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Indústria avança 0,9% em fevereiro antes de guerra pressionar custos

Produção industrial cresceu 0,9% em fevereiro e acumula 3% no bimestre. Petróleo e automotivo lideram, mas conflito no Oriente Médio já eleva fertilizantes e fretes
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As influências positivas na indústria brasileira mais importantes foram assinaladas por veículos automotores, reboques e carrocerias (6,6%) e coque, produtos derivados do petróleo e biocombustíveis (2,5%). Foto: Arquivo/Agência Brasil

A produção industrial brasileira avançou 0,9% em fevereiro de 2026 em relação a janeiro, segunda taxa positiva consecutiva que eleva o acumulado do bimestre para +3,0% — mas o resultado foi construído antes da escalada do conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã, que desde março pressiona os preços de fertilizantes, fretes e derivados de petróleo com impacto direto sobre a cadeia produtiva nacional. Os dados são da Pesquisa Industrial Mensal (PIM), divulgada nesta quinta-feira (2) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)

A produção industrial se encontra 3,2% acima do patamar pré-pandemia de fevereiro de 2020, embora ainda 14,1% abaixo do nível recorde registrado em maio de 2011. Frente a fevereiro de 2025, o setor recuou 0,7% — e o acumulado do ano na comparação interanual está negativo em 0,2%, pressionado em parte pelo calendário: fevereiro de 2026 teve dois dias úteis a menos que igual mês do ano anterior.

Automotivo e petróleo puxam crescimento

O crescimento de 0,9% na comparação mensal teve perfil disseminado, com taxas positivas nas quatro grandes categorias econômicas e em 16 dos 25 ramos pesquisados. As duas principais influências positivas foram veículos automotores, reboques e carrocerias (+6,6%) e coque, produtos derivados do petróleo e biocombustíveis (+2,5%).

O setor automotivo acumulou expansão de 14,1% nos dois primeiros meses de 2026, revertendo o recuo de 9,5% verificado nos dois últimos meses de 2025 — movimento de recomposição de estoques, na avaliação do IBGE. A produção de derivados do petróleo e biocombustíveis marcou o terceiro mês consecutivo de crescimento, com ganho acumulado de 9,9% no período. Outras contribuições positivas relevantes vieram de máquinas e equipamentos (+6,8%), móveis (+7,2%), bebidas (+3,4%) e produtos têxteis (+4,4%).

“Enquanto janeiro foi caracterizado pela retomada da produção, após um dezembro marcado pela maior frequência de férias coletivas e paralisações técnicas, fevereiro se destaca pelo avanço da produção, possivelmente associado a um processo de recomposição de estoques em diferentes setores industriais”, avaliou André Macedo, gerente da PIM no IBGE.

Indicadores da Produção Industrial por Grandes Categorias Econômicas
Brasil – Fevereiro de 2026     
Grandes Categorias EconômicasVariação (%)
Fevereiro 2026 / Janeiro 2026*Fevereiro 2026 / Fevereiro 2025Acumulado Janeiro-FevereiroAcumulado nos Últimos 12 Meses
Bens de Capital2,3-13,5-12,5-4,7
Bens Intermediários1,11,11,11,7
Bens de Consumo0,9-1,8-0,8-1,6
  Duráveis0,9-9,3-6,8-1,0
  Semiduráveis e não Duráveis0,7-0,30,4-1,8
Indústria Geral0,9-0,7-0,20,3
Fonte: IBGE, Diretoria de Pesquisas, Coordenação de Estatísticas Conjunturais em Empresas 
*Série com ajuste sazonal 

Tendência de reversão confirmada

Entre as grandes categorias econômicas, bens de capital registrou a expansão mais elevada no mês (+2,3%), acumulando +5,7% no bimestre. Bens intermediários (+1,1%), bens de consumo duráveis (+0,9%) e bens de consumo semi e não duráveis (+0,7%) também avançaram, todos pelo segundo mês consecutivo.

O segmento de bens de consumo semi e não duráveis acumula +3,0% em sete meses seguidos de crescimento — indicador de demanda doméstica aquecida e de resistência do consumo popular ao longo do segundo semestre de 2025 e início de 2026. A média móvel trimestral registrou +0,3% em fevereiro e interrompeu a trajetória descendente iniciada em outubro de 2025 — sinal de reversão consistente de tendência, mais robusto que o dado pontual mensal.

Crescimento interanual concentrado em petróleo e extrativas

Na comparação com fevereiro de 2025, o quadro é mais seletivo: apenas cinco atividades cresceram. Os destaques são farmoquímicos e farmacêuticos (+20,6%), indústrias extrativas (+10,2%) e coque, produtos derivados do petróleo e biocombustíveis (+4,0%), com contribuições adicionais de bebidas (+6,2%) e manutenção, reparação e instalação de máquinas e equipamentos (+4,7%).

Os dois setores com maior peso no crescimento interanual — extrativas e derivados de petróleo — são justamente os mais expostos ao conflito no Oriente Médio, o que representa um fator de risco para a manutenção desse desempenho nos próximos meses. Na mesma comparação, bens de capital recuou 13,5% — nona taxa negativa consecutiva e a mais intensa desde dezembro de 2023 — e bens de consumo duráveis caiu 9,3%, quarta taxa negativa consecutiva.

Conflito no Oriente Médio pressiona a cadeia produtiva

O cenário de recuperação do bimestre foi construído antes da intensificação do conflito no Oriente Médio. Com pouco mais de 30 dias de guerra, o confronto entre Estados Unidos, Israel e Irã já elevou em cerca de 30% o preço dos fertilizantes nitrogenados importados, impactando diretamente culturas como cana-de-açúcar, uva e manga no Nordeste, além do milho tecnificado no Agreste pernambucano, segundo especialistas da Secretaria de Desenvolvimento Agrário de Pernambuco.

O preço do frete rodoviário de uma carreta com 30 toneladas de frutas para São Paulo ou Rio de Janeiro passou de R$ 15.800 para entre R$ 18 mil e R$ 20 mil, conforme dados do Observatório de Mercado de Manga e Uva da Embrapa Semiárido. Entre 85% e 90% dos fertilizantes consumidos no Brasil são importados, principalmente do Oriente Médio e da Rússia. Os dados de março e abril, quando os efeitos do conflito sobre fertilizantes, fretes e derivados de petróleo devem aparecer com mais clareza na cadeia produtiva, serão decisivos para avaliar se o crescimento do bimestre se sustenta diante da pressão externa sobre custos.

*Com informações da Agência IBGE e da Agência Brasil

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