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Macaúba terá rastreabilidade digital de empresa europeia para virar SAF de avião

Com 90% da produção já vendida, Acelen certifica cadeia da macaúba com tecnologia europeia de blockchain para cumprir exigências regulatórias de combustível sustentável de aviação na Europa e nos EUA
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A implementação da rastreabilidade da macaúba começa nos 500 hectares já plantados no Recôncavo Baiano, com expansão prevista para 1.500 hectares ainda em 2026. Foto: Acelen/Reprodução

Com 90% da produção de combustível sustentável de aviação (SAF) já comercializada antecipadamente, a Acelen Renováveis contratou a startup europeia Finboot — fornecedora de rastreabilidade digital para grupos como Repsol, Sabic e Evonik — para certificar digitalmente toda a cadeia da macaúba cultivada no Recôncavo Baiano e habilitar o produto aos mercados regulados da Europa e dos Estados Unidos.

A ferramenta adotada, denominada MARCO Track & Trace, opera por blockchain e tokenização para garantir auditabilidade desde o plantio nas fazendas até a entrega do biocombustível. A parceria tem duração inicial de 12 meses e cobre modelagem das fases da cadeia produtiva com foco em elegibilidade da terra, produção nas fazendas, calculadora de emissões e critérios de sustentabilidade. Os dados gerados serão armazenados por até 50 anos, em conformidade com exigências de certificação internacional, e a base será alimentada mensalmente para permitir avaliação independente de cada lote de produção.

Em entrevista ao CNN Agro, Pedro Estrela, vice-presidente de novos negócios da Acelen Renováveis, detalhou a lógica que levou à contratação da ferramenta. “Não basta ser sustentável, precisa ser certificado”, afirmou. Segundo ele, todas as práticas realizadas desde o plantio até a produção do biocombustível precisam ser rastreadas e comprovadas de forma auditável — emissões monitoradas, elegibilidade da terra verificada, critérios de sustentabilidade documentados. É essa capacidade de demonstrar conformidade, e não apenas praticá-la, que determina o acesso aos mercados regulados onde a Acelen posiciona sua produção.

A escolha da Finboot, startup de origem espanhola com sede no Reino Unido, foi resultado de processo seletivo que avaliou 30 empresas, das quais 10 foram pré-selecionadas e submetidas a prova de competência. A operação seguirá sob gestão da parceira tecnológica em modelo que combina contratação e parceria, com avaliação de eventual internalização em etapa futura.

Parceria da Acelen Renováveis com a Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), a criação de um novo protocolo de germinação da macaúba
Parceria da Acelen Renováveis com a Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), a criação de um novo protocolo de germinação da macaúba. Foto: Acelen Agripark/Divulgação

Mercado regulado como motor da certificação

A rastreabilidade é requisito direto para acesso ao mercado europeu, onde 2025 marcou o primeiro ano de mandato regulatório obrigatório: companhias aéreas foram obrigadas a utilizar 2% do volume total de combustível na forma de SAF, meta que o bloco atingiu já no primeiro ciclo. No Brasil, a expectativa é que em 2027 entre em vigor um mandato nacional nos moldes do CORSIA — o Pacto Global para Redução de Emissões no Setor de Aviação —, seguindo os parâmetros do programa ProBioQAV, que define critérios de certificação, elegibilidade e rastreabilidade alinhados aos padrões internacionais.

Estrela aponta que o Brasil dispõe de cerca de 100 milhões de hectares de terras degradadas — área equivalente a duas Alemanhas — como base territorial para a expansão da macaúba, e que todo o plantio da empresa será realizado exclusivamente nessas áreas, sem competição com produção alimentar.

Embrapa conduz domesticação da macaúba

A rastreabilidade se apoia em uma cadeia científica já em estruturação. Em julho de 2024, a Acelen Renováveis firmou dois acordos de cooperação técnica com a Embrapa Agroenergia no valor de R$ 13,7 milhões para a domesticação da palmeira em escala comercial, com duração de cinco anos e apoio financeiro da Embrapii e do BNDES. O projeto envolve mais quatro centros da Embrapa: Algodão (com base em Campina Grande, Paraíba), Florestas, Meio Norte e Recursos Genéticos e Biotecnologia.

A coordenação científica é da pesquisadora Simone Favaro, da Embrapa Agroenergia. O foco está na superação de dois gargalos centrais: a obtenção de materiais genéticos homogêneos de alta produtividade — polinizações cruzadas na mesma palmeira geram variabilidade que compromete rendimentos — e o desenvolvimento de processos industriais mais eficazes para extração do óleo de polpa e de amêndoa.

A taxa de germinação das sementes, historicamente restrita a 5% em condições naturais, foi resolvida por protocolo da Universidade Federal de Viçosa (UFV), que permite hoje germinar até 95% das sementes. A cultura também obteve Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC) aprovado, habilitando acesso ao Proagro e à subvenção ao Seguro Rural.

No contexto nordestino, a espécie Acrocomia intumescens — variedade nativa que ocorre naturalmente em áreas do Nordeste — integra o escopo do projeto ao lado da variedade de Cerrado (Acrocomia aculeata), ambas adaptadas às áreas de interesse da Acelen entre Bahia e norte de Minas Gerais.

Acelen Renováveis plantará 800 mil mudas em 1.500 hectares na Bahia. Foto: Acelen/Divulgação
Acelen Renováveis plantará 800 mil mudas em 1.500 hectares na Bahia. Foto: Acelen/Divulgação

Capacidade produtiva e escala projetada

A implementação da rastreabilidade começa nos 500 hectares já plantados no Recôncavo Baiano, com expansão prevista para 1.500 hectares ainda em 2026 e meta posterior de 5.000 hectares incorporados ao sistema. Para sustentar essa escala, a Acelen investiu R$ 300 milhões em um centro de produção de mudas de 138 hectares em Montes Claros (MG), com capacidade para 10 milhões de mudas por ano — volume suficiente para plantio anual de 20 mil a 30 mil hectares. O mapeamento genético prévio identificou mais de 4 milhões de árvores silvestres por satélite e inteligência artificial para seleção do melhor material genético disponível na natureza.

O plano de longo prazo prevê 180 mil hectares de terras restauradas na Bahia e no norte de Minas Gerais, distribuídos conforme modelo definido pela Acelen: 50% destinados às plantações de macaúba, 30% a áreas de preservação ambiental e 20% à agricultura familiar e pequenos produtores, em sistema de cultivo consorciado com pastoreio e outras culturas alimentares. O investimento total projetado é de US$ 3 bilhões na primeira fase, com ambição de escalar para US$ 15 bilhões em cinco módulos de produção e capacidade anual de 1 bilhão de litros de SAF e HVO.

Os acordos com a Embrapa projetam 90 mil empregos diretos e indiretos ao longo da cadeia e geração anual de R$ 7,4 bilhões em renda para as populações envolvidas, com foco em áreas semiáridas do Nordeste e possibilidade de integração com agricultura familiar. A previsão da Acelen para início de produção de SAF e diesel renovável a partir do óleo de macaúba é 2030, com a biorrefinaria localizada em São Francisco do Conde (BA).

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