
A mecanização da colheita de cana-de-açúcar avança no Nordeste como resposta a uma combinação de falta de mão de obra, envelhecimento dos trabalhadores rurais, custos elevados, diesel mais caro e necessidade de ampliar produtividade. Durante o 41º Simpósio da Agroindústria da Cana-de-Açúcar de Alagoas, em Maceió, usinas de Alagoas e Pernambuco apresentaram experiências que mostram como máquinas, dados e planejamento passaram a ser decisivos para manter a competitividade do setor.
O tema apareceu como um dos principais desafios para a safra 2026/2027, prevista para iniciar no Nordeste em setembro. Embora a mecanização já esteja consolidada em parte das áreas canavieiras do Centro-Sul, a realidade nordestina impõe obstáculos próprios, como relevo acidentado, encostas, áreas menores, limitações de frota e dependência histórica do corte manual.
Na Usina Caeté Matriz, do Grupo Carlos Lyra, o envelhecimento da mão de obra rural tem sido um dos fatores que pressionam a expansão da colheita mecanizada. Segundo Paulo Victor Bezerra Cavalcanti, a idade média do trabalhador rural da unidade passou de 34 anos, em 2015, para 41 anos em 2026. Com isso, o rendimento do corte manual vem caindo, aumentando a necessidade de mecanizar as áreas possíveis.
“A média de idade vai subindo, o rendimento do corte por homem/dia vai caindo. Então vem a necessidade de mecanizar onde der”, afirmou.
Durante o painel, a Caeté apresentou dados da safra 2025/2026, que apontam que 75% da cana colhida foi de forma mecanizada e 24% de forma manual. O volume mecanizado passou de cerca de 1 milhão de toneladas entre 2019 e 2020 para 1,715 milhão de toneladas no último ciclo. Na cana de fornecedores, o avanço também foi expressivo, saindo de aproximadamente 60 mil toneladas mecanizadas para 359 mil toneladas.
“Quando eu corto mecanizado, transporto praticamente 20 toneladas a mais no caminhão. Isso me dá um custo de frete bem mais barato”, destacou Paulo Cavalcanti.
Os cases apresentados durante o Simpósio mostram que as usinas nordestinas estão em diferentes estágios de mecanização. A Caeté informou ter alcançado 75% da colheita mecanizada, enquanto a Usina Santa Clotilde saiu de 18% para 43%, já na usina Coruripe, a mecanização passou de cerca de 40% para um patamar próximo de 90%, mudando a lógica da operação. A Usina Trapiche, em Pernambuco, projeta sair de 136 mil para 180 mil toneladas mecanizadas e vê potencial de chegar a 30% de mecanização, mesmo em áreas de relevo mais complexo.

Santa Clotilde reduz custos com eficiência operacional
Na Usina Santa Clotilde, de Alagoas, a mecanização vem sendo tratada como parte de uma estratégia de eficiência operacional. Segundo Pedro Sarmento, a unidade saiu de 18% para 43% de colheita mecanizada, com alta de 147% no volume de cana colhida por máquinas. No mesmo período, a dependência da cana manual caiu de 700 mil para 500 mil toneladas.
“A gente não ganha dinheiro com açúcar nem com etanol, a gente ganha dinheiro com eficiência operacional. O preço está definido, o custo está na nossa mão”, afirmou.
A Santa Clotilde também mostrou que o avanço da mecanização precisa considerar a produtividade agrícola. Segundo Sarmento, a colheita mecanizada não pode ser avaliada apenas pelo volume total colhido, mas também pelo rendimento da área, onde há influência na entrega de cana à indústria e no consumo de combustível das máquinas. “Colheita mecanizada não pode olhar só a tonelada, tem que olhar a tonelada e o rendimento agrícola”, disse.
Coruripe usa dados para elevar produtividade
Na Usina Coruripe, o avanço da mecanização também veio acompanhado de maior rigor na gestão de dados, planejamento agrícola e manutenção. Segundo João Airton Malta Feitosa Filho, a produtividade média da colheita mecanizada chegou a 720 toneladas por máquina na última safra, superando a meta interna de 700 toneladas.
O crescimento da mecanização, no entanto, aumentou a complexidade da operação. Segundo ele, quando a usina tinha cerca de 40% de colheita mecanizada, era possível escolher as áreas mais favoráveis para as máquinas. Com o avanço para um patamar próximo de 90%, os talhões mais difíceis passaram a entrar no planejamento.
“Lá atrás, quando tínhamos 40% de colheita mecanizada, você escolhia onde queria colher. Agora não tem mais isso”, afirmou.
Um dos instrumentos usados pela Coruripe foi a análise de “colheitabilidade” em 100% dos blocos da usina. A ferramenta considera variáveis como horas produtivas, TCH estimado, velocidade, percentual de manobra, espaçamento e problemas específicos da área, como canais e redes elétricas. A partir disso, a usina define a meta diária de cada máquina e reorganiza as frentes de colheita.
“Não adianta dizer que a meta de uma colhedora é 720 toneladas. Depende do bloco que ela faz”, explicou.

