
O Vale do Jequitinhonha, no norte de Minas Gerais, próximo à divisa com a Bahia, lidera a nova fronteira de produção de lítio no Brasil e simboliza o avanço do país na mineração voltada à transição energética. Em paralelo, estados do Nordeste — como Bahia, Piauí e Ceará — concentram projetos ativos de lavra e pesquisa mineral para substâncias como níquel, manganês, cobre e cobalto, segundo dados da Agência Nacional de Mineração (ANM).
Apesar desse potencial, o Brasil segue perdendo espaço na cadeia global de minerais críticos. A avaliação é do estudo Qual a importância do Brasil na cadeia global de minerais críticos da transição energética?, publicado nesta quinta-feira (4) pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com a ANM. O trabalho faz um mapeamento detalhado de reservas, produção, comércio exterior e investimentos.
Os autores do estudo — Rafael da Silveira Soares Leão (Ipea), Mariano Laio de Oliveira (ANM) e Danúbia Rodrigues da Cunha (Ipea) — destacam que o país detém algumas das maiores reservas do mundo em minerais essenciais para tecnologias de baixa emissão, mas não consegue transformar essa vantagem em protagonismo industrial.
“Não apenas o país se posiciona no ranking da produção global em patamares inferiores à sua posição nas reservas mapeadas, como também está na contramão da tendência mundial em todos os minérios analisados, com exceção do lítio”, afirmam.
Produção de lítio cresce no Vale do Jequitinhonha
Entre 2017 e 2023, a produção brasileira de lítio cresceu 74,8% ao ano, saltando de 0,5 mil toneladas para mais de 15 mil toneladas. O desempenho se deve à entrada de novas lavras no Vale do Jequitinhonha, região que concentra parte das maiores jazidas do país e se tornou o principal polo brasileiro da substância. Em 2023, o Brasil passou a ocupar o sexto lugar entre os maiores produtores mundiais.
Esse avanço contrasta com a performance dos demais minerais críticos. O estudo observa que, além do crescimento físico da produção, houve também aumento de investimentos no segmento, com destaque para o lítio beneficiado e já destinado à cadeia de baterias. “Esse segmento apresenta comportamento bastante competitivo, crescendo acima da média global”, afirmam os autores.
A presença geológica do lítio no Nordeste mineiro e seu entorno — incluindo áreas da Bahia — tem sido acompanhada por interesse de investidores e exportadores, com expectativa de que a região se consolide como um dos principais eixos da mineração verde no país. No entanto, o estudo alerta que se trata ainda de uma exceção no panorama nacional, que segue marcado pela estagnação em outros minerais estratégicos.

Produção de minerais críticos recua no país
A produção nacional de minerais críticos caiu ou ficou estagnada nos últimos sete anos, mesmo com reservas expressivas. Segundo os dados do estudo, a produção de grafita caiu 8,4% ao ano, enquanto a produção global aumentou 10,8% ao ano. O mesmo ocorreu com as terras raras, cuja produção caiu 6,4% ao ano no Brasil, diante de uma expansão global de 19,4% ao ano.
A produção de manganês recuou 7,4% ao ano no país, ainda que o Brasil detenha a terceira maior reserva mundial da substância. No caso do cobre, a retração foi de 0,4% ao ano. Apenas o lítio, o níquel (0,9% ao ano) e o zinco (3,7% ao ano) apresentaram crescimento, mas em ritmo inferior ao do mercado internacional, com exceção do lítio.
Para os autores, essa defasagem evidencia um descompasso entre a geologia e a atividade produtiva. “Deter reservas de grandes dimensões não é condição suficiente para garantir elevados patamares de produção”, afirmam. Fatores como custo marginal elevado, logística limitada, entraves regulatórios e instabilidade de investimentos explicam o resultado abaixo do potencial brasileiro.
Brasil permanece na base da cadeia de valor
A estrutura da mineração brasileira segue centrada na exportação de minérios brutos ou pouco beneficiados. O estudo mostra que o Brasil participa majoritariamente do primeiro elo da cadeia de minerais críticos, sem agregar valor no refino ou na fabricação de componentes industriais.
De acordo com os pesquisadores, “o país permanece na base da cadeia produtiva, comercializando sua produção de minérios brutos e concentrados prioritariamente para o mercado chinês”. Essa dinâmica impede a inserção do Brasil nos segmentos mais sofisticados da economia verde global, como a produção de baterias, turbinas eólicas, sistemas fotovoltaicos e veículos eletrificados.
Além da baixa agregação de valor, o país importa parte das tecnologias que utiliza na própria transição energética, o que amplia a dependência externa e limita o retorno econômico da cadeia mineral. O estudo sugere que, sem políticas industriais integradas, o Brasil corre o risco de se manter como exportador de commodities e importador de tecnologia.
China domina o refino e verticaliza sua cadeia produtiva
O estudo destaca que a China detém o controle da etapa de refino da maior parte dos minerais estratégicos. Em 2024, o país refinava 95% da grafita, 91% das terras raras e 91% do manganês utilizados globalmente. Além disso, liderava o refino de lítio (70%) e cobalto (78%), com capacidade crescente de influenciar preços e contratos globais.
Para os autores, “a hegemonia na produção e fornecimento de matérias-primas minerais é parte decisiva da estratégia chinesa de constituir cadeias produtivas verticalizadas”. Isso inclui controle acionário sobre refinarias localizadas fora da China, sobretudo na Indonésia e em países africanos, por meio de acordos de offtake e participação em joint ventures.
A consequência é a concentração do poder de mercado na produção de bens finais. Atualmente, mais de 85% das baterias para veículos elétricos são produzidas na China, que também domina a exportação de painéis solares e turbinas. O estudo observa que essa configuração resulta de políticas públicas de longo prazo iniciadas nos anos 1990.
Nordeste é apontado como vetor estratégico
A inclusão de estados do Nordeste em estratégias de mineração crítica é apontada como um dos caminhos para diversificar a base produtiva do país. Segundo dados da ANM, há processos ativos de pesquisa e lavra para níquel, cobalto, manganês e cobre na Bahia, no Piauí, no Ceará e no Rio Grande do Norte.
“A expansão da atividade mineral em territórios fora dos tradicionais centros extrativos pode promover desconcentração econômica e fortalecer cadeias industriais regionais”, afirmam os autores. Além disso, a interiorização da mineração pode reduzir a sobrecarga sobre áreas já consolidadas, como Minas Gerais e Pará.
O Vale do Jequitinhonha é citado como exemplo de como políticas de estímulo à produção e ao investimento podem ativar economias locais com vocação mineral. A continuidade desse processo no Nordeste dependerá da articulação entre mapeamento geológico, segurança regulatória e infraestrutura de escoamento e energia.
Ipea propõe articulação entre mineração, indústria e energia
Para que o Brasil avance na cadeia global de valor da transição energética, o estudo propõe a articulação entre política mineral, política industrial e política energética. O objetivo seria estimular o refino e a transformação local, reduzindo a dependência de importações e aumentando o valor agregado das exportações.
“A manutenção de grandes reservas, sozinha, não garante protagonismo; é necessário um esforço coordenado de investimentos, regulação e política industrial para transformar reservas em influência geoeconômica”, conclui o relatório.
Os autores também apontam a importância de fortalecer os instrumentos de financiamento e fomentar centros tecnológicos voltados à redução da intensidade mineral, à reciclagem e à inovação em processos industriais. A ausência dessas iniciativas deixa o país vulnerável às oscilações do mercado internacional.
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