Escola de Sargentos do Exército: Governança, sustentabilidade e legados, por Nilton Moreno

"O Exército Brasileiro está adotando as melhores práticas de sustentabilidade, gestão ambiental e governança no planejamento dos aspectos construtivos desse complexo escolar".
General Nilton Moreno
General Nilton Moreno

Por Nilton Moreno*

A construção da Escola de Sargentos do Exército está inserida como um subprograma componente do Programa Estratégico de Educação e Cultura do Exército Brasileiro, caracterizado como um empreendimento de caráter militar de interesse para a formação e o preparo de parte expressiva da Força Terrestre: os sargentos. O horizonte temporal da construção alcançará 2034, ano de sua inauguração, possibilitando a implementação de inúmeras ações estratégicas também voltadas à melhoria das condições sociais e econômicas do entorno da área onde será ativada a escola.

O empreendimento será desenvolvido no Campo de Instrução Marechal Cavalcanti de Albuquerque, conhecido pela abreviatura CIMNC, incluído na área territorial do município de Abreu e Lima, em Pernambuco. Pela proximidade, prevê-se como impactadas, em uma primeira análise, as cidades de Paudalho, Carpina, Araçoiaba, Camaragibe e São Lourenço da Mata.

A Região Metropolitana do Recife possui diferentes vocações econômicas. Na sua porção norte, destacam-se a indústria automobilística, o conjunto de instalações fármaco-químicas e as empresas de bebidas. Ao sul, podem ser citados o Complexo Portuário do Suape e a indústria do turismo. O próprio núcleo principal da região metropolitana, a Capital dos Altos Coqueiros, possui direcionamentos bem definidos, como as atividades de comércio, serviços, turismo e logística. O Porto Digital, CHESF, Moura Dubeux Engenharia, além de cerca de 148 mil microempresas, se destacam em Recife, dentre outras.

A futura Escola estará localizada no que, comumente, se conhece como “Oeste da Região Metropolitana do Recife”. Segundo Sheilla Pincovsk, da Agência Estadual de Planejamento e Pesquisa de Pernambuco (CONDEPE/ FIDEN), os dados econômicos dos seis municípios, a serem diretamente impactados pelo complexo escolar, abrangem um universo populacional de cerca de 510 mil habitantes; PIB per capita variando de R$ 8 a 20 mil (do mais baixo, Araçoiaba, ao mais alto, Carpina); número de empregos formais abrangendo os parâmetros de 1.538, em Araçoiaba, ao registrado de 14 mil, em Camaragibe. Ao compararmos tais dados com os do Recife, com base nos últimos dados do IBGE, teremos: população de 1.488.920 habitantes; PIB per capita de R$ 30.427 e empregos formais de cerca de 716 mil pessoas. Fica aqui um primeiro questionamento: qual a vocação econômica da porção oeste dessa região?

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Tânia Bacelar, consultora da FECOMÉRCIO, ressalta que um projeto dessa dimensão requer um modelo de governança colaborativa que envolva as diversas instituições governamentais, aquelas representativas de todos os segmentos e as populações afetadas. Inserida nessa compreensão, é mister recordar que o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), em sua 6ª edição do código próprio, de 2023, define tal conceito como “um sistema formado por princípios, regras, estruturas e processos pelo qual as organizações são dirigidas e monitoradas, com vistas à geração de valor sustentável para a organização, para seus sócios e para a sociedade em geral”.

No início do processo eletivo da cidade que receberia a Escola, em 2020, o Comando Militar do Nordeste recebeu e transmitiu ao Comando do Exército Brasileiro, cartas compromisso de apoio à vinda do empreendimento de 15 diferentes instituições do setor público, empresarial, acadêmico. Nos dias de hoje, cerca de 60 instituições já receberam informações detalhadas, apoiam diretamente e indiretamente o empreendimento, citando-se, por importante, os poderes municipais e legislativos das seis cidades aqui relacionadas como diretamente impactadas.

