
Por Paulo Magnus, CEO da MV*
Enquanto boa parte dos estados e municípios brasileiros ainda operam sistemas de saúde públicos fragmentados, analógicos e sem memória institucional, o Estado de Goiás mostra ao país que é possível fazer diferente e melhor.
Em 2024, Goiás foi reconhecido como o estado com mais saúde digital do Brasil, pela Associação Brasileira de Entidades Estaduais de Tecnologia da Informação e Comunicação (Abep-TIC). Agora, ele avança novamente ao se tornar o primeiro estado a implantar um command center no sistema público de saúde. Trata-se de uma central tecnológica de monitoramento em tempo real que inova a forma como os hospitais são geridos e, mais importante, como os pacientes são atendidos.
Parece algo simples, mas é algo revolucionário na saúde pública do Brasil. Trata-se de uma mudança estrutural na forma de gerir os atendimentos do SUS, com foco em dados, interoperabilidade e gestão baseada em evidências.
Isso quer dizer que o estado do centro-oeste está indo além da simples gestão de leitos e propõe um novo conceito: o Centro de Comando de Fluxo e Navegação de Pacientes. Mais do que regular ocupações, o objetivo é alocar o paciente certo, no hospital certo, no tempo certo, reduzindo variabilidade, padronizando condutas e promovendo uma atuação sistêmica.
Todos os dados dos 4 mil leitos dos hospitais estaduais estão integrados em uma única base tecnológica, com prontuário eletrônico único, cadastro único do cidadão e histórico clínico centralizado sob domínio do estado. Isso significa que, a cada troca de uma Organização Social (OS) gestora, o que muda é apenas a chave de acesso: as informações, os protocolos, os resultados e a trajetória assistencial do paciente permanecem íntegros, sob a guarda pública.
Quando me deparo com uma iniciativa como essa, faço uma reflexão: por que os outros estados e municípios insistem em utilizar softwares que não são integrados e em não ter o controle dos dados?
Segundo dados da associação Saúde Digital Brasil, apenas um terço dos estabelecimentos públicos de saúde no Brasil utilizam sistemas integrados de informação em saúde. Isso significa que a maior parte dos dados clínicos ainda circula em sistemas isolados, planilhas ou, pior, em papel. Segundo a pesquisa TIC Saúde 2023, 15% dos hospitais públicos ainda mantêm prontuários total ou parcialmente em papel.
Também precisamos entender por que aceitamos perder todo o histórico de dados a cada nova OS, como se a saúde de milhões de brasileiros pudesse ser zerada a cada contrato.
Enquanto isso ocorre em diversas partes do Brasil, Goiás ativa sua central de comando com algoritmos preditivos, que calculam o risco de superlotação em tempo real, com base no volume de entradas nas emergências, tempo de boarding de internação e taxa de ocupação. A plataforma classifica automaticamente o risco e, com base na memória dos dados históricos, ainda indica quais dias da semana e meses do ano têm maior probabilidade de colapsos, permitindo intervenções antecipadas e decisões estratégicas.
Se a tecnologia está disponível, os modelos estão testados e a regulação permite, o que falta? Penso que possa faltar coragem para romper com a fragmentação e para deixar de enxergar tecnologia como custo e começar a tratá-la como pilar fundamental.
Goiás escolheu avançar e, com isso, acendeu uma luz sobre um novo amanhã possível para o SUS. Um futuro onde dados substituem achismos e onde o cuidado é contínuo, mesmo com gestões distintas. É um estado em que se presta contas com precisão e onde se evitam mortes por desorganização.
O Brasil precisa parar de improvisar na saúde. O que funciona já está sendo feito e basta replicar.
*Paulo Magnus é engenheiro, empreendedor e CEO da MV, multinacional brasileira líder em tecnologia para saúde e presente em mais de 5 mil instituições na América Latina
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