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Pás eólicas: Aeris Energy acumula perda de R$ 412,9 mi com curtailment

Líder em pás eólicas na América Latina, Aeris vê receita cair 51% em um ano, opera com metade das linhas desativadas e defende regras claras para os cortes forçados de geração

De Fortaleza

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Fábrica da Aeris Energy em Itapiúna (CE): companhia opera com quatro linhas ativas e outras quatro desativadas em meio à retração do setor eólico - Foto: Divulgação
Fábrica da Aeris Energy em Itapiúna (CE): companhia opera com quatro linhas ativas e outras quatro desativadas em meio à retração do setor eólico. Foto: Divulgação

A Aeris Energy, principal fabricante de pás eólicas da América Latina, encerrou o terceiro trimestre de 2025 (3T25) com números que revelam o cenário desafiador do setor eólico brasileiro. Em meio à baixa demanda doméstica, cortes forçados de geração (curtailment) e custos fixos elevados, a companhia registrou prejuízo líquido de R$ 144,4 milhões, receita operacional líquida de R$ 179 milhões (queda de 26,1% frente ao 2T25 e de 51,3% ante o 3T24) e EBITDA ajustado negativo em R$ 48,4 milhões, com margem de -27,1%.

O resultado consolidado de janeiro a setembro mostra prejuízo acumulado de R$ 412,9 milhões, quase quatro vezes superior ao mesmo período de 2024. A margem líquida negativa atingiu -80,6% no trimestre. A dívida bruta totalizou R$ 1,75 bilhão, elevando a dívida líquida a R$ 1,72 bilhão, 5,9% maior que em junho. A Aeris ainda negocia com o BNDES uma dívida de R$ 93 milhões com vencimento em 2026. Os investimentos somaram R$ 5,8 milhões, voltados principalmente à manutenção de projetos existentes.

“A receita da empresa foi de R$ 179 milhões no terceiro trimestre, com R$ 631 milhões nos nove meses do ano. O prejuízo chegou a R$ 144,4 milhões, somando R$ 412,9 milhões de janeiro a setembro. Essa retração é reflexo da expressiva diminuição dos investimentos em pás eólicas, apesar disso, tivemos exportação representando mais de 50% da receita”, explicou o CFO José Azevedo.

A Aeris encerrou o trimestre com apenas quatro linhas de produção ativas e quatro desativadas, todas classificadas como “maduras”, ou seja, com moldes e tecnologia já estabelecidos, porém operando com baixa eficiência. Em 2025, a companhia produziu o equivalente a 111 MW em pás, uma queda de 35% em relação ao 2T25 (172 MW) e de 68% frente ao 3T24 (352 MW).

O número de conjuntos de pás (sets) faturados despencou de 72 no 3T24 para apenas 25 no 3T25, evidenciando a forte ociosidade das fábricas. “De 2023 a 2025 tivemos uma queda de 50% no volume de MW entregues. Continuamos focados em melhorar a eficiência e na operação de serviços, mas estamos com uma capacidade ociosa enorme”, afirmou o CEO Alexandre Negrão.

Curtailment dobra em um ano e amplia incertezas

O principal fator citado pela empresa para a retração é o avanço do curtailment, o corte forçado de geração de energia, determinado pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) quando há excesso de oferta e limitação na rede de transmissão. De acordo com a Aeris, operacionalmente, gera ociosidade de ativos e exige ajustes na operação e manutenção. Estrategicamente, aumenta a incerteza regulatória e de mercado, podendo desestimular novos investimentos e demandando soluções em infraestrutura, armazenamento e flexibilização da geração para mitigar cortes e perdas financeiras.

Segundo dados mencionados pela Aeris, baseados em relatório do BTG Pactual, o curtailment eólico atingiu 20,4% no 3T25, ante 11,9% no 2T25 e 11,6% no 3T24. Os estados mais afetados são Rio Grande do Norte (30,9%), Ceará (30,5%), Pernambuco (19,5%) e Bahia (16,7%), justamente as principais regiões de atuação da Aeris.

Alexandre Negrão, CEO da Aeris Energy, durante teleconferência de resultados: “Curtailment é hoje o principal desafio da eólica brasileira"  -  Foto: Divulgação
Alexandre Negrão, CEO da Aeris Energy, durante teleconferência de resultados: “Curtailment é hoje o principal desafio da eólica brasileira”. Foto: Divulgação

“É um tema muito preocupante. Pela característica do potencial eólico brasileiro, concentrado no Nordeste, a temporada de ventos se acelera a partir de julho, o que coincide com o aumento dos cortes. Em 2024 tivemos média de 10% de curtailment no ano; agora já estamos em 17%. E isso deve aumentar conforme a geração renovável cresce. Precisamos de regras claras e de uma legislação que funcione para o setor”, defendeu Negrão.