Olhemos para dois outros conceitos: sustentabilidade e partes interessadas, conhecidas, na língua inglesa, com stakeholders. O compêndio denominado Nosso Futuro Comum, da Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento da Organização das Nações Unidas (ONU), 2ª edição, define de maneira muito prática os limites do desenvolvimento sustentável, como “aquele que atende às necessidades do presente, sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem as suas próprias necessidades”.

O termo “partes interessadas” possui várias definições, que podem ser aqui utilizadas: “qualquer grupo ou indivíduo que é afetado por um negócio organizacional” (Freeman, R); “pessoas ou grupos que as empresas dependem para atingir suas metas” (Whittington, Richard) ou “grupos ou indivíduos que fornecem recursos críticos ou colocam algo de valor em risco” (Bourne, Lynda).  

Não há dúvidas de que o patrocinador do empreendimento, o Exército Brasileiro, por meio do principal gestor do subprograma, o Departamento de Educação e Cultura (DECEx), bem como as demais estruturas internas, está adotando as melhores práticas de sustentabilidade, gestão ambiental e governança no planejamento dos aspectos construtivos desse complexo escolar.

O Governo do Estado de Pernambuco é o principal parceiro estratégico do empreendimento, motivo pelo qual, em 2022, foi firmado um Acordo de Cooperação que abrange 17 contrapartidas de obras estruturantes e que serão entregues antes do início da construção da Escola. Consciente de seu estratégico papel, o Executivo estadual ativou um grupo de trabalho específico da Escola, coordenado pela Secretária de Meio Ambiente, Sustentabilidade e Fernando de Noronha e que vem interagindo com a Sociedade Pernambucana e monitorando as contrapartidas.

A Assembleia Legislativa de Pernambuco, mantendo o inconteste apoio declarado na época da candidatura de Recife, desdobrou uma Frente Parlamentar de Apoio à Escola, já tendo, inclusive, visitado o CIMNC, para entender, com profundidade, a região onde o complexo será ativado.

A Academia, por meio de suas referências presentes no Nordeste, coopera de maneira muito proativa, citando-se aqui a participação de 34 professores doutores de 8 universidades em um Simpósio de Sustentabilidade, desenvolvido em novembro de 2022, que discutiu aspectos do tema em projetos de arquitetura, acreditações e certificações, modelagem de informação da construção (BIM) e constrói, integrada aos profissionais da Diretoria de Patrimônio Imobiliário e Meio Ambiente (DPIMA) do Exército, possíveis soluções inovadoras de compensação ambiental para a construção da Escola.

As Federações do Comércio e das Indústrias de Pernambuco e de todo o Nordeste, com seus Sistemas S, referências em competente preparação de recursos humanos,  tem um papel relevantíssimo na preparação da mão de obra que será utilizada na construção da escola, prevendo-se, hoje, cerca de 11.000 empregos diretos e 17 mil indiretos.

Pernambuco tem capital intelectual, expertise e lições aprendidas, em empreendimentos vultosos, citando-se Stellantis, em Goiana; Porto Suape, em Cabo de Santo Agostinho e o Porto Digital, em Recife, que devem ser estudados, analisados e, então, agregadas as melhores práticas.

E as comunidades de Chã de Cruz, Mussurepe, Chã de Conselho e os municípios circunvizinhos do complexo escolar: qual o papel que lhes compete nessa preparação?

O desafio para todos os stakeholders envolvidos será discutir de que forma a lógica inédita e sustentável de um complexo escolar de referência no País possa ser repetida no seu entorno, sugerindo-se o início, desde já, do planejamento da implantação de uma vocação econômica diferenciada para o oeste da Região Metropolitana do Recife.

Que venha a Escola de Sargentos do Exército!

*Nilton Moreno é General de Brigada da Reserva Remunerada e Assessor de Gestão de Projetos Estratégicos do Comando Militar do Nordeste

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