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Do Troller ao Spark, Ceará acelera volta ao clube automotivo brasileiro

Com investimento de R$ 7 bilhões, GM anuncia produção dos elétricos Spark EUV e Captiva no Ceará, marcando a volta do estado à indústria automotiva nacional
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Montagem Ford Troller e GM Spark montadoras veículos Ceará
Troller foi fabricado na cidade de Horizonte de 1995 a 2021, quando a marca já era da Ford. Agora a mesma cidade vai montar o Spark da GM com peças fabricadas na China. Arte feita com fotos da Ford e GM/Divulgação

No dia 28 de setembro de 2021, a Ford encerrava a produção do jipe Troller na fábrica de Horizonte, no Ceará, cidade distante aproximadamente 40 quilômetros de Fortaleza. Era o fim de um sonho automotivo que teve início em 1995, com a fundação da Troller pelo empresário Rogério Farias. O negócio foi logo adquirido, em 1997, por Mário Araripe, que vinha dos setores têxtil e de construção civil e conduziu a empresa rumo à consolidação nacional, antes de se tornar o maior bilionário nordestino à frente da Casa dos Ventos, que atua nos setores de energia eólica e de hidrogênio verde e, mais recentemente, com data centers.

Exatos quatro anos depois, o Ceará teve confirmada sua volta ao clube dos estados brasileiros com montadoras de automóveis — um grupo hoje enxuto no Nordeste, que inclui a Stellantis em Goiana (PE) e a BYD em Camaçari (BA). O polo de Horizonte será a primeira base fabril da GM no Brasil voltada exclusivamente à montagem de veículos elétricos.

O anúncio da General Motors no dia 8 de setembro confirmou um investimento de R$ 7 bilhões para a produção de dois modelos 100% elétricos na planta de Horizonte: o Chevrolet Spark EUV e a nova geração da Captiva EV. Ambos serão montados em regime SKD (Semi Knock-Down) — formato que prevê a importação parcial de componentes para montagem local.

GM Spark que será fabricado no Ceará
O GM Spark é um  SUV 100% elétrico, voltado para a mobilidade urbana, com autonomia de até 258 quilômetros por carga. Foto: GM/Divulgação

Do fora de estrada ao carro urbano e elétrico: o giro de 180 graus do Ceará

O contraste com o passado é revelador. O que antes era um jipe robusto, moldado em fibra e com DNA off-road, agora dá lugar a dois modelos conectados à agenda global de mobilidade urbana e descarbonização. O Spark, compacto, urbano e elétrico. A Captiva, SUV familiar com plataforma asiática e mais de 400 km de autonomia. O chão de fábrica é o mesmo — mas o mercado, a tecnologia e a estratégia são outros.

A produção será feita inicialmente em regime SKD, com nacionalização progressiva de peças e sistemas a partir de 2026. A estrutura herdada da antiga Troller está passando por modernização técnica para atender aos padrões de montagem elétrica, com rastreabilidade digital, segurança e linhas adaptadas para plataformas modulares.

Segundo a GM, a operação em Horizonte integra sua estratégia de eletrificação na América Latina e poderá futuramente abastecer também mercados da região.

Nova fase: fábrica será polo automotivo multimarca

A reativação da planta foi viabilizada por meio de parceria entre a General Motors, o Governo do Ceará e o grupo Comexport. A proposta vai além da montagem de veículos da GM: transformar Horizonte em um polo automotivo multimarca, aberto a novos projetos, inclusive de startups e operações por encomenda.

A estrutura contará com incentivos do Programa de Desenvolvimento Industrial (Provin), integração logística com o Porto do Pecém e apoio técnico da Secretaria do Desenvolvimento Econômico. A previsão inicial é de geração de 300 empregos diretos, podendo dobrar com a expansão da linha de montagem e a chegada de novos parceiros.

