela que o público reage à personagem como se ela fosse uma pessoa real, ignorando sua origem sintética.
O algoritmo da revolta e o sucesso dos vídeos
O criador por trás da personagem é Daniel Cristiano dos Santos, de 37 anos, um motorista de aplicativo que reside em Magé, no Rio de Janeiro. Em entrevista à BBC Brasil, Daniel explicou que a agressividade da personagem é uma estratégia deliberada para vencer as barreiras dos algoritmos das redes sociais.
Segundo ele, conteúdos que geram indignação são os que mais circulam e recebem entregas das plataformas. Daniel detalha que aprendeu a manipular a dinâmica das redes por conta própria.
“Assuntos que geram revolta social, o algoritmo entrega. Crítica a internet entrega. Se fizer vídeo falando muito a verdade, mas sem aquele toque apimentado, não entrega. Não adianta. O brasileiro está acostumado a ver desgraça na internet”, afirmou o criador na entrevista, justificando o tom “apimentado” da personagem.
Produção de baixo custo e tecnologia acessível
A criação de um vídeo da Dona Maria custa pouco e exige ferramentas que atualmente estão ao alcance de qualquer usuário. Daniel utiliza o Gemini, a inteligência artificial do Google, e plataformas como o Flow para gerar as sequências de imagens e áudio.
Ele estima um gasto de cerca de R$ 20 por vídeo em créditos de processamento, o que demonstra como a barreira financeira para a produção de propaganda política caiu drasticamente.
Além do baixo custo, a IA oferece o benefício do anonimato. O motorista conta que sempre teve receio de expor o próprio rosto para falar de temas sensíveis como política e economia. “Por meio da IA você consegue passar um pouco a revolta que sente, o que acontece com o brasileiro. Hoje muitas pessoas me procuram para fazer vídeos porque elas têm receio de gravar”, relatou.
Impactos e riscos no cenário eleitoral
Para especialistas, o caso de Dona Maria é um prenúncio dos desafios que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) enfrentará em 2026. O cientista político Hilton Fernandes observa que o formato produz uma conexão emocional forte com o espectador, mesmo quando se sabe que a voz é gerada por uma máquina. O uso de IA permite que candidaturas com poucos recursos criem conteúdos de alta qualidade técnica para atacar adversários.
Fernandes alerta para o que chama de “campanha de submundo”, onde a tecnologia é usada para disseminar ataques sem que seja possível rastrear a origem ou o financiamento. “A inteligência artificial vai fazer muita diferença agora pra candidaturas menores, que têm menos recursos, vai ser muito mais barato. É muito mais barato produzir o texto, a arte, o vídeo”, avaliou o professor à BBC Brasil.
A linha tênue da liberdade de expressão
Embora o criador de Dona Maria afirme que não tem candidatos e que a página serve apenas para complementar sua renda, ele admite que, se precisasse escolher, faria campanha para Flávio Bolsonaro.
Ele também reconhece que já cometeu erros factuais em seus vídeos. “Quando eu faço algum vídeo que não é verídico, eu me nem retrato, eu apago o vídeo. Já aconteceu duas vezes. É um erro meu”, confessou Daniel.
Juristas apontam que perfis como esse operam em uma “zona cinzenta” da lei. Criticar o governo ou instituições faz parte da liberdade de expressão, mas a automatização desse discurso e o uso de avatares para fugir da responsabilidade podem configurar abusos.
O grande desafio das autoridades, apontam, será diferenciar a opinião espontânea do cidadão da manipulação coordenada por meio de inteligências artificiais.
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