Relevo desafia avanço da mecanização no Nordeste
Em Pernambuco, a Usina Trapiche apresentou um dos principais desafios da mecanização no Nordeste de adaptar máquinas e operações a áreas de relevo mais difícil. Segundo Plínio Duarte, a unidade trabalha com encostas, pedras, declividade e limitações que tornam a mecanização mais complexa do que em regiões planas.
A Trapiche colheu 136 mil toneladas de cana mecanizada na safra passada e pretende chegar a 180 mil toneladas neste ciclo. A expectativa é avançar gradualmente, usando mapeamento de áreas, imagens de satélite, levantamento de declividade, adaptação de máquinas menores e reorganização de rotas.
“Apesar da declividade, acreditamos que podemos chegar a até 30% de colheita mecanizada, trabalhando encostas suaves, curvas de base largas e ajustando as áreas para esse potencial”, afirmou.
Diesel caro abre debate sobre máquinas a etanol
Se a mecanização avança como resposta à falta de mão de obra, o custo do diesel aparece como o próximo desafio da operação. Durante os painéis desta quinta-feira (9), o uso de máquinas movidas a etanol entrou em debate, já que os altos custos com o diesel têm impactado as finanças das indústrias.
Representando a John Deere, Rogério Silva informou que a marca vem desenvolvendo projetos com etanol, incluindo protótipo de colheitadeira e dois tratores. Ele disse que a empresa busca oferecer alternativas de fonte de energia para o setor sucroenergético e atacar faixas de motorização consideradas estratégicas para as usinas.
A Case IH também afirmou que acompanha essa demanda, mas ponderou que o desenvolvimento de máquinas com novas fontes energéticas exige tempo, investimento e segurança operacional. A empresa citou que já possui tratores a gás disponíveis no mercado e que, no curto prazo, trabalha para reduzir o consumo de diesel das máquinas atuais, reconhecendo que o combustível é uma das principais dores do setor.

Máquinas miram menos perdas e mais eficiência
As fabricantes também apresentaram tecnologias voltadas à redução de perdas, de impurezas e de consumo. A John Deere destacou uma nova geração de colhedoras, com redesenho do sistema de limpeza primária, novas ferramentas de diagnóstico, ajuste remoto de parâmetros e câmera para avaliação em tempo real da qualidade do corte.
Segundo Rogério Silva, os testes indicam até 20% menos impureza vegetal e até 10% menos consumo de combustível em determinados modelos, com ganho de eficiência na entrega da matéria-prima à indústria.
“O que a gente traz é mais matéria-prima de qualidade entregue na indústria, diminuição de custo operacional e mais toneladas no final do dia”, afirmou.
Já João Testa, da Case IH, defendeu que pequenas regulagens podem representar ganhos relevantes na colheita, especialmente no tamanho do tolete e na rotação do extrator primário. Segundo ele, perdas pouco visíveis no campo podem comprometer o resultado econômico da operação.
“O custo para colher com perda ou sem perda é quase o mesmo. Quando se colhe com perda, além de levar menos cana, ainda se gasta mais combustível”, afirmou.
Para Testa, a telemetria e a automação tendem a ganhar espaço porque permitem reduzir erros operacionais e padronizar decisões no campo. A empresa também trabalha em tecnologias para diminuir consumo de combustível e aumentar a eficiência das colhedoras já em operação.
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