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Órgão da ONU adia taxa para navios e afeta avanço do NE na transição verde

A decisão da Organização Marítima Internacional de adiar a taxa de carbono para navios freia investimentos em combustíveis limpos e afeta o papel estratégico do Nordeste na transição verde marítim
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Inpeção de combustível naval bunker realizado pela Inspe Serviços Marítimos navios
Proposta adiada previa que navios mais eficientes ou movidos a combustíveis de baixo carbono seriam compensados. Foto: Inspe/Reprodução

A Organização Marítima Internacional (IMO, na sigla em inglês), órgão da ONU responsável por regular o transporte marítimo global, decidiu adiar em um ano a votação sobre a criação de um sistema internacional de precificação de carbono para o setor. O recuo ocorreu após pressão dos Estados Unidos e de países exportadores de petróleo, como Arábia Saudita e Rússia, durante reunião realizada na sexta-feira (17), em Londres. O adiamento amplia as incertezas regulatórias no setor e afeta diretamente o potencial do Brasil na cadeia global de combustíveis limpos.

Com a retirada da proposta da pauta de 2025, deixam de avançar também os incentivos ao uso de combustíveis alternativos como biodiesel, etanol, amônia verde, metanol e bio-LNG, cuja demanda esperada sustentava investimentos relevantes no Brasil. A ausência de uma regulação clara também reduz o apetite do mercado por motores híbridos, retrofit de embarcações e sistemas de captura de carbono, que demandam sinalização firme para ganhar escala.

Um estudo da consultoria Boston Consulting Group aponta que o Brasil pode se tornar um dos principais produtores mundiais de combustíveis de baixa emissão, com capacidade para atrair entre US$ 2,6 trilhões e US$ 3 trilhões em investimentos até 2050.

Esse potencial se apoia na abundância de biomassa, na possibilidade de recuperação de pastagens degradadas e na infraestrutura portuária em expansão — com destaque para a região Nordeste, que reúne condições climáticas, logísticas e territoriais favoráveis à consolidação de uma cadeia nacional de abastecimento marítimo sustentável.

Proposta previa taxa para navios mais poluentes

A proposta em discussão na IMO, chamada de Net-Zero Framework (NZF), estabelecia que embarcações com maior intensidade de emissões pagariam uma taxa, enquanto navios mais eficientes ou movidos a combustíveis de baixo carbono seriam compensados. A arrecadação global estimada com o sistema poderia chegar a US$ 15 bilhões por ano a partir de 2030, com os recursos destinados a financiar a transição energética no transporte marítimo.

Atualmente, o setor naval é responsável por cerca de 3% das emissões globais de gases de efeito estufa e movimenta aproximadamente 90% do comércio internacional, segundo dados da própria IMO.

A proposta de adiamento foi apresentada por Singapura e levada à votação pela Arábia Saudita. No total, 57 países votaram a favor da postergação, 49 se posicionaram contra e 21 se abstiveram. Com isso, a nova previsão é que a votação ocorra apenas em outubro de 2026.

A decisão gera incertezas no setor logístico e pode desacelerar projetos de modernização da frota mundial. Também afeta investimentos em tecnologias para redução de emissões e no desenvolvimento de cadeias de produção de combustíveis alternativos.

Brasil e Nordeste na rota dos combustíveis verdes

O Nordeste brasileiro é apontado por analistas como uma das regiões com maior capacidade de inserção na nova cadeia global de abastecimento marítimo com baixo carbono. A disponibilidade de biomassa, terras degradadas e infraestrutura portuária em expansão favorece o desenvolvimento de projetos em estados como Bahia, Ceará, Maranhão e Pernambuco.

A pesquisa da Boston Consulting Group, apresentada no Brazil Climate Summit de setembro de 2025, projeta que o Brasil pode atrair entre US$ 2,6 trilhões e US$ 3 trilhões em investimentos até 2050 no setor de combustíveis marítimos de baixa emissão. Parte significativa desse potencial depende da recuperação de até 25 milhões de hectares de pastagens degradadas, com benefícios combinados sobre biodiversidade, segurança alimentar e geração de energia limpa.

O estudo também aponta que os biocombustíveis brasileiros, como etanol e biodiesel, apresentam intensidade de carbono inferior às metas da IMO e podem ser utilizados com tecnologias já disponíveis, sem grandes adaptações em navios. Em portos brasileiros, o custo de abatimento de carbono gira entre US$ 205 e US$ 230 por tonelada, abaixo da penalidade prevista de US$ 380/tCO₂e.

Com acesso a rotas internacionais e obras de modernização em curso, portos como Itaqui (MA), Suape (PE), Pecém (CE) e Aratu (BA) são candidatos naturais a integrar futuros corredores verdes de exportação marítima, segundo a BCG.

O que é intensidade de carbono

O sistema da IMO se baseia no conceito de intensidade de carbono, que mede a quantidade de emissões por tonelada de carga transportada. Essa métrica é usada para calcular a eficiência ambiental de cada embarcação. O objetivo é penalizar navios mais poluentes e incentivar o uso de tecnologias limpas, como combustíveis alternativos e sistemas híbridos de propulsão.

Com o adiamento da votação, aumenta a possibilidade de a adoção formal do mecanismo ser postergada para além de 2027, o que pode comprometer as metas de descarbonização do setor estabelecidas no Acordo de Paris e nas diretrizes da própria IMO.

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