- Publicidade -

COP30 destaca a Caatinga como ativo estratégico para o clima

Painel na COP30 destaca a Caatinga como ativo climático, com foco no sequestro de carbono subterrâneo, restauração do bioma e projetos regionais de preservação
- Publicidade -
Nordeste Caatinga semiárido COP30
O Consórcio Nordeste levou o debate sobre a Caatinga para a COP30, por ser um bioma que retém carbono no solo Foto: Divulgação

Um debate mais profundo sobre a Caatinga. O painel “Brasil Nordeste: Onde o Oxigênio se Renova”, realizado no estande Consórcio Nordeste/Zona Verde da COP30, reuniu especialistas do Instituto Nacional do Semiárido (INSA), da Embrapa e representantes do Consórcio Nordeste para debater o recaatingamento, como é chamada a valorização e restauração do bioma Caatinga para inserção na agenda climática global.

Um dos objetivos centrais do Consórcio Nordeste na COP30 é reposicionar o olhar internacional sobre a Caatinga: de um bioma marcado pela escassez à condição de “grande floresta de alta potência ambiental e econômica”, essencial no combate às mudanças climáticas.

Durante a abertura, o chefe de gabinete do Consórcio Nordeste, Glauber Piva, classificou um território que vai além das energias renováveis. “Trabalhamos para que a Caatinga seja vista não apenas como território para turbinas eólicas ou fazendas solares, mas como um espaço de inteligência ecológica, capaz de reverter a desertificação e gerar riqueza sustentável.”

O diretor do INSA, professor Etham Barbosa, e o pesquisador da Embrapa, Carlos Gava, apresentaram dados que consolidam a Caatinga como um sumidouro de carbono de elevada eficiência. Ao contrário das florestas tropicais úmidas, em que a maior parte do carbono está em folhas ou troncos, o bioma Caatinga armazena grande volume de carbono no solo e nas raízes.

“A Caatinga úmida pode sequestrar 5 toneladas de carbono por hectare. Ela seca, 1,5 a 3 toneladas. Mesmo sem folha, sem nada, ela sequestra 3 toneladas de CO₂. Isso no sistema radicular. Ela adormece no período seco, perde as folhas, mas ela está extremamente ativa na região das raízes”, destacou o professor Etham Barbosa.

Ele destacou, ainda, que a manutenção da Caatinga em pé tem um potencial econômico estimado em R$ 20 mil por hectare ao ano em créditos de carbono, considerando estoque no solo, sequestro líquido e conservação de água e nutrientes.

Árvore de umburana, planta da Caatinga que pode ser usada no combate ao mosquito Aedes aegyptiDivulgação/Embrapa
Árvore de umburana, planta da Caatinga que pode ser usada no combate ao mosquito Aedes aegypti. Foto: Embrapa/Divulgação

Certificação do carbono da Caatinga

O debate reforçou a necessidade urgente de certificação do carbono da Caatinga para que a região Nordeste possa competir no mercado internacional de créditos de carbono, transformando conservação em receita, investimento e inclusão produtiva.

“As metodologias globais medem o carbono apenas na biomassa aérea. Precisamos mostrar que a Caatinga é diferente, uma floresta que guarda sua força nas raízes”, colocou Carlos Gava.

Nesse sentido, ele defendeu que a ciência avance como instrumento de transformação. “Precisamos publicar mais estudos em revistas de alto impacto e ocupar espaços decisórios, como o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), que define as metodologias aplicadas no mundo inteiro.”

O Consórcio Nordeste debateu o pontencial da Caatinga diante dos desafios do clima e sua inserção na agenda climática global Foto Divulgação

A urgência do “recaatingamento”

A Caatinga é o único bioma exclusivamente brasileiro, abrigando cerca de 32 milhões de pessoas e integrando cerca de 54% da agricultura familiar brasileira. Estende-se pelos nove estados do Nordeste e parte do norte de Minas Gerais, com aproximadamente 5 000 espécies de plantas (mais de 700 endêmicas) e 1 200 espécies de animais, sendo 132 exclusivas.

O aquecimento global e a desertificação ameaçam essa biodiversidade, que o professor Etham Barbosa chamou de “irmã gêmea da crise climática”. “Mudança climática, perda de biodiversidade e desertificação são faces do mesmo problema. Precisamos enfrentá-las de forma integrada”, completou Pedro Lima, secretário de Desenvolvimento Regional do Consórcio Nordeste.

O INSA apresentou projetos que demonstram o potencial bioeconômico da Caatinga, como o índigo orgânico desenvolvido em parceria com o grupo Guararapes (usado em cosméticos, antibióticos e larvicidas). A Embrapa destacou a descoberta de um bacilo aerotropical na raiz do mandacaru, que deu origem ao produto comercial “Aura”, capaz de aumentar a resistência à seca em outras plantas. Outro estudo analisa a genética da “planta da ressurreição” (Jericó), que se regenera após longos períodos sem água.

Em termos de política pública, o Consórcio Nordeste apontou dois projetos estratégicos:

  • Fundo Caatinga — iniciativa inspirada no Fundo Amazônia, com foco na recuperação de áreas degradadas e inclusão produtiva das populações locais.
  • Mecanização da Agricultura Familiar — parcerias nacionais e internacionais (como com a China, Ministério da Ciência e Tecnologia, MDA) para desenvolver microtratores e implementos agrícolas no Brasil.

Apoio do BNB

Durante a COP30, o Banco do Nordeste anunciou a destinação de R$ 50 milhões em recursos não reembolsáveis para ações de preservação e recuperação da Caatinga nos próximos cinco anos. No mesmo contexto, o Governo do Ceará apresentou o painel “Recaatingamento e Restauração da Caatinga”, conduzido pela secretária do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Vilma Freire, e pela procuradora da Semace e coordenadora do Grupo de Trabalho de Recaatingamento, Luciana Barreira. A iniciativa detalhou o funcionamento do GT, que reúne órgãos estaduais, universidades e organizações da sociedade civil com o objetivo de combater a desertificação e recuperar áreas degradadas do bioma.

Veja também:

COP30: Brasil lança plano nacional para aumentar arborização urbana

- Publicidade -
- Publicidade -

Mais Notícias

- Publicidade -