Produção confirmada de Spark EUV e Captiva EV

Os dois modelos anunciados marcam o retorno do Ceará ao setor automotivo com foco no futuro. O Chevrolet Spark EUV será o primeiro a sair da linha de montagem. Trata-se de um compacto urbano 100% elétrico, com visual atualizado, autonomia urbana de até 258 quilômetros por carga e conectividade embarcada. O modelo já está em pré-venda no país por R$ 159.990.

Na sequência, será produzida a nova Captiva EV, SUV elétrico desenvolvido pela joint venture SAIC-GM-Wuling, na China, e adaptado para o mercado brasileiro. A versão nacional terá autonomia estimada em mais de 400 km e pacote tecnológico compatível com veículos do segmento premium.

Ambos os modelos serão montados com peças vindas da Ásia, com montagem final em Horizonte, sob operação da Comexport com validação da GM. A montagem local deve contribuir para redução de preços, geração de empregos e consolidação do polo cearense como base da eletrificação no Brasil.

antiga fábrica da Troller na cidade de Horizonte no Ceará
Polo Automotivo do Ceará vai funcionar na antiga fábrica da Troller, na cidade de Horizonte. Foto: Divulgação

Geopolítica industrial e o novo mapa da eletrificação

O investimento da GM no Ceará insere o estado em uma nova lógica produtiva. Se antes as fábricas buscavam verticalização e produção completa, agora o foco está em hubs de montagem conectados a cadeias asiáticas de fornecimento e plataformas globais.

O Porto do Pecém, com operação integrada à ZPE (Zona de Processamento de Exportação), viabiliza logística competitiva para importação de peças e eventual exportação de veículos acabados. A reindustrialização passa, agora, pela lógica da interdependência: produção enxuta, montagem ágil, distribuição flexível.

jipe Troller fabricado no Ceará
O Troller tinha fama de ser um jipe robusto, moldado em fibra e com DNA off-road. Foto: Ford/Divulgação

O ciclo da Troller: fundação, consolidação e transição

A Troller foi fundada no Ceará em 1995 pelo empresário Rogério Farias, mas o negócio foi adquirido em 1997 por Mário Araripe, que expandiu a empresa a partir de sua experiência nos setores têxtil e da construção civil.

O modelo mais emblemático da marca, o Troller T4, foi apresentado em 1999 com motor a gasolina de origem Volkswagen, utilizado até 2001, quando passou a contar com motorização diesel e reposicionamento para o mercado off-road.

Em 2007, a Troller foi adquirida pela Ford por cerca de R$ 400 milhões, numa aposta da montadora norte-americana para diversificar seu portfólio no país. A operação foi encerrada em 2021, como parte da decisão global da Ford de deixar de fabricar veículos no Brasil.

Após o fechamento, a planta permaneceu ociosa por três anos. Nesse intervalo, engenheiros ligados à antiga Troller criaram a startup Adventures Off Road, que desenvolveu o Guepardo, um 4×4 com inspiração técnica e conceitual no T4 original, voltado ao nicho fora de estrada.

O reinício das atividades em Horizonte, agora sob outra lógica produtiva e com modelos elétricos, marca o fim de um ciclo e o início de outro, conectado aos novos caminhos da indústria global.

Produção automotiva no Ceará e no Nordeste

Com a operação da GM, o Ceará volta ao mapa automotivo com foco em veículos elétricos e regimes produtivos integrados. A meta é atingir até 3 mil unidades anuais na primeira fase, somando Spark e Captiva, com expansão prevista conforme o avanço da nacionalização.

O polo de Goiana (PE), da Stellantis, segue como o maior da região, voltado à combustão. Já a BYD, na Bahia, prepara o início da produção local de veículos híbridos e elétricos em Camaçari ainda neste segundo semestre.

O cenário automotivo nordestino passa por uma reconfiguração: da produção clássica à montagem elétrica modular — com o Ceará acelerando no centro dessa nova rota.

Leia mais: Chevrolet Spark: GM produzirá SUV elétrico chinês no Ceará ainda em 2025

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