
Pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) desenvolveram um processo físico-químico integrado para recuperar óleo residual presente em cascalhos de perfuração à base de olefina, resíduo sólido gerado durante a exploração de poços de petróleo e gás. O Método de Recuperação de Óleo Residual a partir de Resíduos de Perfuração à Base de Olefina utiliza tensoativos não iônicos etoxilados em concentrações micelares combinados com etapas controladas de aquecimento e centrifugação para separar a fase oleosa dos resíduos de forma mais eficiente que os processos físicos e químicos convencionais. A tecnologia encontra-se em prova de conceito em escala laboratorial.
O processo foi desenvolvido no Laboratório de Tecnologia de Tensoativos (LTT), do Instituto de Química (IQ) da UFRN, sob orientação do professor associado Alcides de Oliveira Wanderley Neto, que também integra o Programa de Pós-Graduação em Engenharia Química (PPGEQ). A condução experimental ficou a cargo do pesquisador Murilo Miguel Alencar Guerra e a concepção físico-química foi desenvolvida pela pesquisadora Aeryslânnia Moreira da Nóbrega, integrantes de um grupo de nove inventores.
O diferencial operacional está em dois aspectos simultâneos: a ausência de solventes orgânicos tóxicos ou inflamáveis no processo e a possibilidade de preparar as misturas com agitação mecânica convencional, sem equipamentos especializados ou aditivos de alto custo. Segundo a pesquisadora Aeryslânnia Nóbrega, a eliminação de solventes tóxicos reduz riscos operacionais e impactos ambientais associados ao tratamento dos resíduos. Para Murilo Guerra, o método permite transformar um material que seria descartado em recurso com potencial de reintegração à cadeia produtiva.

Campos terrestres no NE geram resíduos sem rota definida
A pesquisa tem aplicação direta no perfil operacional do setor de petróleo e gás no Nordeste. Segundo dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), o Nordeste concentra cerca de 2.300 poços terrestres — equivalente a 41% dos poços onshore do país — nas bacias Potiguar, Recôncavo, Sergipe-Alagoas e Parnaíba, com produção de aproximadamente 100 mil barris diários de petróleo em 2025.
A predominância de campos maduros onshore amplia o volume de resíduos de perfuração gerados nas operações de manutenção e reativação de poços, segmento em expansão com o avanço de operadores independentes como 3R Potiguar, PetroRecôncavo e Origem Alagoas. No offshore, o Projeto Sergipe Águas Profundas (SEAP), com produção prevista para 2030 e capacidade de 120 mil barris por dia, ampliará o volume de cascalhos gerados na região.
Os cascalhos de perfuração são os principais resíduos sólidos das operações de exploração e produção, constituídos por fragmentos de rocha misturados com fluidos de perfuração — incluindo os fluidos de base olefínica, utilizados especialmente em poços de maior complexidade. Quando dispostos inadequadamente, esses resíduos geram contaminação do solo, poluição hídrica e emissão de gases.
A gestão desse passivo é objeto de marco regulatório específico: a Instrução Normativa nº 01/2018 do Ibama estabeleceu diretrizes para uso e descarte de fluidos de perfuração e cascalhos, norma que coexiste com a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), que enquadra o setor nas obrigações de responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos resíduos.

Aplicação industrial e próximos passos
O método pode ser aplicado tanto em plataformas offshore quanto em instalações terrestres, e também nas Unidades de Tratamento de Resíduos Industriais (UTRIs), onde contribuiria para a recuperação de óleo de alto valor agregado e para a redução do volume de resíduos destinados à disposição final.
A Petrobras informou em seu relatório de sustentabilidade que gerou 0,8 mil toneladas de cascalhos e fluidos de base não aquosa em 2024, com meta corporativa de destinar pelo menos 80% dos resíduos de processo para rotas de reúso, reciclagem e recuperação até 2030. O método da UFRN se enquadra nessa categoria de rotas alternativas ao descarte.
Como próximos passos, o grupo pretende avançar na otimização do processo e no escalonamento da tecnologia para volumes maiores, com condições operacionais mais próximas da realidade industrial. O prazo para conclusão dessas etapas não foi divulgado pela universidade.
*Com informações da UFRN
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