
A guerra comercial iniciada entre EUA e Brasil vem suscitando muitos comentários – alguns claramente com muita defesa ou ataque de viés político e/ou ideológico. Minha intenção aqui é trazer um olhar mais frio e isento da situação. Com foco sobretudo em Pernambuco, pois, se muito tem sido analisado sobre os possíveis impactos no Brasil e no Nordeste, pouco é falado sobre o nosso Estado especificamente.
Ao analisar o fluxo comercial pernambucano com os EUA, vemos que importamos quase 14 vezes mais do que exportamos, portanto, o impacto na nossa economia parece ser pequeno. Porém é preciso analisar quais mercados pernambucanos representam os 54 milhões de dólares que exportamos no primeiro semestre de 2025.
Em termos de valor temos (com base no NCM ou SH) açúcar, chapas ou folhas de plástico, Produtos derivados do petróleo, frutas, embarcações, peixes, tubérculos e suas farinhas, e pias ou lavatórios de cerâmica. Acrescento empresas de outros mercados que sofrerão indiretamente, como é o caso da carne. O mercado americano não é nosso maior mercado de destino, mas, com o bom acordo feito pela Argentina, os EUA já estão aumentando o volume de compra da carne originária desse país, pois vai chegar mais barata lá. Assim, outros Estados do Brasil que exportam carne para os EUA precisarão escoar a carne internamente ou para outros mercados internacionais, o que fará com que as empresas faturem menos ou a um preço menor.
Embora a previsão da implantação do tarifaço de Trump tenha sido adiada em 7 dias, as cargas previstas para embarcar em meados de Julho já vão sofrer impactos, pois deveriam chegar nos Estados Unidos só em agosto. Portanto, estão errados os economistas que disseram ser apenas uma bravata a ação norte americana, ou previram que não acontecerá de fato, ou ainda que o presidente retrocederá, pois na prática já está causando impacto. Acontecendo ou não, já está nos prejudicando…
Ainda foi dito que será um tiro no pé para os americanos também. O café, as frutas, a carne ficarão mais caros para eles. Será, porém, que a oferta destes produtos é exclusividade do Brasil? Eles não consomem também de outros países? E serão obrigados a continuar comprando o produto, agora caro, do Brasil? Na minha prática de 25 anos de logística, o bom comprador tem pelo menos 3 fornecedores. Se o A falhar, aumenta-se o volume de compra com o B e com o C. Sim, o B e o C devem ser mais caros que o Brasil (senão eles seriam o A), mas certamente não são 50% mais caros, como passaremos a ser. Ou seja, haverá impacto para os norte-americanos, mas pequeno em relação ao que está sendo argumentado, ou ainda, será temporário até novos contratos entrarem em vigor com novos fornecedores.
Poderíamos, com o mesmo raciocínio, perguntar: o Brasil, que tem os EUA como cliente A, não poderia agora passar a aumentar a venda para o B e para o C, compensando a perda? Respondo com o mesmo argumento da logística: se fosse assim tão fácil a mudança, por que não temos já uma venda para o B e o C com o mesmo volume? Será que é porque falta produção nossa? Obviamente não. Ou é porque esses destinos não têm a mesma demanda ou existem, simplesmente, cotas (restrições de quantidade à entrada do nosso produto no país). A substituição pode parecer banal, mas tenho certeza de que nenhum dos defensores desta mudança “simples” já tentou na prática buscar novos compradores de produtos em um mercado internacional.
Para nós, defensores de um maior liberalismo, toda e qualquer intervenção do Estado tende a ser ruim, portanto não apoio a situação atual, mas ressalto que todos os posicionamentos acima parecem infelizmente ser pura militância ideológica ou política. Lembro que, em média, o nosso atual processo de importação, no Brasil encarece em mais de 80% qualquer produto importado, em função da carga tributária brasileira. E não pensem que com a reforma tributária isso vai diminuir; vai ser apenas mais fácil de calcular ou de explicar, mas será ou tão cara ou ainda mais cara.
A única via que ainda temos é a da diplomacia, da negociação, caso a caso, produto a produto. Negociação essa que deve ser feita pela tão reconhecida escola diplomática brasileira, hoje, no entanto, tão calada e diminuída. Essa negociação também pode ser feita pelo próprio empresariado brasileiro, que não pode depender do Estado e do olhar político ou ideológico. Não dá para esperar e pagar para ver!
*Gustavo Delgado é Consultor de comércio exterior de internacionalização de empresas, Diretor de OCCA, Diretor de inovação da ABDAEX, Coordenador de MBA em Comércio exterior, Coordenador dos cursos de Gestão da UNIFBV e Mestre em Economia
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