
O mercado de idiomas no Brasil vive um momento de expansão, mas também de incertezas. Segundo a Associação Brasileira de Franchising (ABF), o segmento de Educação cresceu 4,6% em faturamento no primeiro semestre de 2025, movimentando mais de R$ 7,5 bilhões. No Nordeste, o desempenho foi ainda um pouco superior, com alta de 4,9% e receita acima de R$ 877 milhões. Apesar do cenário positivo, especialistas alertam que o avanço da inteligência artificial (IA) pode enfraquecer o ensino de idiomas nos próximos três a cinco anos, sobretudo diante de dispositivos capazes de oferecer tradução simultânea em tempo real, como os fones de ouvido inteligentes que já chegam ao mercado.
A inovação, baseada em IA, promete derrubar barreiras linguísticas e já levanta questionamentos sobre o futuro de um dos segmentos mais tradicionais da educação. Ao permitir que usuários conversem em diferentes idiomas sem dominar o idioma, a tecnologia pressiona escolas de idiomas e franquias a repensarem sua proposta de valor.
Ameaça ao modelo tradicional de idiomas
Especialista em marketing digital e empreendedorismo, Felipe Pereira avalia que a novidade pode alterar radicalmente a forma como as pessoas encaram o aprendizado de idiomas estrangeiros. Para ele, a mudança atinge diretamente a proposta de valor que sustentou as escolas de idiomas nas últimas décadas.
“O inglês deixou de ser um diferencial e se tornou obrigatório no mercado de trabalho. Agora, com tecnologias como essa, o aprendizado falado e ouvido perde muito valor, porque as pessoas poderão se comunicar sem precisar dominar a língua”, analisa. Pereira acrescenta que a revolução não se limita à comunicação escrita: “Se antes o Google Tradutor já facilitava o inglês lido, agora estamos diante de uma transformação na comunicação verbal. Esse movimento pode provocar um colapso em escolas e cursos de inglês nos próximos cinco anos”.
Na mesma linha, Luiz Dantas Kotkievicz, CEO e fundador da franquia pernambucana Inglês Easy, reconhece a pressão tecnológica como um risco real. “O idioma vai deixar de ser uma barreira em várias situações do dia a dia. Para que aprender inglês se os conteúdos já virão traduzidos e as conversas poderão ser intermediadas por gadgets? As traduções vão melhorar cada vez mais, e só os melhores sobreviverão no ensino de idiomas”, afirma.
Apesar da preocupação, Kotkievicz ressalta que a rede — que em 2024 registrou faturamento de R$ 4 milhões e projeta crescimento de 25% para 2025 — vem investindo em novas ferramentas. Uma das apostas é a criação de um chatbot integrado ao WhatsApp, previsto para 2026, voltado à prática de conversação dos alunos. “Será um complemento, não uma substituição dos professores”, explica.

O futuro como integração
Nem todos no setor, porém, enxergam o avanço da IA apenas como ameaça. É o caso de Alcione Gusmão, CEO do Instituto Brasileiro de Línguas (IBL), que defende um modelo de integração entre tecnologia e ensino tradicional.
“Recursos como traduções automáticas são úteis em situações pontuais, mas não substituem a experiência completa de aprender e dominar um idioma. A tradução pode servir, mas não garante que a pessoa consiga se comunicar com naturalidade, compreender culturalmente ou interagir com segurança”, afirma. Para ela, a inteligência artificial deve ser incorporada como ferramenta de apoio ao ensino. “O diferencial humano — formar opinião, ser livre, autônomo — ainda faz toda a diferença frente às IAs”, acrescenta.
Fundado em 1992, o IBL mantém sede em Maceió (AL) e 17 unidades distribuídas em três estados do Nordeste, além de uma operação em Portugal. Para Gusmão, a expansão internacional é também reflexo da visão de que o aprendizado de idiomas vai além da tradução literal e requer imersão cultural.
A perspectiva de integração também é compartilhada por Pablo Vilela, professor da escola bilíngue ABA Maple Bear e Apple Distinguished Educator, título concedido a educadores que se destacam no uso da tecnologia para potencializar o aprendizado. “Quanto mais tivermos acesso, melhor para o aprendizado e para aquisição do conhecimento. Uma de nossas características é ajudar o aluno a utilizar a tecnologia a seu favor”, explica.
Para Vilela, a tecnologia pode ser especialmente útil na prática individual, mas não substitui a interação humana. “Escrita, fala, leitura, escuta. Três delas você consegue fazer sozinho — a escuta, escrita e leitura. A grande dificuldade é falar, então se ele souber que existem IAs que ele possa praticar, é uma forma dele melhorar o inglês, mas nada substitui o professor”, afirma.
O educador ressalta ainda que, no Brasil, questões socioeconômicas também influenciam a adoção dessas tecnologias: “Estamos falando de uma realidade onde as pessoas não têm poder aquisitivo para ter gadgets mais avançados. Quem procura aprender um idioma busca desenvolvimento profissional”.

Pressão e oportunidade
O setor de idiomas enfrenta, assim, uma encruzilhada: cresce em faturamento, mas é desafiado por novas tecnologias e mudanças no comportamento do consumidor. Andrea Gomes, coordenadora regional Norte/Nordeste da ABF, reconhece a complexidade do momento. “A IA tem crescido muito rápido, trazendo mais produtividade para as franqueadoras, e naturalmente, quem conseguir se conectar, vai ter uma nova habilidade”, analisa.
Apenas em Pernambuco, os números de serviços educacionais mapeados pela ABF mostram o crescimento do setor: o faturamento saltou de R$ 173,7 milhões em 2024 para R$ 181,3 milhões em 2025. O relatório Skills of the Future, divulgado pelo Santander em julho, mostra que 45% dos brasileiros já estudam idiomas por conta própria, o maior índice entre 14 países da Europa e das Américas. Além disso, 77% dos entrevistados afirmaram já ter usado plataformas de aprendizado online e 78% avaliaram a experiência de forma positiva — dados que evidenciam como os consumidores já buscam alternativas aos modelos tradicionais de ensino de idiomas, antecipando mudanças que a IA pode acelerar.

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