Para a professora Michele Rodrigues, do curso de Engenharia Elétrica da Faculdade de Engenharia Industrial (FEI), o curtailment “é uma medida necessária para preservar a segurança e a confiabilidade do sistema elétrico”. Ela explica que “a geração e o consumo precisam estar sempre equilibrados” e que “quando há excesso de oferta, o sistema pode ficar sobrecarregado e até colapsar”.

A especialista destaca ainda que o problema se intensifica com a expansão acelerada da geração distribuída, ou seja, “sistemas solares instalados em residências e empresas que injetam energia diretamente na rede local”. Embora positiva, ela afirma que “essa descentralização também contribui para a sobreoferta de energia e torna o gerenciamento mais complexo, já que o ONS não tem controle direto sobre essa geração”.

De acordo com Michele Rodrigues, esse desafio se agravou com o crescimento acelerado da micro e minigeração distribuída (MMGD), especialmente no Nordeste. “A micro e a minigeração têm um papel positivo na democratização da energia limpa, mas também geram desequilíbrios locais”, observa. Em 2024, a MMGD alcançou 23,7 mil MW de potência instalada, enquanto a geração distribuída de usinas Tipo III chegou a 6,2 mil MW. “Esse volume reduziu significativamente a carga percebida pelo ONS, o que paradoxalmente aumentou a necessidade de cortes em usinas centralizadas para manter a estabilidade do sistema”, explica.

A professora também lembra que o sistema enfrenta limitações estruturais na exportação de energia das regiões Norte e Nordeste para o Sudeste, onde está a maior parte do consumo. “Nos períodos de forte vento e sol, o Nordeste produz muito mais do que consegue enviar. A rede chega ao limite, e o ONS precisa cortar geração para evitar falhas sistêmicas”, detalha.

MP 1304 e busca por alívio regulatório

O CEO destacou ainda a Medida Provisória 1304, que propõe a redistribuição dos custos do curtailment. “A MP melhora o problema do setor. Da forma como está redigida, a conta seria do consumidor, sendo pulverizada, em vez de recair apenas sobre desenvolvedores e geradores. Foi um ponto favorável, mas ainda depende da sanção presidencial”, afirmou.

Para Lucas Melo, especialista em energia e presidente da Frente Cearense de Geração Distribuída, o posicionamento do governo reflete a importância da previsibilidade para o crescimento do mercado. “A MP 1.304 reafirma que quem investiu na energia solar pode seguir com tranquilidade. O retorno financeiro do setor permanece altamente competitivo no Brasil, e isso fortalece a confiança de novos investidores”, destaca o executivo.

Apesar dos pontos positivos, Melo afirma que é necessário cautela em relação a outras medidas em debate no Congresso, como a prorrogação de térmicas fósseis. “Precisamos garantir que o avanço da geração distribuída não seja minado por incentivos a fontes mais caras e poluentes. O Brasil já provou que as renováveis são o caminho mais eficiente para unir competitividade, sustentabilidade e inclusão”, conclui.

Pás eólicas prontas para exportação: em meio ao cenário negativo, vendas externas já representam mais da metade da receita da Aeris - Foto: Divulgação
Pás eólicas prontas para exportação: em meio ao cenário negativo, vendas externas já representam mais da metade da receita da Aeris. Foto: Divulgação

Exportações e serviços são os pilares de sustentação

Com o mercado doméstico retraído, a Aeris reforça sua estratégia de internacionalização e diversificação de receitas. A venda de pás para o exterior representou 51,6% da receita total no trimestre, enquanto a divisão de serviços, que inclui inspeção, manutenção e operação de pás eólicas, respondeu por 29,3% do faturamento, com crescimento de 21,6% em relação ao 2T25.

“Continuamos focados na operação de serviços e na exportação, que vem crescendo e deve ser uma realidade consolidada nos próximos trimestres”, disse Negrão.

Entre os clientes, a Vestas continua sendo o principal parceiro. A Aeris mantém conversas sobre novos contratos, inclusive com previsão de entregas a partir de 2027, quando o mercado deve retomar ritmo de expansão.  “Apesar do cenário nebuloso sobre a demanda de energia, temos boas expectativas de crescimento entre 2027 e 2028, quando poderemos voltar ao patamar de 2,5 GW entregues”, projetou o CEO.

Data centers vistos com bons olhos

Com a expectativa de um novo ciclo de investimentos em energia renovável a partir de 2026, impulsionado por projetos de hidrogênio verde, armazenamento e grandes consumidores elétricos como data centers, a Aeris busca atravessar o período de retração preservando sua estrutura produtiva.

“Nosso foco é eficiência, disciplina financeira e diversificação. A entrada de datas centers e hidrogênio verde deve nos impactar positivamente. O projeto do data centers anunciado no Ceará, por exemplo, deve nos impactar, mesmo que indiretamente”, concluiu Negrão.

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