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Deputados buscam fugir dos tribunais, mas são julgados pelas redes sociais

Deputados que apoiaram a PEC da Blindagem enfrentam forte reação no tribunal das redes sociais e três nordestinos já pediram desculpas
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Manifestações, com engajamento de artistas nas redes sociais, ocorrerão em várias cidades neste domingo, em protestp contra a PEC da Blindagem e da anistia Foto: Reprodução redes sociais
Manifestações, com engajamento de artistas nas redes sociais, ocorrerão em várias cidades neste domingo, em protestp contra a PEC da Blindagem e da anistia Foto: Reprodução redes sociais

Uma postagem no Instagram, na noite da última quarta-feira (17), chamou a atenção em meio à mais forte reação contra o Parlamento brasileiro no período da redemocratização. Em um vídeo de 46 segundos, o cantor e compositor Caetano Veloso, um dos maiores artistas do Brasil, atacou a PEC da Blindagem, aprovada no dia anterior na calada da noite pela Câmara dos Deputados, numa grande articulação que envolveu centrão, bolsonaristas e partidos da base do presidente Lula.

A reação à aprovação da proposta nas redes sociais foi como um rastilho de pólvora. Se os deputados buscaram, com a aprovação da matéria, escapar das garras do Supremo Tribunal Federal (STF), encontraram um adversário muito mais duro, o tribunal das redes sociais, em que o acusado é julgado e condenado em segundos e a defesa, quando vem, é pouco efetiva.

O movimento cresceu e saiu dos limites das redes sociais e ganhará as ruas neste domingo (21) em pelo menos 40 cidades brasileiras, num movimento para cobrar do Senado a rejeição da PEC da Blindagem e pressionar a Câmara a não aprovar a anistia aos envolvidos nos atos golpistas de 8 de janeiro.

 A maior delas, no Posto 5 de Copacabana, no Rio de Janeiro, reunirá um elenco estelar. Além de Caetano, estarão Gilberto Gil, Chico Buarque, Djavan, Maria Gadu, Marina Sena, entre outros. Em Salvador, quem vai comandar o ato é a cantora Daniela Mercury. Em São Paulo, o pagodeiro Salgadinho, um dos cantores mais ativos em defesa do Governo Lula nas redes sociais, vai conduzir a manifestação, que contará também com Marina Lima, Otto e Jota PÊ..  

Na postagem, que até a noite deste sábado (20) já havia recebido 30,9 mil comentários e 21,3 mil compartilhamentos apenas no Instagram, Caetano Veloso se refere à proposta como “PEC da bandidagem”, alcunha que se tornou popular nas redes sociais pelo fato de dificultar a investigação contra parlamentares.

“A PEC da bandidagem, que é o que é: PEC da bandidagem, tem que receber da sociedade brasileira uma resposta saudável, socialmente saudável, uma manifestação de que grande parte da população brasileira não admite um negócio desse. Ainda mais sendo agora às pressas. Levado à frente esse projeto de anistia, não pode ficar sem resposta por parte da população brasileira. A gente tem que ir pra rua, pra frente do Congresso, como já fomos outras vezes. Voltar a dizer que não admitimos isso como povo, como nação… Não admitimos.”

O posicionamento do cantor foi seguido por outros artistas, que fizeram questão de ir às redes condenar não só a aprovação da PEC, como também a decisão, também da Câmara dos Deputados, de permitir que a anistia aos envolvidos nos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023 tramite em regime de urgência. Destaque para os vídeos da cantora Anitta e uma bem-humorada e certeira crítica aos parlamentares feita pela atriz Irene Ravache.

Críticas à PEC nas redes

Uma mostra do tamanho que o movimento contra a aprovação da PEC da Blindagem conquistou pode ser medido por um levantamento da Consultoria Bites. De acordo com o levantamento, desde que o texto foi anunciado, na última terça-feira (16) até a última sexta-feira (19), o presidente da Câmara, Hugo Motta, foi alvo de 320 mil citações nas redes, a maior parte negativas, feitas por 54,4 mil autores diferentes. Segundo o levantamento, apenas na rede social X (antigo Twitter) foram 315 mil menções, número superior ao registrado em episódios como o motim bolsonarista de 6 de agosto e a aprovação do aumento de vagas de deputados em 3 de julho.

A repercussão acuou os parlamentares. Afirmando estarem arrependidos, eles foram às redes. Dos 151  deputados federais do Nordeste, 105 foram favoráveis à PEC da Blindagem e outros 35 se posicionaram contra. Outros 11 estavam ausentes na votação.

Região em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva teve a sua maior vitória, os políticos que votaram sim à matéria foram bombardeados nas redes sociais. Três deles se retrataram publicamente e admitiram terem errado na opção.

Recuo dos deputados

O caso que ganhou maior destaque foi o do pernambucano Pedro Campos, líder do PSB na Casa. Dois dias após a votação, ele declarou que seguiu a maioria da bancada na tentativa de impedir que uma anistia avançasse e que projetos do governo federal, como a tarifa social de energia e a reforma do Imposto de Renda, fossem bloqueados.

No vídeo de pouco mais de três minutos, acrescentou que a votação representou “uma escolha difícil entre não discutir a PEC e correr o risco de a anistia passar ou discutir a proposta para tentar retirar seus maiores absurdos e buscar uma saída”. “Tenho a humildade de reconhecer que não escolhemos o melhor caminho e saímos derrotados na votação da PEC e na votação da anistia”, disse.

O deputado Pedro Campos afirmou, ainda, que ingressou com um mandado de segurança no Supremo Tribunal Federal (STF) pedindo a anulação da aprovação, que considerou ter ocorrido mediante manobras regimentais.

Já o deputado Merlong Solano (PT-PI) afirmou que sua posição foi resultado de “uma decisão difícil, fruto de escolhas políticas que encerram renúncias e sacrifícios”, com o objetivo de preservar o diálogo da bancada do PT com a presidência da Câmara.

Por fim, o deputado Thiago de Joaldo (PP-SE) avaliou que “a Câmara errou ao aprovar a PEC” e reconheceu que “o remédio pode ter sido pior que a doença”. Ele pediu desculpas e se comprometeu a trabalhar para reverter os efeitos da medida, inclusive atuando para que a proposta não avance no Senado.

As manifestações deste domingo (21) terão duas pautas claras: que o Senado derrube a PEC da Blindagem e, também, pressionar a Câmara dos Deputados para que não aprove qualquer anistia ou qualquer alternativa que reduza as penas dos envolvidos o 8 de janeiro, como projeto da dosimetria, que vem sendo articulado.

Uma movimentação forte pode sepultar as propostas. Uma manifestação fraca, essas articulações ganham força e é possível que as matérias avancem.

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